Da resistência à resiliência democrática: a vitória de Lula e a coragem de transformar esperança em futuro.
Por Amarílis Costa – de São Paulo
No último sábado, não sabíamos que País encontraria o amanhecer. A pergunta atravessava casas e telas: o que seria da Constituição Cidadã, dos direitos conquistados, do direito de discordar sem medo? Depois de uma tentativa de golpe de Estado e de tantos ataques à democracia, a eleição parecia maior que uma disputa de governo. Para milhões de pessoas, era a defesa do direito de continuar imaginando o Brasil.

No domingo, a resposta veio das urnas. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos e houve uma alegria difícil de traduzir: a do corpo que finalmente relaxa, a de quem se abraça na rua sem precisar explicar por quê. Não era ingenuidade. Era alívio. Era a prova de que a história não estava pronta.
Essa vitória tem muitas idades. Tem as mãos de quem enfrentou a ditadura, organizou sindicatos, lutou por anistia, Diretas Já e pela Constituição de 1988. Tem as mulheres que sustentaram comunidades sem aparecer nos retratos oficiais; os movimentos negros, indígenas, feministas e populares, que ensinaram ao País que democracia não é concessão de quem manda. É conquista de quem se recusa a desaparecer.
Sou neta de empregadas domésticas e de alfaiates. Aprendi que liberdade não cabe apenas nas palavras solenes: precisa chegar à mesa, ao salário, à escola, ao tempo de viver. Por isso me emociona ver a juventude ganhar as ruas enquanto os mais velhos se levantam pelo País que ajudaram a sonhar. Não são gerações se substituindo. É uma passando à outra a possibilidade de mudar a história.
A esquerda e os progressistas têm muito a celebrar. Não porque sempre acertaram, mas porque abriram caminhos nas fábricas, nas periferias, nas universidades e nas lutas por igualdade. Precisam também reconhecer seus afastamentos, linguagens cansadas e distâncias da vida popular. Maturidade política é saber que a memória das conquistas não dispensa a coragem de se reinventar.
Esta eleição inaugura uma dinâmica que chamo de resiliência democrática: não suportar indefinidamente a violência, mas reorganizar coletivamente a esperança. Esperançar não é aguardar que alguém nos salve. É agir, articular diferenças, disputar ideias, propor soluções e produzir resultados que mudem vidas. Resistir impede que destruam o que conquistamos. A resiliência democrática vai além: transforma resistência em construção.
Há um princípio inegociável nessa ideia: a humanidade das pessoas não pode ser posta em leilão. Nenhuma maioria deveria depender da desumanização de uma minoria; nenhum acordo é democrático quando transforma direitos em moeda de troca. A dignidade de mulheres negras, pessoas LGBTQIA+, trabalhadores e povos indígenas não é assunto para depois da vitória. É a razão de defendermos a democracia.
O movimento teve dois erres inseparáveis: redes e ruas. André Janones, comunicadores, artistas, militantes e milhões de pessoas disputaram nas plataformas a atenção que a extrema direita julgava ter monopolizado. Nas ruas, a convocação ganhou corpo, conversa, presença. A rede acelerou encontros; a rua deu consequência às mensagens. Mas viralizar não é organizar. A campanha acabou; a construção de confiança e poder popular continua.
Ana Elisa, mulher negra eleita para a Câmara aos 21 anos, tornou visível essa mudança. Não é uma salvadora: é o anúncio de uma geração que recusa ser plateia da política. As ameaças racistas e misóginas que sofreu revelam o preço cobrado de mulheres negras que ousam decidir. Precisamos de proteção, participação e poder real — inclusive nas decisões sobre orçamento e governo. O País que viu nascer esse protagonismo ainda não teve uma ministra negra no Supremo Tribunal Federal. A democracia precisa chegar aonde se interpreta a Constituição.
A vitória brasileira ultrapassa fronteiras. Depois de uma sequência de triunfos conservadores na América Latina, a reeleição de Lula rompe a aparência de que o avanço da direita seria inevitável. Não encerra a disputa, mas devolve ao continente uma pergunta: e se a esperança organizada puder abrir outros caminhos? Defender direitos, soberania e participação popular é também uma mensagem ao mundo.
A festa
A prudência não diminui a festa. A direita continuará forte no Congresso; governar exigirá alianças e escolhas difíceis. A resiliência democrática será testada menos nos discursos que na capacidade de enfrentar a desigualdade, a violência racial, a escala 6×1, a devastação ambiental e a distância entre direitos escritos e vividos. Movimentos sociais não existem para aplaudir governos: existem para ampliar o que eles conseguem realizar.
Penso na “estranha mania de ter fé na vida”, cantada por Milton Nascimento. Não é ingenuidade: é a experiência de quem conhece a dureza do mundo e, apesar dela, insiste em semear. Hoje, temos direito à alegria. Que a música atravesse a praça. Que os mais velhos reconheçam, nos jovens, a continuação de seus sonhos. Que a esquerda celebre sem pedir licença — e trabalhe sem perder a ternura.
No dia 24, não sabíamos se o amanhã nos pertenceria. No dia 25, lembramos que ele nunca esteve dado: sempre precisou ser conquistado. O Brasil não venceu porque deixou de ter medo. Venceu porque milhões decidiram que o medo não escreveria o último capítulo.
A urna abriu o amanhã. Agora, com memória, coragem e essa nossa estranha fé na vida, cabe a nós fazê-lo chegar a todos.
Resiliência democrática é a coragem coletiva de enfrentar a barbárie sem reproduzi-la, transformar esperança em ação e fazer da dignidade humana o limite inegociável de todo poder.
Amarílis Costa, é advogada, doutoranda em Direitos Humanos na Faculdade de Direito USP, mestra em Ciências Humanas, pesquisadora do GEPPIS-EACH-USP, diretora executiva da Rede Liberdade.
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