Segundo documentos de prestação de contas tornados públicos, os recursos foram integralmente desembolsados, mas nunca chegaram ao município.
Por Redação, com Reuters – de Brasília e São Paulo
A emenda do deputado Mário Frias (PL-SP) destinada a um projeto de letramento digital e empreendedorismo em Pirassununga, no interior paulista, está sob suspeita da Polícia Federal (PF) após a ONG beneficiada direcionar parte dos recursos ao advogado que representou o parlamentar em processos judiciais e à compra de livros didáticos que, segundo responsáveis pela iniciativa, não foram entregues.

Conforme denúncia publicada nesta segunda-feira no diário conservador paulistano ‘O Estado de São Paulo’, o caso envolve R$ 1 milhão indicado pelo deputado no orçamento de 2024 para o Instituto Conhecer Brasil (ICB), uma instituição privada sob a gestão de Karina Ferreira da Gama, também responsável pela empresa Go Up Entertainment, produtora do filme ‘Dark Horse’, que conta a vida de Jair Bolsonaro. Frias assina o longa-metragem como produtor-executivo e roteirista.
Segundo documentos de prestação de contas tornados públicos, os recursos foram integralmente desembolsados, mas responsáveis pelo projeto Jovem Empreendedor, que deveria ser executado em Pirassununga, afirmaram que o investimento prometido nunca chegou ao município. O projeto tinha como objetivo fomentar o empreendedorismo e o letramento digital entre jovens e adolescentes, com materiais físicos e digitais voltados a estudantes da rede pública.
— Não foi executado em Pirassununga. Não foi executado por mim. Fiquei sabendo que não iria mais rolar aqui, não seria eu que executaria. Ninguém deu satisfação ou falou nada — afirmou Kayo Azevedo, responsável técnico do Jovem Empreendedor.
Material
O maior pagamento registrado na prestação de contas foi destinado à Editora Dinâmica, contratada por R$ 400 mil para fornecer 2.750 kits de livros pedagógicos. Cada unidade custaria R$ 145,45. De acordo com os responsáveis pelo projeto, porém, o material nunca chegou a Pirassununga.
A Editora Dinâmica pertence a Dayvid Medeiros. Ele é sócio em outra empresa de Heric Fabiano Dias, cuja esposa, Luiza Tessari Rocha Dias, doou R$ 70 mil à campanha de Mário Frias para deputado, em 2022. O jornal relata que tentou contato com Dayvid por ligação, mensagens e e-mail; além de procurar sua mulher, mas não obteve retorno. Heric e Luiza não foram localizados.
Repasses
Outro contrato firmado pelo ICB foi com o Instituto Super Poder Educacional, de Pamella Cristiane Dias, no valor de R$ 300 mil. O serviço previa a entrega de 24 kits pedagógicos, roteirização, produção e gravação de aulas, trilhas de conteúdo complementares e licença de 12 meses para 2,5 mil acessos em uma plataforma. Pamella foi procurada nos telefones pessoal e da empresa, mas não respondeu.
Outros R$ 80 mil da emenda foram pagos a uma empresa que tem como sócio Fabio Lago Meirelles, advogado de Mário Frias. Foram dois repasses feitos em fevereiro: R$ 30 mil por serviços de contabilidade e R$ 50 mil por serviços jurídicos. Entre 2022 e 2026, Meirelles representou Frias em ao menos nove processos, sendo oito na Justiça Eleitoral e um na Justiça Estadual de São Paulo. Procurado, ele disse que retornaria após uma reunião, o que não ocorreu.