Rio de Janeiro, 24 de Maio de 2026

Amizade com Vorcaro destruiu imagem de Flávio Bolsonaro

A amizade entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Vorcaro gera polêmica e abala a imagem do senador, em meio a escândalos financeiros e a corrida presidencial.

Domingo, 24 de Maio de 2026 às 13:59, por: Rui Martins

A lida diária da reportagem nos ensina que na política nada é definitivo até que seja contado o último voto na urna. Portanto, é precipitado estimar o tamanho dos estragos, ou benefícios, que trarão para a candidatura a presidente da República do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, o seu envolvimento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, 42 anos, que está preso preventivamente pelo escândalo do Banco Master, uma fraude financeira que causou um prejuízo de R$ 50 bilhões aos clientes e ao sistema bancário nacional.

Por Carlos Wagner, jornalista, escritor, colaborador do Observatório da Imprensa.
Amizade com Vorcaro destruiu imagem de Flávio Bolsonaro | Flávio Bolsonaro perdeu favoritismo por ter amizade muito próxima com Daniel Vorcaro.
Flávio Bolsonaro perdeu favoritismo por ter amizade muito próxima com Daniel Vorcaro.

Flávio substitui, na corrida presidencial, o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, que cumpre pena de 27 anos de cadeia por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. A história vem sendo acompanhada online pelos noticiários diários da imprensa e não “vou chover no molhado”. Vamos conversar sobre o aprofundamento no racha político entre os seguidores do ex-presidente que poderá beneficiar a direita democrática, como foram apelidados pela imprensa os militantes e parlamentares que, por oportunismo, aderiram ao bolsonarismo e agora não conseguem sair de lá.

Mas antes vamos contextualizar a nossa conversa. Segundo matéria publicada no site The Intercept Brasil, bolsonaristas pediram para Vorcaro R$ 134 milhões para financiar, nos Estados Unidos, a produção do filme Dark Horse, o Azarão, que conta a trajetória política recente do ex-presidente Bolsonaro. Na ocasião, o então banqueiro teria dividido o montante em parcelas, cujo número é desconhecido. No primeiro semestre de 2025, ele depositou R$ 61 milhões e então interrompeu o pagamento. Vieram a público as gravações das conversas de Flávio cobrando as parcelas atrasadas – há uma abundância de matérias na internet.

O valor da produção do filme foi considerado muito acima da realidade de mercado. A Polícia Federal (PF) segue as pegadas deixadas pelos R$ 61 milhões. A história envolve mais um dos filhos do ex-presidente, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), 41 anos, que se autoexilou nos Estados Unidos. Terminada a contextualização, vamos conversar. Antes das eleições presidenciais que elegeram Bolsonaro, em 2018, havia uma polarização política entre o PT e o PSDB, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Atualmente com 94 anos, FHC presidiu o país por dois mandatos (1995 a 2003).

A direita democrática se abrigava no PSDB, no MDB e no Centrão, como é chamado o bloco de partidos que, independentemente de quem for o presidente da República, troca cargos e influência no governo por apoio no Congresso. Entre 2014 a 2021 o Brasil foi sacudido pela Operação Lava Jato, em que a Polícia Federal e Ministério Público Federal (MPF) revelaram um grande esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes. A história da Lava Jato é complexa e cheia de problemas amplamente documentados e disponíveis na internet, em filmes, livros, documentários e muitas reportagens.

Nesse ambiente, nas eleições presidenciais de 2018 a candidatura de Bolsonaro, até então um discreto deputado federal pelo Rio de Janeiro, que parecia não ter a mínima chance, “ganhou tração” e ele se elegeu presidente do Brasil. Daí vem a inspiração para o nome do filme, Azarão. A direita democrática viu na situação uma chance de continuar relevante e aderiu de corpo e alma ao bolsonarismo. Quebrou a cara. O presidente eleito não era o “idiota” que todos pensavam. Muito pelo contrário. Enquadrou todos nas suas práticas políticas autoritárias e transformou a direita democrática em um “puxadinho” do bolsonarismo.

O auge do governo Bolsonaro foi em 2019. Na época, as lideranças políticas e os militantes da direita democrática eram simplesmente ignorados pelo círculo pessoal do presidente. Lembro-me de ter conversado longamente com alguns deles. A decadência do governo começou em 26 de fevereiro de 2020. Naquele dia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia de Covid-19, uma severa infecção respiratória, contagiosa e letal, causada por um vírus desconhecido, para a qual não havia remédios nem vacinas.

O titular do Ministério da Saúde era o médico Luiz Henrique Mandetta, 61 anos, um político nascido no berço do PMDB. Bateu de frente com o presidente quando tentou seguir as orientações da OMS para o enfrentamento a doença. Bolsonaro era negacionista em relação à letalidade e o poder de contágio do vírus. Mandetta foi demitido em abril de 2020. Foi um período tenso no Brasil. A população vivia trancada dentro de casa, torcendo e rezando para não ser a próxima vítima do vírus.

Lembro-me que Bolsonaro fazia tudo que estava ao seu alcance para boicotar as medidas de prevenção da OMS. A tensão passou quando foram desenvolvidos os tratamentos e as vacinas para a Covid. Toda a história é contada nas 1,6 mil páginas do relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado, a CPI da Covid, que atualmente está sendo analisado pela PF a pedido do ministro Flávio Dino, 58 anos, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Nas eleições presidenciais de 2022, a direita democrática tentou “vender” para a opinião pública a necessidade de uma terceira via para acabar com a polarização política entre Bolsonaro e Lula. Não teve sucesso. O primeiro turno para presidente foi disputado por 10 candidatos. Passaram para o segundo turno Bolsonaro e Lula, que ganhou as eleições.

Em 2026, o representante da direita democrática era o governador gaúcho Eduardo Leite, 41 anos, que migrou do PSDB para o PSD para disputar com outros dois postulantes a indicação do partido para concorrer a presidente da República. Perdeu a indicação para o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, 76 anos, que até agora não decolou nas pesquisas.

Aqui é o seguinte: o racha entre bolsonaristas começou quando o ex-presidente perdeu as eleições em 2022 e se abraçou com os chamados “bolsonaristas raiz”, um grupo de radicais da extrema direita. Esse grupo sempre cresce nos momentos de crise, como é o atual da candidatura de Flávio. Seu envolvimento com Vorcaro e o escândalo do Banco Master preocupa especialmente os parlamentares que em 2022 se elegeram na carona do prestígio de Bolsonaro e agora concorrem à reeleição. Eles já não contarão com a presença nos palanques do ex-presidente, que está preso. Para complicar, terão que explicar aos eleitores por que Flávio chama Vorcaro de “meu irmão”.

Para finalizar a nossa conversa. Até se tornar pública a história de Dark Horse, o Azarão, o filme de R$ 134 milhões que estava sendo financiado pelo ex-banqueiro Vorcaro, a candidatura do senador Flávio estava voando em “céu de brigadeiro”. Sequer informou aos eleitores o seu plano de governo. Só era conhecida a sua intenção de propor ao Congresso um projeto de anistia ampla, geral e irrestrita para o seu pai e os envolvidos na tentativa de golpe de estado.

Perante os eleitores, a sua grande preocupação era fixar a imagem de que era um “Bolsonaro bonzinho, respeitador das instituições e incentivador das vacinas”. É um disfarce que o senador usa para atrair os votos dos eleitores de fora da bolha bolsonarista, que são os votos que vão eleger o próximo presidente? Qual o tamanho do rasgo que o rolo com Vorcaro provocou no disfarce? (Publicado originalmente em Histórias Mal Contadas e no Observatório da Imprensa)

Carlos Wagner , repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP

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