Rio de Janeiro, 13 de Maio de 2026

‘Caso Ypê’ é novo retrato da irresponsabilidade bolsonarista

Análise sobre a irresponsabilidade dos bolsonaristas em relação à saúde pública, destacando o caso do detergente Ypê e a reação da Anvisa.

Quarta, 13 de Maio de 2026 às 09:43, por: CdB

Assim como na pandemia, em que Jair Bolsonaro incentivou medidas contrárias à ciência, agora a extrema direita ‘bebe detergente’ para contrariar a Anvisa.

Por Murilo da Silva – de São Paulo

Não se sabe ao certo se realmente bolsonaristas chegaram a beber o detergente Ypê, no entanto a publicação de vídeos simulando tal ato é mais um episódio da irresponsabilidade dos apoiadores da extrema direita que trazem tudo para dentro do seu prisma ideológico. Não é de hoje que eles fazem isso, desde a pandemia de covid-19 a sociedade brasileira observa cenas lamentáveis de relativização na saúde como forma de politizar o tema.

‘Caso Ypê’ é novo retrato da irresponsabilidade bolsonarista | Não se sabe ao certo se realmente bolsonaristas chegaram a beber o detergente Ypê
Não se sabe ao certo se realmente bolsonaristas chegaram a beber o detergente Ypê

Fica evidente pelos vídeos que os bolsonaristas bebem algo diferente do detergente, ainda que dentro da garrafa do produto. No entanto, a ação irresponsável pode estimular que crianças repitam tal ato, o que pode levar à intoxicação.

A onda de vídeos começou depois da suspensão de produtos da marca Ypê, motivada por uma avaliação técnica da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que encontrou a bactéria Pseudomonas aeruginosa na produção com final lote 1 da fábrica de Amparo (SP). A bactéria foi encontrada em detergentes, lava-roupas líquidos e desinfetantes e é multirresistente a antibióticos, situação que pode comprometer pessoas com sistema imunológico enfraquecido.

Além da bactéria encontrada nos lotes dos produtos, a vigilância sanitária observou falhas no processo de produção e controle de qualidade, incluindo descumprimento de etapas, assim como sinais de corrosão em equipamentos.

O que motivou os bolsonaristas a ‘beberem’ Ypê?

O caso foi politizado devido a doações de campanha feitas pela família dona da marca para Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. De acordo com o TSE, a campanha recebeu R$ 1 milhão da família Beira, incluindo R$ 500 mil de Jorge Eduardo Beira, vice-presidente de operações da empresa.

A Química Amparo (controladora da Ypê) também foi condenada na Justiça do Trabalho por ter promovido a campanha de Bolsonaro em live com funcionários nas eleições daquele ano.

Todas essas situações, de manifesto apoio à agenda bolsonarista, fizeram com que a extrema direita brasileira adotasse a marca, a ponto de ‘beber’ detergente se preciso.

Políticos ligados ao ex-presidente foram às redes em apoio à marca. A ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, de forma irresponsável, também publicou conteúdo incentivando a utilização dos produtos proibidos nas suas redes.

‘Caso Ypê’ é novo retrato da irresponsabilidade bolsonarista | Bolsonaristas nas redes em apoio à marca
Bolsonaristas nas redes em apoio à marca

Alerta: ‘não é uma discussão de esquerda e direita’.

Apoiadores

A situação problemática criada pelos apoiadores de Bolsonaro fez com que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, publicasse um vídeo nas redes sociais em alerta sobre o tema e os riscos de desconsiderar as recomendações da Anvisa.

De acordo com o ministro, participaram da inspeção na empresa técnicos da Anvisa, assim como representantes do Governo do Estado de São Paulo e da prefeitura de Amparo, ou seja, três governos diferentes, o que afasta qualquer lógica persecutória.

– O diretor da Anvisa responsável por essa área, que determinou a suspensão, foi indicado pelo governo Bolsonaro. Foi inclusive secretário do ministro da Saúde do Bolsonaro – lembra Padilha.

Ele ainda destaca que “uma bactéria e um detergente não é uma discussão de esquerda e direita” e que este é um caso sério de saúde pública: “Não dá para arriscar. O alerta é para os produtos de lote com final 1. Se você encontrar esses produtos na sua casa, não utilize, não jogue fora e não beba. Deixe guardado em lugar seguro. Dependendo da decisão final da Anvisa, a empresa será obrigada a recolher e terá que te ressarcir”.

Por fim, Padilha observa que os que hoje “brincam” com a situação são os mesmos que já riram de quando Jair Bolsonaro fazia piadas sobre a covid-19, desincentivava a vacinação e apoiava tratamentos sem comprovação científica.

– Quem hoje está fazendo gracinha, lavando louça, estava até outro dia aplaudindo quem fez chacota de pessoas morrendo sem oxigênio na pandemia, falando que a vacina ia transformar em jacaré, deixando de comprar vacina para gastar dinheiro público com cloroquina. Quem você acha que está preocupado com a sua saúde? Técnicos da Anvisa, da Vigilância do Estado de São Paulo, da Prefeitura de Amparo, ou essa turma [os bolsonaristas]? – disse o ministro da Saúde.

 

Murilo da Silva, é jornalista.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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