Para o ex-chanceler Celso Amorim, apesar de todos esses fatores, o governo Trump não deverá tentar interferir diretamente nas eleições do Brasil. Amorim é um dos principais conselheiros de Lula no tema.
Por Redação, com BBC – de Brasília
Os EUA já iniciaram o processo de intervenção nas eleições brasileiras. Esse é o entendimento de um dos mais graduados diplomatas do Palácio do Planalto, o ministro Celso Amorim. Assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-chanceler aponta a decisão do governo norte-americano de designar as facções criminosas PCC e CV como grupos terroristas e a ameaça de imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros logo após a visita do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao presidente Donald Trump, como indícios evidentes do processo intervencionista.

Para o ex-chanceler Celso Amorim, apesar de todos esses fatores, o governo Trump não deverá tentar interferir diretamente nas eleições do Brasil. Amorim é um dos principais conselheiros de Lula no tema.
— Tentar interferir pode ter um efeito contrário, mas eu não creio que vá haver uma interferência tão direta. Mas temos que ficar alertas porque não é só o presidente (que pode fazer isso). Há outros interesses econômicos que se movem. A gente sabe disso e já ocorreu no passado. Então, temos que ficar alertas, sem ficar apavorados — afirmou Amorim à agência britânica de notícias BBC.
Casa Branca
A avaliação de Amorim ocorre em meio a uma nova mudança no relacionamento entre Lula e Trump. Os dois governos haviam iniciado em setembro de 2025 um movimento de reaproximação, depois de meses de tensão entre Brasília e Washington. Mas as decisões recentes da Casa Branca voltaram a alimentar atritos.
Ao classificar PCC e CV como entidades terroristas e ameaçar o Brasil com novas tarifas, Washington pressiona o governo do presidente Lula, que enfrenta críticas sobre a condução da segurança pública e que vem sendo acusado pela oposição de não fazer o suficiente para evitar novas tarifas.
— O que a gente não quer é que essa designação sirva de pretexto para uma intervenção, seja econômica, seja financeira, ou até militar — conclui o diplomata.
Disputa
Embora não comande o Ministério das Relações Exteriores, o embaixador é uma das vozes mais influentes na formulação da política externa do governo petista. É ouvido pelo presidente em temas como a relação com Estados Unidos e China, a guerra na Ucrânia, a integração sul-americana, a regulação das big techs e a disputa global por minerais críticos.
À agência britânica, Amorim minimizou o fato de Trump ter chamado Lula de “volátil”. A frase foi dita pelo norte-americano durante uma resposta sobre líderes estrangeiros na reunião de líderes do G7, grupo das sete das maiores economias do mundo, na qual Lula participou como convidado.
— As palavras o vento leva. São voláteis elas próprias. Não é uma afirmação política. Nós todos sabemos que o presidente Trump fala muito assim, espontaneamente. Já falou outras coisas. Não vou dramatizar isso — ponderou.
Aos 84 anos, Amorim ocupa uma posição singular no entorno de Lula. Ministro das Relações Exteriores nos dois primeiros mandatos do petista e ministro da Defesa na gestão da presidenta deposta Dilma Rousseff (PT), o ex-ministro voltou ao governo em 2023.