Da desilusão após o primeiro turno à esperança renovada com a vitória de Lula, autor reflete sobre solidariedade, mobilização digital e luta por um Brasil mais justo.
Por Abraham B. Sicsú – de Brasília
Tristeza leva ao Isolamento, Solidão, e pode resultar em Desilusão. Foi assim que me sentia depois do Primeiro Turno.
A escrita é uma das minhas fugas. Apego-me a ela e procuro não desviá-la para uma Terapia Pessoal. Escrevo para ser lido, não como meio de externalizar minhas angústias. Os leitores não merecem.

Sei que não tenho grande influência, mas, porventura, se algum desavisado vier a se espelhar no que divulgo, não gostaria que fosse algo para baixo e melancólico. Guardo para mim esses sentimentos.
Por isso, mantive meus alfarrábios apenas para meu consumo, não quis trazer mais incerteza daquela que já vivíamos. Continuei escrevendo, mas não expondo publicamente.
Tristeza. Não por ter ciência de que a visão de mundo dominante não era, nem foi, a minha. Democracia é isso. Deve ser respeitada a opinião da maioria. Mas, pelas razões que explicitavam essas divergências, que traziam como motivo rancor e ódio.
Melhorar as condições de vida e depois de anos conseguir empregos melhores era pouco, se esqueceu facilmente. A culpa de sofrerem, de não serem exitosos, sempre é do Governo que sempre tem que dar mais. Como assim???
Pior, via apenas, engano meu, uma visão individualista. Nada fácil, mas constatar que empatia e solidariedade não faziam parte da agenda da maioria era desanimador.
Foi duro escutar em uma roda de conversa:
“Um bando de vagabundos, sangue sugas que não querem trabalho, vivem explorando a sociedade, bolsa família, pé de meia, tudo para retirar de nós, que merecemos os recursos que com muito suor geramos. Trabalho para eles é luxo. São um bando de vagabundos, principalmente os nordestinos.”
Deprimido, com a falta de senso e com o preconceito, encerrei a conversa. O que dizer para mentes como essas, que olham apenas para seus umbigos, que acham que o mundo deve girar em seu entorno.
Pessoas que melhoraram de vida que, graças aos programas sociais e ao aumento do emprego, conseguem ter uma casinha, uma geladeira, um televisor, bom não esquecer, um celular de última geração. É verdade, se vêm endividadas. Mas, está se procurando resolver.
Pior, se consideravam injustiçadas. Não se aperceberam que houve um esforço grande para que pudessem ter dignidade. Querem muito mais, o que é justo, mas acreditam que virá de mão beijada, em um mundo onde o autoritarismo e o domínio do capital se imporia e os tornaria privilegiados???.
Ingratidão, outro sentimento que se fez presente.
Num ambiente como esse me restava um outro sentimento. Desilusão. Paulinho da Viola disse, “Danço eu, dança você / Na dança da solidão”. Tudo se embaralha e vem à minha cabeça como o verso:
“Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão, palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão.”
Como sonhar com um futuro digno, com um mundo que traga esperança aos filhos e netos. Novamente o poeta nos alerta:
Quando eu penso no futuro
Não esqueço o meu passado.
A memória era fraca, sofrimento recente facilmente olvidado. Tudo que se sofreu em anos muito recentes, pandemia, desestruturação da Educação, desemprego alarmante, fome e pobreza absoluta, nada disso era lembrado, como se fosse algo muito longínquo.
Janones
Engajo-me no Exército do Lula. Janones meu general. Sempre fui avesso ao militarismo, à disciplina rígida, a cumprir ordens sem questioná-las. Mas, havia algo mágico. O sentimento de pertencimento. Juntos por uma causa maior. A empatia, o pensar num mundo mais igual, como lema. Fez-me muito bem.
Eu, analógico, começo a entender as mídias e sua força. Unidos em um propósito maior. Salvar o País das milícias, garantir a nossa Soberania, lutar por um mundo mais igual. Com um instrumento potentíssimo de um Nova Pensar e Agir. O Digital do Bem.
Participo de um grupo de intelectuais pretensiosos. Todos são “donos da verdade”. Vejo críticas incompreensíveis. Um dos ditos “gurús” escerveu:
“Não acho que derrubaram o canal dos soldados. Mas ele é ruim pra caramba. Não ganha voto de ninguém que seja convertido. É agressivo, grosseiro e autoritário. Janones é um perigo para a democracia. Deixando o cara falar é pedir para perder a eleição.”
Fico ofendido. A esperança que tinha estraçalhada por um dito intelectualóide empavonada. Mas, não desisto do Exército, era minha única esperança. Continuamos na luta.
As pesquisas sempre nos colocavam atrás. Fico muito apreensivo. Janones garante a nossa vitória. Tenho um filho que entende de pesquisa. Explica que depende de outros fatores, inclusive do índice de abstenção que usam nos cálculos. Os dois garantem: Vamos ganhar!!!
E ganhamos. Continuarei no Exército e na vida pessoal ajudando no que estiver ao meu alcance para garantir um país que está sendo construído: JUSTO, MAIS IGUALITÁRIO, MAIS EMPÁTICO.
Explode companheiros!!!!
Abraham B. Sicsú, é professor aposentado do Departamento de Engenharia de Produção da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador aposentado da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco).
As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil