Até em Santa Catarina, um dos Estados mais bolsonaristas da Federação, com média de 70% dos votos favoráveis à extrema direita nas três últimas eleições presidenciais, já surgem sinais, ainda que subjetivos, de um possível descolamento político da família Bolsonaro, sem que isso represente afastamento das pautas conservadoras.
Da Redação – de Brasília
Nem havia completado uma semana depois de receber quase 60 milhões de votos, o capital político do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), vulgo ’01’, passa por um derretimento mais acelerado do que qualquer analista poderia supor. Levado às urnas por teimosia do pai, o ex-mandatário neofascista Jair Bolsonaro (PL), na qualidade de uma espécie de herdeiro político da ultradireita, o senador abriu mão de liderar o esforço oposicionista ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PL) e fugiu para os Estados Unidos, na terça-feira.

Até em Santa Catarina, um dos Estados mais bolsonaristas da Federação, com média de 70% dos votos favoráveis à extrema direita nas três últimas eleições presidenciais, já surgem sinais, ainda que subjetivos, de um possível descolamento político da família Bolsonaro, sem que isso represente afastamento das pautas conservadoras.
Pacificação
O fato ocorre justamente no Estado que acaba de eleger Carlos Bolsonaro (PL), também conhecido como filho ’02’, para o Senado e Jair Renan (PL-SC) para a Câmara. Reeleito com mais de 68% dos votos, o governador Jorginho Mello (PL) publicou um vídeo nas redes sociais em que destacou a expressiva votação de Flávio no Estado, mas em um tom mais conciliador, em defesa da pacificação nacional e do respeito ao processo democrático.
— Não é hora de aprofundar feridas, mas sim curá-las — ponderou, reiterando seu compromisso com as instituições e o resultado final das urnas.
O que Mello não disse também tem significado político. Embora tenha reafirmado que Santa Catarina tem lado, não endossou a declaração de ’01′ de que seria o verdadeiro presidente eleito, tampouco aderiu às acusações de fraude sem provas. Foi favorável, porém, que eventuais questionamentos sejam esclarecidos.
Autocrítica
Nas entrelinhas, o governador sinaliza uma atuação mais institucional, sem acompanhar a contestação eleitoral apresentada por Flávio. Não anunciou qualquer rompimento com a família Bolsonaro, mas a diferença de tom, mesmo sutil, está posta.
Outro sinal veio da deputada estadual Ana Campagnolo (PL), reeleita com 387.523 votos, a maior votação da história da Assembleia Legislativa catarinense. Em vídeo publicado nas redes sociais, cobrou uma autocrítica da direita, questionou a concentração de esforços nas eleições presidenciais e defendeu o fortalecimento de lideranças nos municípios.
A parlamentar também criticou a dependência de discursos de indignação nas redes sociais e defendeu maior organização política e resultados concretos. A manifestação ganha significado adicional porque Ana já havia entrado em atrito com integrantes da família Bolsonaro durante a disputa pelas vagas ao Senado em Santa Catarina.