Resultados preliminares indicam que legenda governista obteve ampla maioria na eleição para a Duma, realizada em meio a ataques de drones ucranianos e sem participação de partidos críticos ao governo.
Por Redação, com DW – de Moscou
O partido governista Rússia Unida, do presidente Vladimir Putin, conquistou ampla maioria nas eleições para a Duma, a câmara baixa do Parlamento russo, segundo resultados divulgados pelas autoridades eleitorais russas nesta segunda-feira.

A votação, a primeira desde que Putin iniciou a guerra contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022, foi marcada por ataques cibernéticos e uma das maiores ondas de ataques de drones ucranianos a cidades russas, incluindo Moscou.
A maioria dos candidatos da oposição foi excluída da disputa, da qual participaram os partidos que costumam votar com o Rússia Unida nas principais questões.
Com mais de 95% dos votos apurados, o Rússia Unida obteve 57,83% dos votos para as 225 cadeiras distribuídas por meio de listas partidárias. Outros 225 parlamentares foram eleitos em disputas individuais distritais, e os resultados mostravam candidatos do Rússia Unida à frente em 208 dessas disputas.
A presidente da Comissão Eleitoral Central, Ella Pamfilova, afirmou que os resultados preliminares indicavam que o Rússia Unida conquistaria 355 das 450 cadeiras.
O Partido Comunista ficou em segundo lugar, com 40 cadeiras. Em seguida aparece o nacionalista LDPR, com 25 assentos, e o partido liberal de centro-direita Novas Pessoas, com 20.
O resultado garantiu ao partido de Putin uma maioria ainda maior, superando seu recorde anterior de 343 cadeiras. Essa maioria significa que o partido pode alterar a Constituição, caso precise.
A votação para a Duma ocorreu pela primeira vez nos territórios ucranianos ocupados pela Rússia – Lugansk, Donetsk, Zaporíjia e Kherson – contra a vontade de Kiev. A Península da Crimeia, no Mar Negro, anexada ilegalmente por Moscou em 2014, participou pela segunda vez.
Ataques
O pleito ocorreu num momento em que a população começa a sentir mais os efeitos da guerra devido à alta de preços, restrições à internet, escassez de combustível e rumores de uma nova onda de mobilização e recrutamento para as Forças Armadas após as eleições.
Os ataques de drones de longo alcance da Ucrânia contra refinarias de petróleo nos últimos meses desencadearam uma crise generalizada de combustíveis. Armazéns pertencentes às gigantes do varejo online Wildberries e Ozon também foram alvos. Os danos agravaram os problemas econômicos do país e trouxeram a realidade da guerra para o cotidiano de milhões de pessoas.
No domingo, no último dia da votação iniciada na sexta-feira, a Ucrânia intensificou os ataques a Moscou e seus arredores. Segundo as autoridades locais, os ataques deixaram dois mortos e provocaram um incêndio numa refinaria de petróleo.
A ofensiva ucraniana foi a maior contra Moscou desde o início da guerra e envolveu cerca de 1.600 drones, dos quais 450 tiveram como alvo direto a capital, afirmou o prefeito de Moscou, Serguei Sobyanin.
Imagens mostravam grandes estragos causados num prédio de apartamentos de vários andares nos arredores da capital e uma nuvem de fumaça negra que saía do que parecia ser uma refinaria de petróleo. Ao menos duas pessoas morreram – uma mulher de 44 anos e um idoso – em dois locais diferentes, disse o governador da região de Moscou, Andrey Vorobyov.
Um incêndio provocado pela queda de um drone num prédio de 21 andares levou à retirada de 400 pessoas, acrescentou.
Zelensky elogia “impacto significativo” dos ataques.
O Ministério da Defesa da Rússia acusou a Ucrânia de tentar “perturbar a vontade democrática dos cidadãos russos” e prometeu intensificar seus ataques em solo ucraniano. “Em resposta aos ataques do regime de Kiev contra alvos civis dentro da Rússia, o Exército russo continuará e intensificará seus ataques de alta precisão contra alvos militares em Kiev”, afirmou o ministério.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, elogiou os ataques deste domingo, afirmando que “nossas respostas de longo alcance tiveram um impacto muito significativo na região de Moscou na noite passada”.
Ele conversou recentemente com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que nos últimos dias instou Kiev a interromper os ataques a refinarias russas. Zelensky e Trump devem se reunir em Nova York nos próximos dias, às margens da Assembleia Geral da ONU.
Eleição
O Kremlin intensificou a repressão à oposição antes das eleições. O partido liberal Yabloko, a única legenda oficialmente registrada que ousou criticar a guerra, foi excluído da disputa eleitoral no mês passado pela Suprema Corte da Rússia. Apesar disso, cerca de cem candidatos do partido continuaram nas cédulas em disputas distritais. Um de seus principais líderes, Lev Shlosberg, foi preso por criticar a guerra.
A viúva do líder da oposição Alexei Navalny – morto numa prisão no Ártico em 2024 –, Yulia Navalnaya, convocou os russos contrários à guerra a comparecerem às urnas ao meio-dia deste domingo na ação conhecida como “Meio-dia pela paz”. Outros opositores russos no exílio também pediram à população que não boicotasse as eleições, mas que votasse “contra o partido de Putin”.
Ciberataques
A presidente da Comissão Eleitoral Central da Rússia, Ella Pamfilova, relatou que houve uma onda de ciberataques contra a infraestrutura eleitoral, mas não apontou responsáveis.
Ela afirmou que os ataques parecem ter sido realizados por “grupos altamente profissionais e bem coordenados, utilizando ferramentas de inteligência artificial”.
– No período recente, foram registradas mais de mil ondas de ataques DDoS contra a infraestrutura russa diretamente ligada ao processo eleitoral – afirmou Pamfilova, segundo agências de notícias russas.
Os ataques DDoS (sigla em inglês para Distributed Denial of Service, ou ataque distribuído de negação de serviço) consistem em sobrecarregar um sistema com um grande volume de tráfego de internet, impedindo seu funcionamento normal.
No sábado, ela alertou que sabotadores também haviam cortado linhas de comunicação no Extremo Oriente russo, numa aparente tentativa de prejudicar a votação.