Segundo o ex-chanceler, assim como o desenvolvimento é o nome da paz, atualmente “a paz é o novo nome do desenvolvimento”, dado que nenhum projeto socioeconômico se sustenta sem estabilidade geopolítica.
Por Redação – do Rio de Janeiro
O diplomata e ex-chanceler Celso Amorim recebeu, nesta sexta-feira, o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A máxima honraria acadêmica destinada ao saber, às artes e à cultura, foi entregue pelo reitor Roberto Medronho durante cerimônia realizada no Salão Dourado do Palácio Universitário, na Praia Vermelha, Zona Sul da Cidade.

Em pronunciamento diante da reitoria e de professores eméritos da instituição, Amorim relembrou sua trajetória pessoal e a ligação histórica com a UFRJ. O embaixador contou que, após ingressar no Instituto Rio Branco em 1963, aprovou o vestibular para Filosofia na então Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil (atual UFRJ).
O curso noturno, contudo, acabou extinto após o golpe militar de 1964, impedindo o prosseguimento de seus estudos no local e marcando seu primeiro contato com o impacto de uma contingência histórica em seus planos pessoais. Apesar da interrupção inicial, o diplomata destacou o estreitamento de laços com a comunidade acadêmica ao longo das décadas.
Niemeyer
Entre os fatos marcantes, citou o convite recebido em 2008 do arquiteto Oscar Niemeyer para discursar nos 45 anos da Coppe/UFRJ — ocasião em que o intelectual elogiou a condução de uma política externa “ativa e altiva” — e as aulas magnas proferidas na universidade em 2004 e 2024.
Na aula magna de 2024, compilada em livro pelo reitor Roberto Medronho, o diplomata analisou o cenário internacional e a proliferação de conflitos armados no mundo. Citando reflexões da escritora Leslie Kaplan sobre o filme ‘Paisà’, de Roberto Rossellini, e posicionamentos do Papa Francisco e de Paulo VI, Amorim destacou que a banalização do uso da força representa um sintoma grave de ruptura da ordem internacional.
Segundo o ex-chanceler, assim como o desenvolvimento é o nome da paz, atualmente “a paz é o novo nome do desenvolvimento”, dado que nenhum projeto socioeconômico se sustenta sem estabilidade geopolítica.
Minerais
No campo da tecnologia e da segurança, Amorim declarou seu apoio a que o Brasil busque o desenvolvimento autônomo e não se limite à exportação de matérias-primas. Ao mencionar o avanço da inteligência artificial (IA) e a assinatura da convenção da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO), em Xangai, o ex-chanceler apontou soluções em código aberto e alertou para a necessidade de o país avançar “do minério à bateria”, aproveitando reservas de minerais críticos e terras raras para promover uma industrialização moderna sem ceder à cobiça internacional ou transformar a IA em instrumento de dominação.
O diplomata também reiterou que a multipolaridade é a alternativa preferível para o equilíbrio global, contanto que não resulte em nova divisão em esferas de influência. Para isso, apoia a autonomia do Brasil para firmar parcerias globais diversas, a rejeição firme à ideia de que a América Latina seja tratada como “quintal de nenhum país” e o fortalecimento de infraestruturas de integração sul-americana — como rodovias, ferrovias e redes de fibra ótica.