Rio de Janeiro, 27 de Outubro de 2026

América Latina vê recuo da influência de Trump após vitória de Lula

Virada histórica da esquerda no Brasil freia onda de vitórias eleitorais da direita que vinha varrendo a América Latina desde o retorno de Trump ao poder nos...

Terça, 27 de Outubro de 2026 às 12:00, por: CdB

Virada histórica da esquerda no Brasil freia onda de vitórias eleitorais da direita que vinha varrendo a América Latina desde o retorno de Trump ao poder nos EUA, em 2025.

Por Redação, com DW – de Brasília

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não apenas protagonizou uma virada histórica em eleições presidenciais brasileiras. Ao derrotar Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno por uma diferença de 4,4 milhões de votos, o líder de esquerda também interrompeu a onda de direita que vinha avançando na América Latina desde 2025, na esteira da volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.

Trump e o presidente brasileiro durante encontro em outubro de 2025: “Eu gosto do Lula, me dou muito bem com ele”

Se o senador Flávio Bolsonaro tivesse vencido, os EUA teriam passado a contar em Brasília com mais um parceiro ideológico na América Latina, após uma série de apoios bem-sucedidos em outros países. Maior economia e país mais populoso da América Latina, o Brasil era apontado pela imprensa norte-americana como o prêmio mais cobiçado na estratégia da Casa Branca.

Quando Trump voltou para a Casa Branca, em janeiro de 2025, seus aliados regionais eram poucos, entre eles Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador e Daniel Noboa no Equador. Desde então, candidatos de direita alinhados com Trump venceram eleições presidenciais no Equador (onde Noboa se reelegeu), na Bolívia, em Honduras, no Chile, na Costa Rica, no Peru e na Colômbia.

Só em 2026 foram três candidatos favorecidos por Washington que venceram: Laura Fernández, na Costa Rica; Keiko Fujimori, no Peru; e mais recentemente Abelardo de la Espriella, na Colômbia.

Na Colômbia, antes da eleição, Trump afirmou que Espriella contava com o “apoio total e a força dos Estados Unidos”, prevendo uma “relação muito melhor” com a Colômbia após sua eleição. Horas após a posse do colombiano populista de direita, os EUA prometeram US$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões) ao novo governo, que sucedeu ao do ex-presidente Gustavo Petro, rotineiramente hostilizado pelos norte-americanos.

Sob os novos governos de direita, o trio de países também não demorou a se unir ao chamado Escudo das Américas, um grupo de 19 membros lançado pelos EUA com países ideologicamente alinhados para coordenar ações de segurança no Hemisfério Ocidental. Flávio Bolsonaro disse durante a campanha que pretendia colocar o Brasil no Escudo das Américas.

Durante um encontro do grupo em setembro, nos EUA, Trump se gabou de que todos os candidatos que ele vinha apoiando na América Latina haviam sido eleitos. “Acho que estou com um aproveitamento de nove em nove: todos que apoiei venceram. Tivemos uma grande vitória na Colômbia, como vocês sabem. Tivemos uma grande vitória na Argentina – isso já faz um tempo, na verdade, duas vezes – e muitas outras vitórias”, disse Trump, fazendo uma referência à eleição legislativa vencida por seu aliado Milei, em outubro do ano passado.

Além dos países já mencionados, os EUA contam com governos de direita alinhados no Paraguai e no Panamá.

Alinhamento

No final de 2025, numa nova Estratégia de Segurança Nacional, os Estados Unidos explicitaram seus planos de expandirem sua influência e poder na América Latina. Apelidada de “Doutrina Donroe” – um neologismo que combina Donald e Monroe – a estratégia destilada no documento revive a antiga Doutrina Monroe, de 1823, usada para justificar a aspiração dos EUA em se tornarem a principal potência ocidental. “Este ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe é uma restauração sensata e potente do poder e das prioridades norte-americanas”, diz o documento.

Se os governos de esquerda perderam espaço na era Trump, ainda assim comandam as duas maiores economias da América Latina, criando um contraponto ao projeto regional de Trump. Além de Lula no Brasil, a esquerda democraticamente eleita está no poder no México, com a presidente Claudia Sheinbaum.

Brasil e o México têm ainda a companhia de dois pequenos países: o Uruguai e a Guatemala. A Guiana também está sob um governo de esquerda, embora o país não seja comumente classificado como “latino”. E, mesmo sendo comandadas por governos não exatamente ideologicamente alinhados a Trump, as pequenas Guiana e Guatemala acabaram aderindo ao Escudo das Américas, em contraste com Brasil, México e Uruguai, que não aderiram.

Cuba e Nicarágua têm governos que não foram democraticamente eleitos. Já a Venezuela, embora ainda com a administração nas mãos dos chavistas, vem sendo explicitamente tutelada pelos EUA, sem previsão de volta de eleições competitivas.

“Defesa da soberania” como agenda.

Com uma campanha em parte focada num discurso de defesa da soberania, Lula repetidamente criticou investidas dos Estados Unidos na América Latina desde o início do ano passado, como os tarifaços impostos ao Brasil, as sanções a ministros do Supremo Tribunal Federal e a membros do seu governo, além de condenar a intervenção de Washington na Venezuela e o crescente cerco a Cuba.

– Não cabemos no quintal de ninguém – disse Lula em discurso após o anúncio do resultado da eleição presidencial de domingo. Antes disso, em discurso nas Nações Unidas em setembro, ele já havia criticado “a ingerência externa em processos eleitorais” e a “divisão do mundo em zonas de influência”.

Apesar de Trump não ter endossado nominalmente qualquer candidato no pleito brasileiro, a Casa Branca sinalizou ter preferência por Flávio Bolsonaro, que chegou a se encontrar com Trump na Casa Branca em maio e que repetidamente expressou o desejo de se alinhar com os EUA em temas como segurança, combate ao crime e exploração de recursos naturais.

Segundo veículos da imprensa norte-americana, o apoio só não foi mais explícito porque o governo dos EUA temeu acidentalmente beneficiar a candidatura de Lula, que já havia visto sua aprovação aumentar na esteira do primeiro tarifaço norte-americano de 2025.

O desconforto de Washington com o resultado de domingo pôde ser percebido no silêncio da Casa Branca. Até a noite de segunda-feira, o governo norte-americano ainda não havia parabenizado Lula ou expressado reconhecimento pelo resultado, em contraste com os líderes de países europeus e latino-americanos.

Quando finalmente questionado sobre o tema, Trump disse achar que a eleição brasileira “parece fraudada”, sem apresentar provas. “Passou uma impressão muito ruim. A eleição, a maneira como os votos foram contabilizados, sabe? Com a prorrogação do horário de votação, foi muito estranho”, disse Trump, em referência à prorrogação por duas horas do período de votação determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Apesar das declarações sobre o pleito brasileiro, Trump destacou que “se dá bem com Lula”. “Eu gosto do Lula, me dou muito bem com ele. Só acho que a forma como a apuração foi feita passou uma impressão muito ruim”, disse.

Direita da América Latina parabeniza Lula.

Nem todos os presidentes latino-americanos de direita seguiram a contrariedade dos EUA após o fim da eleição brasileira. Apesar de ter endossado abertamente a candidatura de Flávio Bolsonaro, o colombiano Abelardo de la Espriella parabenizou Lula.

– Na campanha presidencial colombiana, o presidente Lula apoiou abertamente Iván Cepeda, e eu ganhei. Na campanha brasileira, apoiei Bolsonaro, e Lula ganhou. Nem Lula decide pelos colombianos nem eu decido pelos brasileiros. Decide o povo! E quando o povo se pronuncia nas urnas, sua vontade é respeitada porque é sagrada. É nisso que consiste a democracia! – escreveu Espriella na rede X.

No Chile, o presidente José Antonio Kast destacou que seu país e o Brasil “têm muito futuro em comum”. “Acabo de conversar com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o parabenizei pelo resultado da eleição”, declarou Kast nas redes sociais após o resultado. Em março, Lula deixou de comparecer à posse de Kast após o senador Flávio Bolsonaro ter sido convidado para o evento.

No Peru, a presidente Keiko Fujimori parabenizou Lula e o “povo brasileiro por esta jornada democrática” e reafirmou sua vontade de “fortalecer a aliança estratégica” entre os dois países. Os governos do Equador e Paraguai também parabenizaram Lula.

A principal exceção na região é a Argentina, do presidente Javier Milei, que até a noite de segunda-feira se mantinha em silêncio. Em julho, Milei havia participado da oficialização da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. No evento em São Paulo, chamou Lula de “ladrão”, “presidiário” e “delinquente”. Depois disso, o Brasil comunicou a dispensa do embaixador da Argentina em Brasília e decidiu não enviar o embaixador brasileiro a Buenos Aires, efetivamente rebaixando as relações diplomáticas entre os dois governos.

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