Rio de Janeiro, 29 de Outubro de 2026

Impasse político fortalece partidos árabes em Israel

Os partidos árabes registraram um resultado histórico e podem conquistar até 19 vagas na Knesset.

Quinta, 29 de Outubro de 2026 às 10:27, por: CdB

Os partidos árabes registraram um resultado histórico e podem conquistar até 19 vagas na Knesset.

Por Redação, com RFI – de Jerusalém

Mais de 24 horas após o fechamento das urnas, Israel continua em impasse político. Com mais de 90% dos votos apurados nesta quinta-feira, o bloco do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu segue na liderança, com 53 cadeiras no Knesset, o Parlamento israelense, contra 48 do bloco oposicionista liderado por Gadi Eisenkot. Nenhum dos dois, porém, alcança as 61 cadeiras necessárias para obter maioria absoluta.

Uma eleitora vota em uma seção eleitoral na quarta-feira em Jerusalém, Israel

Os partidos árabes registraram um resultado histórico e podem conquistar até 19 vagas na Knesset. Ainda faltam ser contabilizados os votos dos militares e de outros eleitores que votaram fora de suas seções eleitorais. Os resultados preliminares devem ser concluídos até sexta-feira, mas o resultado oficial da eleição não deverá ser divulgado antes de 4 de novembro.

Embora mais de 90% dos votos já tenham sido contados, as autoridades ainda precisam apurar os chamados “envelopes duplos”, utilizados por eleitores autorizados a votar fora de sua seção eleitoral, principalmente militares e reservistas.

A imprensa israelense destaca o bloqueio político que se desenha após a votação. O diário Yediot Aharonot sugere que é necessário “pensar fora da caixa”. O Maariv fala em impasse político, enquanto o jornal de esquerda Haaretz defende, em editorial intitulado “Sim! Com os árabes”, o que considera a única alternativa viável para a formação de um governo.

Enquanto a apuração dos votos dos militares prossegue, o Likud, partido de Netanyahu, pediu a abertura de uma investigação sobre o processo eleitoral. Em comunicado, a legenda afirma que “os partidos árabes roubaram a eleição” e denuncia supostos casos de violência, fraude e uso de programas de computador proibidos.

A iniciativa pode atrasar a divulgação dos resultados oficiais e dificultar ainda mais as negociações para a formação de um novo governo.

Entre os cenários discutidos estão uma ampla coalizão de união nacional liderada por Netanyahu, defendida pelo presidente israelense, Isaac Herzog, mas rejeitada por Eisenkot; um governo minoritário apoiado pelos partidos árabes; ou uma nova eleição, hipótese que poderia favorecer principalmente o atual primeiro-ministro.

Partidos árabes podem ser decisivos.

A contagem dos votos continua, e os partidos árabes, que somam provisoriamente 19 das 120 cadeiras do Parlamento israelense, podem se tornar os principais árbitros da formação do próximo governo. Parte dessas legendas se mostra disposta a trabalhar com partidos judeus para impedir a permanência de Netanyahu no poder. Outras apontam o racismo como principal responsável pelo atual bloqueio político.

O chamado “bloco da mudança”, formado por partidos de diferentes correntes ideológicas, debate agora se deve ou não buscar o apoio dos partidos árabes.

Evelyne, eleitora de esquerda, acredita que a oposição não tem alternativa. “Eu acho que, se a coalizão quiser chegar ao poder, será obrigada a contar com os votos árabes. Pessoalmente, concordo totalmente. Há 20% de árabes vivendo em Israel. É evidente que eles devem fazer parte do governo”, declarou à agência francesa de notícias RFI.

A coalizão de oposição reúne forças bastante heterogêneas, entre elas partidos de esquerda, nacionalistas laicos e legendas de centro-direita.

7 de Outubro

Sarah Eichhorn, professora de Ciência Política da Universidade de Haifa, lembra que parte da maioria judaica considera impensável cooperar com a minoria árabe, especialmente após os ataques de 7 de Outubro.

Segundo ela, os partidos árabes representam um eleitorado nacionalista árabe composto por cidadãos palestinos de Israel, o que dificulta alianças com alguns partidos sionistas, sobretudo os setores mais intransigentes da oposição.

Karine, também integrante do bloco da mudança, acredita que os partidos árabes precisam assumir uma posição mais clara. “A única chance de a oposição vencer é que os árabes se distanciem do Hamas de forma muito oficial e explícita”, afirma. Ainda assim, ela reconhece que “não é possível ignorá-los”.

Ceticismo entre os árabes israelenses.

Apesar do desempenho histórico dos partidos árabes, muitos cidadãos árabes de Israel permanecem cautelosos. Em Jerusalém Oriental, palestinos cidadãos de Israel celebram discretamente o resultado sem precedentes alcançado pelas legendas árabes.

Para o morador Ahmad, é importante manter a prudência. “É uma longa história. Não acredito que tudo isso possa acabar assim, em apenas um dia.”

Ainda assim, a participação recorde dos eleitores árabes, estimada em cerca de 80%, alimenta expectativas de mudança. David, por exemplo, acredita que uma nova composição de governo poderia melhorar a situação dos palestinos em Israel.

– Seria uma vida melhor, com paz para cristãos, judeus e muçulmanos. Até os turistas deixaram de vir por causa da maneira como somos tratados atualmente – acredita.

A principal incógnita continua sendo se a oposição aceitará formar um governo com o apoio dos partidos árabes. Até agora, Gadi Eisenkot vinha rejeitando essa possibilidade.

Já o morador Amid mantém o pessimismo: “Eles obtiveram bons resultados, mas isso não vai mudar nada. Nenhum dos dois campos aceitará levá-los para o governo. É difícil. As opiniões e as mentalidades são diferentes.”

Enquanto os partidos árabes assumem o papel de fiéis da balança na política israelense e cogitam apoiar uma coalizão de oposição sem participar diretamente do governo, moradores da cidade de Nazaré comemoraram o resultado com fogos de artifício e gritos de alegria na noite da eleição.

Falta contabilizar os votos dos militares.

Mais de 430 mil votos ainda precisam ser contabilizados. As autoridades tiveram de centralizar votos provenientes de cerca de 850 quartéis, bases militares e postos móveis instalados para militares, agentes penitenciários, diplomatas no exterior e eleitores impossibilitados de comparecer à sua seção eleitoral. Alguns desses postos estavam localizados em Gaza, na Síria e no Líbano.

Militares e reservistas foram autorizados a votar já em 20 de outubro, para não comprometer operações em andamento. Nesses casos, o voto é colocado em um segundo envelope que contém a identificação do eleitor. As informações são verificadas posteriormente para evitar votos duplicados.

Esse sistema de “envelope duplo” pode alterar significativamente a composição do Knesset nos próximos dias. Cada cadeira parlamentar corresponde a cerca de 40 mil votos e, matematicamente, esse contingente equivale a aproximadamente 12 assentos.

Partidos árabes e ultraortodoxos costumam registrar desempenho mais fraco entre esse eleitorado. Em 2022, os votos dos “envelopes duplos” retiraram uma cadeira dos chamados haredim, os judeus ultraortodoxos, e a transferiram para um partido ultranacionalista. Na ocasião, as três listas árabes receberam apenas cerca de 5% desses votos.

Enquanto as negociações prosseguem, Netanyahu permanece à frente de um governo interino. Apesar das limitações políticas impostas pela ausência de maioria parlamentar, ele continua exercendo praticamente todos os poderes do cargo, incluindo em questões de segurança e política externa.

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