A resistência à ditadura que o Movimento significou, à época, enchia nossos corações de estudante daquela coragem juvenil que, com o tempo, nos ensina a jamais ceder e nunca permitir que o espírito de luta se desvaneça.
Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro
O diário Correio do Brasil, jornal que fundei em 2000 e que comemoramos os 26 anos de circulação ininterrupta no dia 1º de Janeiro deste ano, vem prestar nossas últimas homenagens ao jornalista Raimundo Rodrigues Pereira. Sem o seu senso agudo de um editor iluminado, não teria visto meu artigo impresso nas páginas do Jornal Movimento ainda em 1977, quanto completei os 17 anos e já assinava matérias no hebdomadário A Lira, em Resende, Sul do Estado do Rio de Janeiro, onde nasci.

A resistência à ditadura que o Movimento significou, à época, enchia nossos corações de estudante daquela coragem juvenil que, com o tempo, ensina-nos a jamais ceder e nunca permitir que o espírito de luta se desvaneça diante quaisquer que sejam as intempéries e os obstáculos levantados contra a razão de nossa existência. Esta é, justamente, o existir de uma fonte perene de inspiração para um país mais justo, igualitário e no qual a solidariedade e o humanismo prevaleçam, contra as hordas fascistas que assolam a Nação.
Raimundo Pereira e o Movimento significam um momento em que o Brasil precisou, e pode contar, com um dos nomes mais significativos e corajosos da Imprensa brasileira, diante a ditadura escancarada, mas que começava a apodrecer.
História
O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira iniciou sua carreira em veículos de prestígio na mídia conservadora, como diário paulistano O Estado de S. Paulo, onde se destacou pelas reportagens precisas e o alcance de suas análises. Raimundo, no entanto, levou seu talento para a imprensa alternativa, a última trincheira na luta contra o poderio militar golpista (1964-1985).
Quando a censura e a repressão assombravam a prática do Jornalismo, Raimundo integrou uma geração que enfrentou os generais com informação, análise crítica e compromisso democrático. Fundou então, em 1975, o Jornal Movimento que, rapidamente, tornou-se um dos pilares da mídia alternativa brasileira.
“Sob sua liderança, o veículo assumiu papel decisivo na denúncia das arbitrariedades do regime e na construção de uma narrativa crítica em defesa da democracia”, descreve a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em sua despedida ao querido associado.
E continua a ABI:
“A ideia surgiu depois de seu rompimento com Fernando Gasparian, dono do jornal Opinião. Raimundo discordava da tentativa de aproximação com o governo Geisel, que prometia uma abertura “lenta, gradual e segura”. Para ele, aquela política não atendia aos interesses populares.
“Mais do que um jornal, Movimento foi também um espaço de articulação política e social, reunindo vozes silenciadas e contribuindo para a formação de uma consciência crítica no país.
“A atuação de Movimento se deu sob intensa repressão. O jornal enfrentava censura prévia, cortes frequentes e dificuldades financeiras. Em muitas edições, os espaços em branco denunciavam a violência do regime contra a liberdade de imprensa.
Legado
“Ainda assim, Raimundo manteve uma linha editorial firme, apostando no jornalismo como ferramenta de transformação social. Sua trajetória foi marcada pela disciplina, pelo compromisso com os fatos e por uma postura intransigente em defesa da democracia.
“Em uma fase posterior, Raimundo criou o projeto Retratos do Brasil, voltado à interpretação profunda da realidade nacional, reunindo reportagens extensas e análises estruturais do país.
“Raimundo Rodrigues Pereira deixa uma obra que ultrapassa sua produção individual. Sua trajetória se confunde com a história da resistência democrática no Brasil”, conclui a ABI.
Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Jornal Correio do Brasil.