Rio de Janeiro, 18 de Maio de 2026

Quando a política morre, a barbárie governa

Por Marcos Verlaine – Em tempos de descrédito institucional, ódio digital e radicalizações múltiplas, cresce a necessidade de reafirmar a política como instrumento indispensável para enfrentar desigualdades.

Segunda, 18 de Maio de 2026 às 09:25, por: CdB

Em tempos de descrédito institucional, ódio digital e radicalizações múltiplas, cresce a necessidade de reafirmar a política como instrumento indispensável para enfrentar desigualdades.

Por Marcos Verlaine – de Brasília

Trata-se, pois, de a crise da política e o erro do antipoliticismo. Poucas ideias são tão perigosas para qualquer sociedade quanto a crença de que a política não serve para nada.

Quando a política morre, a barbárie governa | Congresso Nacional
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Ao longo da história, sempre que a política1foi desacreditada, esvaziada ou destruída, o que emergiu no lugar dessa ferramenta não foi ordem, prosperidade ou moralidade superior. O vazio político quase sempre foi ocupado pela violência, pelo autoritarismo, pela guerra ou pela barbárie.

A política é, talvez, a atividade humana mais sofisticada e complexa já criada pela civilização. Não porque seja perfeita — está longe disso —, mas porque constitui o único espaço capaz de organizar interesses divergentes sem transformar diferenças em conflitos permanentes. Fora da política, resta a imposição da força.

Essa percepção não é nova. Desde Aristóteles2 como “animal político”, até Hannah Arendt3, que via a política como o espaço da ação coletiva e da liberdade, a tradição da ciência política compreende que a convivência social depende da construção permanente de pactos, mediações e consensos possíveis.

O problema contemporâneo é que parte significativa das sociedades passou a enxergar a política apenas como sinônimo de corrupção, privilégios ou disputas vazias de poder.

Esse fenômeno produziu perigosa expansão do antipoliticismo, que é terreno fértil para aventureiros autoritários, discursos de ódio e soluções simplistas para problemas complexos.

Democracia não elimina conflitos; civiliza-os.

Sociedade sem conflitos simplesmente não existe. Países são compostos por classes sociais, interesses econômicos, visões culturais, identidades e projetos distintos de poder.

A política não elimina essas contradições; essa cria mecanismos para administrá-las dentro de regras civilizatórias.

É exatamente por isso que democracias são lentas, barulhentas e frequentemente tensas. Negociar é mais difícil do que impor. Construir maioria exige mais inteligência do que decretar obediência.

A política democrática pressupõe diálogo, concessão, disputa legítima e capacidade de convivência entre adversários.

Quando essa lógica se rompe, o que aparece é a lógica da eliminação do outro.

A história mundial mostra que regimes que desprezaram a política institucional em nome da “salvação nacional”, da “ordem” ou da “moralização” terminaram produzindo perseguições, censura, violência e concentração extrema de poder.

O autoritarismo nasce justamente quando setores da sociedade passam a acreditar que a mediação democrática é dispensável.

Por isso, defender a política não significa defender políticos específicos. Significa defender o princípio civilizatório segundo o qual nenhuma sociedade resolve seus impasses estruturais pela violência.

Desigualdades

A política também permanece como o espaço possível para enfrentar desigualdades, desequilíbrios sociais e injustiças históricas.

Nenhuma transformação social relevante ocorreu fora da arena política. Direitos trabalhistas, voto feminino, educação pública, Seguridade Social, liberdade sindical, combate ao racismo, políticas de saúde e proteção social foram conquistas produzidas por disputas políticas organizadas.

Mesmo os avanços econômicos dependem da política. Infraestrutura, industrialização, distribuição de renda, políticas fiscais, investimentos públicos, regulação financeira e desenvolvimento tecnológico são resultados de decisões políticas.

Isso se torna ainda mais evidente em países profundamente desiguais como o Brasil. A desigualdade brasileira não é apenas econômica; essa é territorial, racial, educacional e institucional. Sem política pública consistente, não há redução sustentável da pobreza nem ampliação real da cidadania.

A crença de que “o mercado resolve tudo sozinho” ignora que mercados também refletem relações de poder. Sem mediação política, os mais fortes tendem a impor seus interesses aos mais frágeis.

Nada disso significa ignorar a profunda crise de confiança que atravessam as democracias contemporâneas. Em muitos países, a população passou a perceber instituições políticas como distantes, burocráticas ou capturadas por interesses privados.

Essa erosão da credibilidade tem múltiplas causas: corrupção, desigualdade persistente, hiperpolarização, manipulação digital, concentração econômica e incapacidade de os governos responderem rapidamente às angústias sociais.

As redes digitais aprofundaram esse processo ao transformar a política em espetáculo permanente, dominado por slogans, desinformação e radicalização emocional. O debate público perdeu profundidade justamente quando os problemas nacionais ficaram mais complexos.

Nesse ambiente, cresce a tentação de soluções messiânicas: líderes que prometem governar sem mediações, instituições ou limites democráticos. Mas não existe sociedade complexa governável sem política organizada. O que existe, nesses casos, é concentração autoritária de poder.

O verdadeiro desafio do século 21 talvez não seja substituir a política, mas resgatar sua legitimidade social.

Ética

Para cumprir seu papel histórico, a política precisa recuperar o sentido coletivo. Isso exige ética pública, transparência, fortalecimento institucional e participação cidadã permanente.

Democracias não sobrevivem apenas de eleições. Dependem também de sindicatos, imprensa livre, universidades, movimentos sociais, partidos, associações civis e espaços públicos de debate. Quando esses instrumentos enfraquecem, a democracia perde capacidade de representar a sociedade real.

A política continuará sendo imperfeita porque sociedades humanas também são imperfeitas. Ainda assim, essa permanece como o instrumento mais avançado já construído para transformar conflito em negociação e divergência em convivência possível.

Sem política, não existe solução duradoura para os problemas estruturais de um país. Existe apenas força bruta, instabilidade e regressão civilizatória.

No fim, a grande escolha das sociedades nunca foi entre política e ausência de política. A verdadeira escolha sempre foi — e continua sendo — entre política ou barbárie.

1 “conceito inteligente de política” vai além da simples disputa pelo poder ou da politicagem, com foco na capacidade de aprender, antecipar cenários e gerenciar relações de poder para resolver conflitos de forma criativa e produtiva, que gera valor coletivo (relação ganha-ganha).

2 Aristóteles (384 a.C. -322 a.C.) foi um dos mais importantes filósofos gregos e o principal representante da terceira fase da história da filosofia grega “a fase sistemática”. Escreveu série de obras que falavam sobre política, ética, moral e outros campos de conhecimento. Foi professor de Alexandre, o Grande (356 a.C. – 323 a.C.).

3 Hannah Arendt. Nascida Johanna Arendt; Linden, 14 de outubro de 1906, Nova Iorque, Estados Unidos, 4 de dezembro de 1975. Foi filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais influentes do século 20. Notabilizou-se pelas reflexões sobre o totalitarismo e pela criação do conceito de “banalidade do mal”.

 

Marcos Verlaine, é jornalista, analista político e assessor parlamentar do Diap.

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