Rio de Janeiro, 15 de Abril de 2026

Christopher Goulart relata exílio e obra de advogado aborda anistia

Descubra como Christopher Goulart reimagina a história política brasileira em seu livro sobre o exílio e a luta pela anistia, em um evento no IAB.

Quarta, 15 de Abril de 2026 às 14:51, por: CdB

‘Manchado de sangue terás que crescer’: livro de Christopher Goulart reimagina história política brasileira pela perspectiva pessoal.

Por Redação – do Rio de Janeiro

A história que não se esgota no rótulo familiar.

O Instituto dos Advogados Brasileiros recebe um evento que reúne duas obras inseparáveis: a memória pessoal de um neto que conheceu seu avó ex-presidente João Goulart no exílio, e a análise jurídica de um país que ainda não conseguiu encerrar sua transição para a democracia plena. Christopher Goulart e Bruno Luiz Tupai lançam seus livros em um plenário histórico, marcando um momento em que a história política brasileira volta a se confrontar com seus próprios fantasmas.

Christopher Goulart relata exílio e obra de advogado aborda anistia | Christopher Goulart
Christopher Goulart

Christopher Goulart é advogado, músico e escritor. É também neto do ex-presidente João Goulart, deposto em 1964 pela ditadura militar que transformaria o Brasil nos 21 anos seguintes. Mas é precisamente a recusa de ser reduzido a esse rótulo que move seu trabalho. 

Sua obra, intitulada E manchado de sangue terás que crescer: uma vida de lutas, é apresentada não como história política, mas como “um romance da vida real”. Um relato que atravessa camadas de perda pessoal, redescoberta identitária e, paradoxalmente, gratidão. “Todas as experiências, se não te mataram, você tem que ser grato porque te fortaleceu”, explicou. A mensagem que permeia o livro não é de vitimização, mas de propósito: reconhecer as adversidades enfrentadas pela geração nascida no exílio e transformar essa experiência em conhecimento transmissível.

Vácuo político

Christopher nasceu em Londres enquanto seu avó vivia exilado. A Londres de meados dos anos 1970 não era apenas uma cidade, mas um território onde a história brasileira se reescrevia longe do Brasil. João Goulart, o último presidente eleito antes do golpe, tinha dez anos de cassação política que terminaria em 1966 — ainda havia tempo para retorno. Mas a ditadura militar brasileira tinha outros planos.

Os documentos desclassificados do Serviço Nacional de Informações (SNI) revelam uma lógica brutal: um presidente deposto não poderia regressar enquanto a ditadura negociasse sua reabertura. O regresso equivaleria a deslegitimar o golpe. “A ditadura militar, uma possível reabertura não podia acontecer com o cara que foi deposto, porque tu vai derrubar o presidente, vai reabrir e tu vai botar de novo o presidente que foi deposto”, explicou Christopher.

A solução foi o exílio permanente. João Goulart morreria na Argentina em 1976, aos 57 anos, de ataque cardíaco — circunstâncias que continuam cercadas de questões que gerações investigaram sem encerrar.

Toda essa estrutura de perseguição, de vigilância, de impossibilidade de retorno, formou o pano de fundo da infância de Christopher. Um menino que era apenas neto de um homem que o país inteiro parecia determinado a esquecer.

A transição

Dr. Bruno Luiz Talpai é especialista em direito constitucional e anistia política. Sua obra, Anistia Política: transição inacabada à luz da Teoria Geral do Estado contemporânea, analisa uma questão que assombra a democracia brasileira desde sua redemocratização formal em 1985. O Brasil realizou anistias em 1979, 1985, 1986, implementou legislação específica em 1988 com a Constituição Federal, criou comissões de verdade, instituiu reparações — e ainda assim nenhuma dessas medidas encerrou a questão.

– Não conseguimos terminar um processo político que durou décadas – afirmou Talpai. Existem “milhares de pessoas que foram atingidas” pela repressão militar “e nunca tiveram uma resposta institucional do Estado no sentido de construir uma política de verdade, memória e justiça efetiva”. As reparações permaneceram incompletas. O ordenamento jurídico repressivo nunca foi integralmente desmantelado.

Esse inacabamento reflete-se em estruturas institucionais que persistem. O Brasil viveu sob vigilância de estado até pelo menos 1994, ainda sob a égide da Constituição de 1988. Tinha-se uma Lei de Segurança Nacional que permanecia firme. Tinha-se uma lei de greve que exigia notificação prévia de um ano, esvaziando o direito. Trabalhadores que participavam de mobilizações eram enquadrados, demitidos, lançados em listas sujas que circulavam entre patrões. A Volkswagen, décadas depois, seria processada por compartilhar nomes de grevistas com a polícia política, a fim de impossibilitar recolocação profissional. Pagou R$ 36 milhões — o mínimo legal.

Os arquivos fragmentados, a verdade dispersa.

O acesso a documentos que permitiriam compreender plenamente a extensão da repressão permanece obstaculizado. O Arquivo Nacional, arquivos estaduais — todos detêm custódia de documentos, mas nem todos digitalizaram suas coleções. Enchentes, como a do Rio Grande do Sul em 2024, impossibilitam o acesso. O Rio de Janeiro tem dificuldades de acesso. São Paulo não tem tudo digitalizado. A verdade, quando emerge, emerge aos fragmentos.

A Comissão Nacional da Verdade documentou empresas que financiavam centros clandestinos de tortura. A Operação Bandeirantes (Oban), origem do DOI-Codi, funcionava como máquina de sequestro, tortura e morte, com participação de empresas e do aparato estatal. Não havia prisões formais. Não havia registros que pudessem ser contestados. Havia, sim, pessoas que desapareciam.

Quando Christopher investigou o caso de seu avó através de inquérito civil público, processou a exumação do corpo em 2013, durante o governo Dilma Rousseff. A operação não confirmou envenenamento — a matéria orgânica de 50 anos de morte não permite tal certeza. Mas tampouco descartou crime.

– Não tem dúvida que ele foi assassinado – disse Christopher. “Foi assassinado de uma maneira muito pior do que um provável envenenamento. Foi assassinado de uma maneira muito mais fria, calculista, cruel.” A morte no exílio, a impossibilidade de retorno, a separação da pátria — isso é a morte lenta que o Estado lhe impôs.

Anistia hoje

O debate sobre anistia retorna periodicamente à superfície brasileira. Políticos contemporâneos sugerem anistiar participantes da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Dr. Bruno Talpai é claro: as circunstâncias são fundamentalmente diferentes.

– Nós temos que deixar duas coisas bastante distintas – afirma. A anistia do regime militar abrangeu “décadas de perseguição, mortes, assassinatos, cassação de direitos políticos, monitoramentos ilegais, prisões, cerceamento de liberdade de expressão, suspensão de direitos e garantias fundamentais”. No 8 de janeiro, houve manifestações públicas, com “centenas ou milhares de pessoas na frente de quartéis”. Houve julgamentos públicos. Houve defesa. Houve institucionalidade, ainda que contestada.

– Anistia é um ato do presidente da República que precisa de aprovação do Congresso – reconhece Talpai . É constitucionalmente possível. Mas o custo seria legitimar “a barbárie”, atacar instituições democráticas. “O Brasil continua funcionando, as instituições continuam funcionando. Então a gente não pode comparar coisas diferentes.”

Christopher Goulart reforça: “A melhor resposta que a gente tem que dar é a gratidão, porque se não mataram, nos fortaleceram.” Mas não sem propósito. “A gente tem que seguir a luta de uma maneira propositiva.”

O evento

Christopher Goulart relata exílio e obra de advogado aborda anistia | Livro de Goulart revisita exílio
Livro de Goulart revisita exílio

O lançamento ocorre nesta quarta-feira, no plenário histórico do IAB, na Avenida Marechal Câmara 210, 5º andar, Rio de Janeiro. A abertura é de Rita Cortez, presidente do IAB Nacional. A mediação é de Marcia Dinis, diretora cultural e presidente de SACERJ.

Participaram Maria Tereza Goulart, João Vicente Goulart e Denise Goulart, da família Goulart. Aderson Bussinger, diretor adjunto de memória do IAB, participa como debatedor.

O evento é híbrido, com transmissão pela TV IAB para quem acompanhará remotamente. O “Grupo Tortura Nunca Mais/RJ” oferece apoio institucional, marcando a natureza do encontro: não é celebração literária isolada, mas reafirmação pública de que a história brasileira de violência estatal não foi encerrada, apenas mal resolvida.

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