O presidente russo, Vladimir Putin, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, assinaram um tratado de parceria estratégica em junho de 2024.
Por Redação, com RFI – de Moscou
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou no domingo que até 50 mil soldados norte-coreanos teriam sido mobilizados para lutar ao lado da Rússia, aliada histórica de Pyongyang. Para uma especialista ouvida pela RFI, o recrutamento maciço de combatentes estrangeiros revela a dificuldade de Moscou em contar com seus próprios efetivos na Ucrânia.

Zelensky não explicou como obteve esse número, muito superior à estimativa de 30 mil feita em julho. No entanto, a revelação expõe os entraves que impedem o avanço do Exército russo na linha de frente, avalia Marie Mendras, professora de Relações Internacionais na universidade Sciences Po de Paris.
– As necessidades são crescentes, caso o Kremlin queira manter a guerra no terreno – ou seja, lançar novas ofensivas. O Exército russo não consegue mobilizar as centenas de milhares de homens de que precisaria para retomar uma ofensiva na Ucrânia – avalia.
O presidente russo, Vladimir Putin, e o líder norte-coreano, Kim Jong-un, assinaram um tratado de parceria estratégica em junho de 2024. O pacto prevê uma cláusula de assistência mútua em caso de agressão externa contra um ou outro dos dois países. No mesmo ano, Pyongyang enviou cerca de 14 mil soldados para a região russa de Kursk, ajudando Moscou a repelir uma importante incursão das forças ucranianas na área.
Dois anos depois, a situação é diferente para a Rússia, avalia Mendras, com cerca de 1,5 milhão de soldados russos mortos, feridos ou impossibilitados de continuar combatendo. “No leste e no sudeste da Ucrânia o exército da Rússia não avança há vários meses e é até obrigado a recuar em alguns pontos. Assim, a prioridade das forças russas parece ser manter as posições para evitar recuos maiores em território ucraniano”, avalia.
Recrutamento
A professora da Sciences Po também destaca as dificuldades da Rússia para recrutar soldados. Oficialmente, uma mobilização lançada em setembro de 2022 permite a Moscou manter uma convocação permanente. No entanto, os métodos do governo russo são controversos.
– O que eles fazem é lançar ‘operações especiais’ – como gostam de chamar – para recrutar homens, muitas vezes à força ou ameaçando suas famílias. E não está claro como esses recrutas, que não estão preparados e não têm vontade de ir para a linha de frente, poderiam ser realmente eficazes – diz Mendras.
Além disso, a especialista destaca que o exército russo enfrenta grandes problemas nos territórios ocupados, como a península da Crimeia e o leste da Ucrânia. Segundo ela, a ocupação vai mal e, diante das dificuldades, parte da população tenta deixar as zonas tomadas.
– As administrações desses territórios são marcadas pela corrupção, e seus militares são enviados sobretudo para a linha de frente. Isso significa que eles não estão mobilizados para garantir a gestão administrativa dessas localidades – observa.
Guerra de mísseis
Por isso, avalia Mendras, o futuro da guerra na Ucrânia se concentrará nas trocas de mísseis, com uma possível multiplicação de lançamentos nas próximas semanas. Kiev sofre com a falta crítica de sistemas avançados de defesa aérea, e Moscou tentará explorar essa vulnerabilidade utilizando um número crescente de projéteis balísticos, particularmente difíceis de interceptar.
Nesta nova etapa do conflito, o exército russo dá sinais de que continuará contando com o apoio da Coreia do Norte. Um responsável dos serviços de inteligência militar ucranianos declarou recentemente à agência inglesa de notícias Reuters que uma unidade de mísseis norte-coreana iniciou seu deslocamento para o oeste da Rússia e poderia estar equipada com 120 mísseis balísticos e seis lançadores para atingir a Ucrânia.
Segundo fontes ucranianas e independentes, Pyongyang também teria fornecido a Moscou milhões de projéteis de artilharia e morteiros, mísseis balísticos, artefatos de longo alcance e sistemas de lançadores múltiplos de foguetes. Nem o regime norte-coreano nem a Rússia confirmaram essas informações até o momento.