Tanto a Rússia quanto a Ucrânia intensificaram, nas últimas semanas, os ataques contra navios comerciais no Mar Negro, o que levou a um aumento nos preços mundiais dos grãos.
Por Redação, com Reuters – de Moscou
A Rússia rejeitou nesta sexta-feira a ideia de um cessar-fogo com a Ucrânia no Mar Negro, afirmando que não vê motivos para “meias-medidas” que proporcionassem um respiro ao outro lado.

Tanto a Rússia quanto a Ucrânia intensificaram, nas últimas semanas, os ataques contra navios comerciais no Mar Negro, o que levou a um aumento nos preços mundiais dos grãos.
Em comunicado, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, acusou a Ucrânia de “atos descarados de terrorismo” contra a navegação, sem fazer menção aos próprios ataques da Rússia.
– Consideramos esses ataques (da Ucrânia) uma política deliberada que visa desestabilizar a navegação civil na região do Mar Negro para intensificar ainda mais as tensões e prolongar o conflito, tudo com a aquiescência flagrante dos vizinhos da região – disse Zakharova.
– Ao mesmo tempo, não vemos sinais de melhora na situação e, consequentemente, não há motivos para meias-medidas que apenas concedam ao regime de Kiev um respiro temporário.
Zakharova disse que comentava uma declaração do ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, em uma entrevista à mídia, segundo a qual Ancara havia apresentado propostas tanto à Rússia quanto à Ucrânia para uma moratória nas operações militares no Mar Negro.
Ela disse que a Rússia não havia recebido nenhuma proposta formal da Turquia.
À agência inglesa de notícias Reuters noticiou na quinta-feira que a Ucrânia transmitiu uma oferta à Rússia, por meio de um terceiro, para que ambos os lados suspendam os ataques a alvos civis no Mar Negro.
Zakharova disse que não era viável retornar à iniciativa de grãos do Mar Negro de 2022 a 2023, mediada pela Turquia, um acordo que permitia que a Rússia e a Ucrânia — ambas grandes exportadoras de grãos — continuassem a abastecer os mercados mundiais. O acordo, que ela chamou de unilateral, fracassou depois que a Rússia acusou a Ucrânia e o Ocidente de não cumprirem sua parte no acordo.
Trégua
A Ucrânia enviou à Rússia uma proposta sugerindo que ambos os países suspendam os ataques a alvos civis no Mar Negro, segundo uma fonte, depois que os crescentes ataques a embarcações e portos na região geraram temores quanto ao abastecimento global de alimentos.
A proposta de suspensão dos ataques foi transmitida por Kiev por meio de um terceiro, e a Ucrânia ainda aguardava uma resposta, disse à Reuters a fonte familiarizada com o assunto.
Tanto a Rússia quanto a Ucrânia, importantes participantes do mercado agrícola mundial, se acusam de intensificar os ataques a navios utilizados para exportações.
Kiev foi forçada a recorrer a rotas alternativas de transporte quando muitos armadores suspenderam as escalas nos portos no final de julho na região sul de Odessa — um importante centro de exportação de grãos —, cautelosos após ataques russos a dezenas de navios.
Por sua vez, a Rússia teve que suspender as operações nos três terminais do porto de Novorossiysk, no Mar Negro, na quarta e nesta quinta-feira, após um ataque ucraniano, e terá que reduzir ainda mais suas exportações de grãos.
O Kremlin e o Ministério das Relações Exteriores da Rússia não responderam imediatamente a um pedido de comentário sobre a notícia da oferta da Ucrânia.
Antes da reportagem, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Alexander Grushko, afirmou que Moscou não havia recebido nenhuma proposta formal de cessar-fogo no Mar Negro.
– Recentemente, temos ouvido muitos apelos por diversos tipos de moratórias e tréguas. Essas ideias estão sendo apresentadas por meio de vários canais, mas não recebemos nenhuma proposta formal – disse ele, segundo a agência de notícias estatal russa Tass.
O trigo na Euronext reduziu os ganhos em um pregão volátil nesta quinta-feira, recuando da máxima de duas semanas após a reportagem da Reuters.
Exportações
A Rússia tem tentado repetidamente bloquear as operações portuárias e os embarques ucranianos, que são fundamentais para a economia de Kiev, devastada pela guerra.
Após a invasão russa de 2022, a Organização das Nações Unidas e a Turquia intermediaram um acordo que permitiu a continuidade das exportações de grãos ucranianos para evitar uma crise alimentar iminente. Em 2023, a Rússia se recusou a prorrogar o acordo.
Depois disso, a Ucrânia estabeleceu outra rota marítima que permaneceu operacional até a última onda de escalada. As alternativas — tanto ferroviárias quanto pelo Danúbio — são extremamente limitadas, afirma Kiev.
No último domingo, a Turquia transmitiu suas preocupações sobre os ataques à Rússia e à Ucrânia, afirmando que ambos os países deveriam declarar uma moratória sobre os ataques no Mar Negro.
O atual bloqueio de facto dos portos do Mar Negro fez com que as exportações de grãos ucranianos despencassem 76% em relação ao mesmo período do ano anterior até agora em agosto, com o setor agrícola alertando para consequências graves para a economia caso a situação persista.