Abraham Lincoln está há nove meses no mar e participa desde janeiro da guerra contra o Irã; famílias denunciam esgotamento, falta de suprimentos e problemas de infraestrutura.
Por Reação, com Vermelho – de Washington
Relatos de tentativas de suicídio entre militares do porta-aviões USS Abraham Lincoln aumentaram a pressão sobre o governo dos Estados Unidos pelas condições enfrentadas pela tripulação, que está no mar desde novembro de 2025 e participa desde janeiro das operações militares contra o Irã.

Os casos foram noticiados nesta semana pelo Navy Times e pelo Stars and Stripes, dois veículos norte-americanos especializados em assuntos militares.
O navio tem cerca de 5 mil marinheiros e fuzileiros navais e atravessa um dos períodos mais longos de mobilização de um porta-aviões norte-americano nas últimas décadas.
Segundo os veículos, familiares relataram episódios em que militares tentaram se jogar ao mar, além de casos de pensamentos suicidas entre integrantes da tripulação. Em um deles, um marinheiro teria sido impedido de pular do navio. Em outro, a mulher de um militar afirmou que o marido chegou a tentar se jogar ao mar.
Mais de 200 familiares participaram na semana passada de reuniões com autoridades da Marinha em San Diego, onde o Lincoln tem sua base. As queixas envolveram saúde mental, esgotamento, falta de alimentos e suprimentos, contaminação da água e problemas de infraestrutura.
Em uma das reuniões, uma mulher afirmou ter recebido naquele mesmo dia uma mensagem do marido, que estava no navio, dizendo que esperava “não acordar amanhã”.
O vice-almirante Joseph Cahill, comandante das Forças de Superfície da Marinha, reconheceu durante o encontro o impacto da missão prolongada.
“Ouvimos vocês em alto e bom som [em relação ao] impacto que isso tem sobre as famílias, sobre os militares e sobre nossa capacidade a longo prazo de manter e sustentar a saúde de nossas forças”, afirmou.
Meses sem pisar em terra.
O Abraham Lincoln deixou San Diego em 21 de novembro do ano passado para uma missão inicialmente prevista para terminar em maio. Em janeiro, foi deslocado para o Oriente Médio, antes do início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, e permaneceu na região desde então.
A missão foi prorrogada diversas vezes e não há uma data pública para seu encerramento.
Desde que deixou os Estados Unidos, a tripulação teve apenas duas oportunidades de pisar em terra.
A primeira ocorreu em Guam, em dezembro, embora muitos marinheiros não tenham sido autorizados a desembarcar. A segunda foi durante uma parada para reabastecimento em Omã, em julho, quando aqueles que deixaram o navio ficaram restritos a uma área do porto.
O período é considerado excepcionalmente longo. Em tempos de paz, embarcações da Marinha americana costumam fazer escalas aproximadamente a cada 45 dias. Mesmo durante operações militares, períodos superiores a seis meses sem uma escala regular são incomuns.
Além do tempo de mobilização, familiares relatam jornadas de trabalho que chegam a 12 ou 16 horas, poucos dias de descanso e problemas nas instalações do porta-aviões, que está em serviço há 37 anos.
Entre as reclamações estão chuveiros com mofo, vasos sanitários quebrados, falta de água quente por semanas, problemas nas lavanderias e escassez de sabonete, pasta de dente e desodorante.
O deputado democrata Mike Levin, da Califórnia, afirmou que também recebeu relatos de falta de comida. Segundo ele, houve refeições compostas por “meia xícara de arroz e duas tortilhas”.
Levin disse ainda que um familiar relatou que um médico do próprio navio havia alertado para a necessidade de uma escala diante do nível de esgotamento da tripulação.
Democratas
A situação levou parlamentares democratas a cobrar explicações do Pentágono sobre a duração da missão e as condições no Abraham Lincoln.
O senador Richard Blumenthal, de Connecticut e integrante da Comissão das Forças Armadas, enviou nesta semana uma carta ao secretário de Defesa, Pete Hegseth, e ao comando da Marinha.
– Tem havido relatos generalizados de escassez de suprimentos básicos, contaminação da água, problemas no encanamento, deterioração da saúde mental, preocupações com a segurança no convés e interrupções no sistema de correio – escreveu Blumenthal.
O deputado Seth Moulton, de Massachusetts, veterano dos fuzileiros navais, também criticou a condução da missão e relacionou o desgaste da tripulação à guerra contra o Irã.
– É realmente difícil se empolgar com essa missão. Não há ninguém que acredite nela neste momento, e isso deve ser uma das coisas que mais pesam sobre nossas tropas – afirmou.
Hegseth contesta
Hegseth afirmou na quinta-feira que as notícias sobre as condições a bordo do porta-aviões foram “completamente deturpadas”.
– Garantimos que cada navio, cada tripulação, cada capitão tenha tudo o que podemos oferecer a eles a cada momento. Algumas missões são mais longas do que outras – declarou o secretário durante uma visita ao Panamá.
A Marinha também afirmou não ter identificado aumento de pensamentos ou tentativas de suicídio no navio. Segundo a corporação, a tripulação dispõe de terapeutas, profissionais médicos, religiosos e outros serviços de apoio psicológico.
A Marinha, porém, não informou quantos militares tentaram suicídio durante a atual missão. Uma autoridade ouvida pela CNN afirmou ainda que o monitoramento interno de relatos de pensamentos suicidas diminuiu nos últimos meses.
Outro porta-aviões será enviado.
Em meio às denúncias, os Estados Unidos preparam a substituição do Abraham Lincoln pelo USS George Washington, porta-aviões nuclear baseado no Japão.
Uma autoridade americana afirmou que a troca já estava prevista anteriormente, mas não informou quando o Lincoln deixará o Oriente Médio.
O Abraham Lincoln está há mais de 260 dias em missão. Durante décadas, cerca de seis meses foram considerados o período padrão de mobilização dos grupos de ataque de porta-aviões americanos.