Com o avanço dos bombardeios russos e o perigo de drones, equipes de socorro enfrentam rotas arriscadas para evacuar civis em vilarejos próximos à fronteira, como Khotimlia.
Por Redação, com RFI – de Kiev
Mesmo que o avanço das tropas russas na Ucrânia pareça congelado há meses, os bombardeios aéreos continuam assolando a população. Esta situação obriga moradores a deixar suas casas em condições extremamente arriscadas. À agência francesa de notícias RFI acompanhou uma missão de resgate de civis perto de Kharkiv, no leste do país.

Os dois veículos blindados do Centro de Coordenação dos Socorros de Kharkiv se dirigem ao vilarejo de Khotimlia, a 25 quilômetros da fronteira russa e a cerca de 20 quilômetros da linha de frente. A localidade foi ocupada pelo exército de Moscou nos primeiros dias da invasão, em fevereiro de 2022, antes de ser libertada seis meses depois por uma contraofensiva ucraniana.
Mas, nos últimos meses, a guerra voltou a se aproximar da região. “O vilarejo está sob fogo constante de projéteis de longo alcance. Drones atingem essa localidade o tempo todo”, lamenta Leonid Mazur, que coordena os socorros. “Nossa missão hoje é evacuar uma família: uma mulher e seus dois filhos. São as últimas crianças do vilarejo. Mas antes vamos buscar uma mulher”, conta à RFI.
Na estrada, um sistema de bip sonoro serve para localizar e avisar sobre a aproximação de drones. “São os nossos olhos em cada missão”, explica Yevhenii, outro integrante da iniciativa. “A máquina detecta os drones e indica em que direção eles estão se movendo. Mas não confiamos apenas nesta — temos várias — porque o inimigo muda sem parar a frequência de seus drones”, explica.
– Não tenho mais para onde ir.
No primeiro ponto de encontro, não há uma mulher, mas duas: uma idosa e sua filha, Olena. “Eu estava morando com a minha mãe na casa da minha avó”, conta a filha. “Recentemente, quatro mísseis caíram sobre o vilarejo. A casa está completamente destruída, só restaram as paredes. Não tenho mais para onde ir”, diz.
Segundo Yevhenii, esse tipo de situação ocorre com frequência: “chegamos para buscar alguém e há mais pessoas do que o previsto”. “Nesses casos, é preciso se apertar [dentro dos veículos], dar um jeito de conseguir espaço de alguma forma — ou então acionar um reforço”, diz.
Na segunda parada da missão, tudo acontece dentro do esperado. À espera da equipe, estão uma mãe, Liliia, e seus dois filhos pequenos, que reuniram alguns poucos pertences em sacolas de plástico. No local, não há tempo a perder: assim que a família embarca, os veículos seguem adiante.
Duas horas depois, todos chegam ao centro de refugiados de Kharkiv sãos e salvos: a missão foi bem‑sucedida. Mas, para Liliia, o alívio dura pouco. “Tenho medo do futuro e sinto como se tivessem arrancado um pedaço da minha alma”, confessa. “Ter que deixar minha casa assim… Ela está tomada por ervas daninhas, mas é a minha casa”, diz, com um sorriso triste.
Liliia conta que sua mãe, de 66 anos, não quis partir. “É difícil deixá‑la, mas o futuro das crianças é mais importante”, releva.
Ataques
A Ucrânia acusou nesta quarta-feira a Rússia de intensificar suas operações contra a infraestrutura de transporte civil, depois que ataques contra postos de gasolina, o transporte marítimo e ferrovias deixaram ao menos sete mortos.
Ao menos duas pessoas foram mortas em Kiev e outras 41 ficaram feridas em bombardeios que danificaram, entre outros locais, um posto de gasolina, um centro comercial e algumas lojas, segundo as autoridades municipais.
Na região de Odessa, sul da Ucrânia, um ataque russo atingiu um cargueiro com bandeira de Antígua e Barbuda e matou seu capitão, um cidadão ucraniano.
Em Oleksandrivka, na região em Donetsk, no leste — onde se concentram a maior parte dos combates — quatro pessoas foram mortas e outras quatro ficaram feridas em um ataque que atingiu um prédio residencial.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, acusa a Rússia de tentar “paralisar a economia e destruir a vida das pessoas”, mais de quatro anos e meio após o início da invasão russa do país. Durante um encontro com o presidente norte-americano, Donald Trump, em Nova York, na terça‑feira, os dois discutiram “possíveis etapas de desescalada capazes de abrir caminho para a diplomacia”, declarou Zelensky.
O presidente ucraniano discursa nesta quarta-feira na Assembleia Geral da ONU, onde deve reiterar os pedidos de ajuda aos países ocidentais para o fornecimento de melhores sistemas de defesa antiaérea.