A crise também reacende uma discussão incômoda para os cubanos: o que permanece das promessas sociais da Revolução.
Por Redação, com RFI – de Havana
No centenário do nascimento de Fidel Castro, celebrado nesta quinta-feira, Cuba vive sob uma contradição: enquanto o Partido Comunista celebra o líder que comandou a ilha por quase meio século, o país enfrenta uma das mais graves crises de sua história recente.

Exposições, shows e conferências foram organizados para marcar os 100 anos do nascimento de Fidel, morto em 2016. Mas, fora das cerimônias oficiais, a realidade é marcada por apagões que podem durar horas ou até dias, falta de alimentos e água, transporte público em colapso e escassez de medicamentos.
A crise também reacende uma discussão incômoda para os cubanos: o que permanece das promessas sociais da Revolução e até que ponto seus problemas atuais são consequência de pressões externas ou do próprio modelo econômico e político construído sob Fidel.
Antes de colocar um retrato de Castro na janela de sua casa, em Havana, o eletricista Leonel Suárez, de 54 anos, beija a imagem. Há mais de uma década, ele coleciona fotografias e objetos ligados à Revolução e chama Fidel de “mestre”.
Suárez acredita que, se estivesse vivo, o antigo líder saberia enfrentar a crise “com muita estratégia” e “dando duro por seu povo”.
Mas a situação econômica chegou a um ponto em que até sua coleção virou fonte de renda. Quando um turista lhe ofereceu US$ 100 por uma fotografia de Fidel, ele aceitou.
“É preciso viver”, diz.
Memória e crise
Para uma parte dos cubanos, Fidel ainda é lembrado como o líder que atravessou algumas das maiores crises enfrentadas pela ilha: a invasão da Baía dos Porcos, a crise dos mísseis, o embargo americano, tentativas de assassinato e o colapso da União Soviética, que deixou Cuba sem seu principal aliado econômico.
– Fidel já não está aqui, e ninguém tem as capacidades que Fidel tinha – afirma Rogelio Valdivia, de 54 anos, em sua oficina na Havana Velha, o centro histórico da capital cubana.
Valdivia nasceu durante a Revolução e atribui a ela parte de sua trajetória pessoal. Nas paredes da oficina, entre ferramentas e rachaduras, mantém uma espécie de santuário dedicado a Fidel.
A presença física do antigo líder, porém, vem desaparecendo das ruas.
Após sua morte, uma lei proibiu a construção de monumentos em sua homenagem e o uso de seu nome para instituições públicas. Os grandes painéis com seu rosto também foram desaparecendo, deteriorados pelo tempo.
O culto oficial à imagem de Fidel permanece, mas já não ocupa o mesmo espaço no cotidiano.
Pacto social
A crise atinge justamente uma geração que durante décadas associou a Revolução a conquistas sociais.
Ángela Gutiérrez, de 86 anos, pertence a esse grupo. Ela cresceu sob Fidel e se beneficiou do sistema público de saúde e educação. Hoje, diz estar “decepcionada” com os rumos do país.
Depois de percorrer barracas de alimentos sem conseguir comprar o que precisava, reclama dos preços e dos apagões.
– Por que cortam tanto a luz? – questiona. “Estão acabando com a vida das pessoas.”
O contraste é central para entender a crise cubana. Durante décadas, o governo ofereceu serviços sociais e proteção econômica em troca de disciplina política e pouca abertura para a oposição. Esse pacto social foi uma das bases da estabilidade do regime.
Agora, porém, o Estado enfrenta dificuldades crescentes para cumprir sua parte desse acordo. O problema aparece no cotidiano: energia elétrica instável, falta de combustível, alimentos caros, hospitais com falta de medicamentos e transporte público insuficiente.
A crise econômica não é nova. Ela se aprofundou depois da pandemia, com a queda do turismo e a escassez de divisas, e ganhou novo impulso após a reforma monetária de 2021, que contribuiu para uma forte aceleração da inflação.
As novas medidas de Washington aumentaram a pressão, especialmente sobre o fornecimento de combustível. Mas atribuir a crise exclusivamente ao embargo americano deixa de fora problemas que já existiam antes do agravamento recente das sanções.
O modelo que Fidel deixou.
Desde 1959, a economia cubana foi organizada em torno de forte controle estatal, nacionalização dos principais setores produtivos e restrições à iniciativa privada.
O modelo permitiu ao governo controlar recursos estratégicos e sustentar programas sociais, mas também criou uma economia pouco produtiva, dependente de parceiros externos e com limitada capacidade de adaptação.
A dependência ficou evidente após o fim da União Soviética, no início dos anos 1990. Décadas depois, Cuba continua enfrentando dificuldades para gerar divisas e produzir internamente bens básicos.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o açúcar. A indústria que durante séculos esteve no centro da economia cubana entrou em declínio acelerado. A produção, que chegou a cerca de 8 milhões de toneladas no final dos anos 1980, caiu para níveis historicamente baixos nas décadas seguintes.
Ao mesmo tempo, Havana tentou substituir parte dessa receita pelo turismo e pela exportação de serviços profissionais, especialmente médicos enviados para trabalhar no exterior, como no Brasil.
O turismo chegou a se tornar uma das principais fontes de moeda estrangeira do país. Mas a atividade também se mostrou vulnerável à pandemia, à deterioração da infraestrutura e às restrições impostas pelos Estados Unidos.
O resultado é uma economia com pouca capacidade de gerar crescimento, baixa disponibilidade de moeda estrangeira e dificuldade para financiar investimentos justamente nos setores que mais precisam de modernização.
Díaz-Canel
É nesse cenário que os sucessores de Fidel são colocados à prova.
Miguel Díaz-Canel assumiu a Presidência em 2018 e tornou-se primeiro-secretário do Partido Comunista em 2021, quando Raúl Castro deixou o comando da legenda.
A questão agora é se a atual liderança conseguirá reformar a economia sem abrir mão do controle político que sustenta o sistema. Esse é o principal dilema.
Para recuperar a produção e atrair investimentos, Cuba precisaria ampliar o espaço para empresas privadas, flexibilizar mercados, modernizar sua infraestrutura e criar condições mais favoráveis para o investimento.
Mas uma abertura econômica também pode reduzir a dependência da população em relação ao Estado e criar novos centros de poder econômico e social. Para um regime construído em torno do monopólio político do Partido Comunista, essa possibilidade representa um risco.
O resultado é um círculo vicioso: o governo precisa de reformas para recuperar a economia, mas teme que reformas profundas enfraqueçam o sistema político. Enquanto isso, a deterioração econômica aumenta a pressão sobre o próprio pacto social que sustentou o regime.
É nesse ponto que as duas interpretações sobre o legado de Fidel se encontram.
Manuel Cuesta, historiador de 63 anos e opositor político, pertence ao grupo que deixou de enxergar Castro como o “redentor” que conheceu na juventude.

Segundo ele, a distância entre as promessas da Revolução e a realidade cubana fez com que Fidel passasse, para muitos, de símbolo de esperança a “responsável original por esta catástrofe nacional”.
Hassan Pérez, historiador e ex-dirigente estudantil que trabalhou próximo a Fidel, reconhece que o centenário ocorre em um dos momentos mais difíceis da história recente da ilha. Para ele, o pacto social criado pela Revolução “se deteriorou” nos últimos anos. Ainda assim, a figura de Fidel permanece relevante.
Mildred Barreto, de 66 anos, continua chamando-o de “nosso comandante”. Mas, quando fala da vida atual, resume a mudança em uma frase: “A gente passa por muitas dificuldades. Com nosso comandante, não.”
O centenário de Fidel Castro expõe, assim, uma disputa que vai além da memória de um líder. Para seus admiradores, a crise mostra a falta de uma liderança capaz de enfrentar adversidades como Fidel fazia. Para seus críticos, ela é justamente o resultado de um sistema econômico e político criado sob seu comando e mantido por seus sucessores.
A pergunta que fica para Cuba não é apenas se Fidel ainda vive na memória dos cubanos. É se o modelo que ele deixou consegue sobreviver à crise, ou se a própria crise obrigará seus sucessores a fazer as reformas que o regime adiou durante décadas.