Rio de Janeiro, 26 de Fevereiro de 2026

A abstenção do Brasil na ONU

Análise sobre a abstenção do Brasil na votação da ONU por uma paz durável na Ucrânia e suas implicações na política externa brasileira.

Quinta, 26 de Fevereiro de 2026 às 11:50, por: Rui Martins

O Brasil ignorou uma longa tradição de pacifismo e de incentivador de soluções pacíficas para países em conflito ao se abster, nesta semana em Nova Iorque, na Assembléia da ONU, na votação por uma paz imediata e durável entre Rússia e Ucrânia.

Por Rui Martins, editor do Direto da Redação.
A abstenção do Brasil na ONU | Brics e Sul Global ditam a política externa brasileira
Brics e Sul Global ditam a política externa brasileira

Faz quatro anos, a invasão russa da Ucrânia. Apesar da resistência ucraniana, os invasores já tomaram cerca de 20% do território. Embora o ex-presidente norte-americano Biden ajudasse a Ucrânia, desde a eleição de Trump essa ajuda foi cortada e apenas os europeus dão apoio aos ucranianos. Essa guerra está sacrificando um número importante de jovens desses dois países.

Calcula-se em 500 mil o número de mortos, incluindo-se soldados e a população civil. A perda maior, 350 mil, é entre os invasores. Entretanto, essa guerra não tem grande impacto na opinião pública e nem provoca manifestações.

O quadro é desolador, praticamente todos os dias, além dos combates nos fronts, drones russos bombardeiam a população civil. Essa invasão criou um clima de insegurança entre os países que decidiram se rearmar e alguns vão recriar o serviço militar obrigatório, temendo outras invasões russas. Quatro anos de reportagens na tevê, casas destruídas, mulheres idosas chorando vão se tornando cenas comuns e banais e fazem pensar na banalidade do mal, como escreveu Hannah Arendt.

Essa abstenção do Brasil, na ONU, numa votação em favor de uma paz imediata e duradoura entre Rússia e Ucrânia, é assim tão importante? Talvez não, porque hoje uma votação desse tipo na ONU funciona mais como uma mera sondagem de opinião entre países, sem condições para obter resultados práticos. Desgastada, sem recursos financeiros, depois de deserdada por Trump, fechando serviços, demitindo funcionários e agora sofrendo concorrência do Conselho da Paz de Trump, a ONU não tem condições de impor paz em lugar nenhum, só sugerir!

Mas, mesmo assim, votar pela paz, votar pelo fim de uma guerra, tem um valor moral.

No caso da guerra Rússia-Ucrânia não haveria nenhum problema em termos de direito internacional, porque o próprio assessor do presidente Lula para questões internacionais, Celso Amorim, já havia declarado, numa entrevista para o canal Brasil 247, ter havido invasão da Ucrânia pela Rússia – “você não seria coerente em condenar a invasão do Iraque pelos EUA e não condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia, disse Amorim. A Ucrânia é um país independente, você invadir um território independente, usar a força sem autorização da ONU é algo com o que não podemos concordar. A outra parte é a de se tentar uma solução pacífica, e essa solução só vem pela negociação”. Isso foi há três anos.

A sequência é lógica: para se garantir um bom clima de negociação é necessária uma cessação de hostilidades entre as partes. E nesse caso, a iniciativa da ONU de propor uma paz imediata ocorre no momento certo, pois existem negociações em curso. Essas negociações, envolvendo também interesses de Trump, disposto a negociar com a Rússia partes do território ucraniano sem autorização de Zelensky, podem demorar. Um clima de paz durante as negociações, mesmo hipotético, seria benéfico para a população e evitaria o sacrifício contínuo de jovens ucranianos e russos.

Mas o Brasil, agora presidente do Brics, se tornou praticamente um dos líderes da ideologia do pós-colonialismo e do Sul Global. A socialista Renée Fregosi, filósofa e politóloga francesa, professora na Sorbonne, conhecedora do Brasil, já falava desse desejo do presidente Lula se tornar o principal líder do Sul Global. Outro professor, Gilles Kepel, especialista no mundo árabe, ex-Sciences Po, Paris, critica a própria estrutura do Sul Global e sua luta contra o Ocidente por se constituir, na sua maioria, de ditaduras. Nesse contexto, Celso Amorim só poderia orientar o governo brasileiro para se abster da votação na ONU por uma paz durável na Ucrânia, para não desagradar os países do Brics e do Sul Global. (Versão sonora no Youtube https://www.youtube.com/@rpertins )

Celso Amorim

Votation na ONU
https://press.un.org/fr/2026/ag12752.doc.htm

Roberto Freire
https://x.com/freire_roberto/status/2026691326436057364

Renée Fregosi
https://www.tribunejuive.info/2024/02/24/renee-fregosi-le-propalestinisme-de-lula-carburant-dans-sa-course-au-leadership-du-sud-global/

Gilles Kepel
https://www.lcrs-politica.com/research/gilles-kepel-le-sud-global-est-une-grande-imposture-ideologique-et-une-aberration-geopolitique

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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