Rio de Janeiro, 30 de Outubro de 2026

Israel pode enfrentar nova eleição após impasse de Netanyahu

Apesar de o Likud, de Benjamin Netanyahu, ser o mais votado, nenhum bloco obteve os 61 assentos para formar maioria em Israel, abrindo um cenário de impasse...

Sexta, 30 de Outubro de 2026 às 10:29, por: CdB

Apesar de o Likud, de Benjamin Netanyahu, ser o mais votado, nenhum bloco obteve os 61 assentos para formar maioria em Israel, abrindo um cenário de impasse que pode levar a novas eleições.

Por Redação, com RFI – de Jerusalém

Os resultados oficiais das eleições legislativas de Israel, divulgados na madrugada desta sexta-feira, confirmaram a vitória do bloco do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, mas sem maioria para governar. A coalizão de direita e extrema direita conquistou 53 das 120 cadeiras do Parlamento (Knesset), enquanto a oposição liderada por Gadi Eisenkot obteve 48 assentos. Com 19 vagas, os partidos árabes tornaram-se peças centrais nas negociações para a formação do próximo governo.

Um assessor conversa com o primeiro-ministro de Israel e líder do Likud, Benjamin Netanyahu, enquanto ele faz uma declaração após a divulgação das pesquisas de boca de urna das eleições legislativas israelenses, na sede do partido em Jerusalém

Os números consolidam o Likud, partido de Benjamin Netanyahu, como a maior força política do país, com 27 deputados eleitos. Ainda assim, nenhum dos dois principais blocos alcançou os 61 assentos necessários para formar uma maioria parlamentar, abrindo caminho para semanas de negociações, em um cenário que pode inclusive levar à convocação de novas eleições.

O resultado também consolidou o avanço dos partidos árabes Raam e Lista Unificada, que juntos conquistaram 19 cadeiras e passaram a ocupar posição decisiva nas discussões para a formação do próximo governo. Pela primeira vez em vários anos, essas legendas surgem como potenciais fiadoras de uma coalizão ou agentes capazes de bloquear acordos rivais.

A votação registrou participação recorde, próxima de 78%, uma das mais elevadas da história recente do país. O comparecimento elevado foi interpretado por analistas israelenses como reflexo da polarização política e das preocupações da população diante do contexto de segurança regional e das consequências dos ataques de 7 de outubro de 2023.

Apesar de ter terminado à frente da oposição, Netanyahu não dispõe, neste momento, de aliados suficientes para permanecer no poder com uma coalizão semelhante à que sustentou seu governo até agora. O impasse prolonga a instabilidade política em um momento crítico para Israel, marcado por tensões internas e preocupações com a segurança regional.

Os resultados finais serão formalmente entregues ao presidente Isaac Herzog na próxima quarta-feira (4), mas as negociações entre os partidos começaram imediatamente após a divulgação dos números oficiais.

Papel decisivo 

Após receber as recomendações das legendas representadas no Parlamento, Herzog indicará o político considerado mais apto a formar uma coalizão de governo. A tarefa poderá recair sobre Netanyahu ou Eisenkot.

O escolhido terá inicialmente 28 dias para formar o governo, prazo que poderá ser prorrogado por mais 14 dias. As possibilidades em discussão incluem uma coalizão majoritária tradicional, um governo minoritário apoiado externamente por outros partidos ou uma ampla aliança de união nacional.

Herzog já alertou publicamente para a necessidade de flexibilidade entre os líderes políticos. Segundo ele, será preciso demonstrar abertura para evitar que os israelenses sejam obrigados a voltar às urnas em um curto intervalo de tempo.

O cenário é complexo porque os partidos potencialmente capazes de garantir uma maioria apresentam divergências profundas sobre temas como segurança, religião, relações entre o Estado e o judaísmo ortodoxo, além do futuro das instituições israelenses.

A ascensão dos partidos árabes tornou a composição ainda mais difícil. Embora seus 19 deputados possam ser decisivos para qualquer arranjo parlamentar, sua participação ou apoio a um governo enfrenta forte resistência em setores da direita e também em parte da oposição.

Nesse contexto, as negociações iniciadas nos bastidores do Parlamento são vistas como algumas das mais difíceis da política israelense nos últimos anos.

Oposição

A oposição liderada pelo ex-chefe do Estado-Maior Gadi Eisenkot já avalia iniciativas para aumentar a pressão política sobre Netanyahu antes mesmo da formação de uma nova coalizão.

Eisenkot reconhece que não dispõe dos 61 assentos necessários para governar. Ainda assim, pretende utilizar a posse do novo Parlamento, marcada para 10 de novembro, como oportunidade para tentar aprovar propostas altamente sensíveis.

Entre elas está a criação do serviço militar obrigatório universal, medida historicamente rejeitada pelos partidos ultraortodoxos judeus, e a instalação de uma comissão nacional de investigação para apurar as falhas que antecederam os ataques de 7 de outubro de 2023.

A estratégia dependeria do apoio ou da abstenção dos parlamentares árabes. A hipótese é considerada inaceitável pelo Likud, que acusa a oposição de buscar sustentação política em grupos que não fariam parte de uma maioria tradicional de governo.

O plano, porém, também provoca desconforto dentro do próprio campo oposicionista. O ex-ministro Avigdor Liberman, por exemplo, rejeita categoricamente qualquer acordo político baseado no apoio das legendas árabes.

Até Mansour Abbas, líder do Raam, tem demonstrado ceticismo sobre a viabilidade de um governo minoritário sustentado por uma coalizão tão heterogênea, aumentando as dúvidas sobre a capacidade da oposição de transformar sua vantagem tática em maioria efetiva.

Acusações

O ambiente político também foi marcado por acusações de fraude eleitoral disseminadas por integrantes do campo de Netanyahu logo após a votação.

Dirigentes e veículos de comunicação alinhados ao bloco governista afirmaram que os partidos árabes seriam suspeitos de receber recursos do Catar para financiar compra de votos durante a campanha.

As legendas citadas rejeitaram integralmente as acusações. O governo do Catar também negou qualquer envolvimento no processo eleitoral israelense.

Gadi Eisenkot acusou Netanyahu de tentar “deslegitimar os resultados” das eleições ao levantar suspeitas sem apresentação de provas conclusivas.

O Shin Bet, serviço de segurança interna de Israel, confirmou a existência de investigações sobre possíveis irregularidades, mas ressaltou que o procedimento não tem como objetivo incriminar coletivamente uma comunidade que participou do pleito de forma legal e democrática.

A própria Comissão Eleitoral afirmou que parte das informações divulgadas após a votação era “totalmente infundada” e destacou que eventuais investigações seguirão em paralelo ao processo institucional, sem afetar a validação oficial do resultado.

Nova eleição

A inexistência de uma maioria clara coloca Israel novamente diante da perspectiva de uma prolongada paralisia política.

Nos últimos anos, o país já enfrentou sucessivas eleições antecipadas em razão da incapacidade dos partidos de construir coalizões estáveis. O sistema proporcional israelense favorece a fragmentação partidária e frequentemente transforma legendas médias ou pequenas em peças indispensáveis para a formação dos governos.

Desta vez, o desafio ocorre em um ambiente ainda mais delicado. A guerra desencadeada após os ataques de 7 de outubro de 2023 continua influenciando o debate público, enquanto as tensões nas fronteiras permanecem elevadas.

A combinação entre impasse parlamentar, disputas sobre segurança nacional e acusações de interferência externa tende a dificultar ainda mais as negociações entre os diferentes campos políticos.

Caso nenhum líder consiga reunir apoio suficiente nas próximas semanas, o país poderá ser novamente convocado às urnas, cenário que muitos dirigentes consideram arriscado diante das pressões internas e externas enfrentadas por Israel.

 

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