Rio de Janeiro, 29 de Outubro de 2026

Bolsonarismo derrotado precisa ser isolado nas ruas, redes e política

Por Marcos Verlaine – Vitória histórica de Lula e a mobilização popular contra a extrema direita abrem caminho para uma nova maioria democrática e para o...

Quinta, 29 de Outubro de 2026 às 14:23, por: CdB

Vitória histórica de Lula e a mobilização popular contra a extrema direita abrem caminho para uma nova maioria democrática e para o enfraquecimento do bolsonarismo.

Por Marcos Verlaine – de Brasília

A vitória estupenda e histórica de Lula (PT), conquistada de virada, não pode ser tratada apenas como vitória meramente eleitoral. É oportunidade política ímpar para reorganizar o campo democrático e popular, ampliar a influência na sociedade e impor derrota duradoura ao bolsonarismo, o fascismo brasileiro.

A vitória estupenda e histórica de Lula (PT), conquistada de virada, não pode ser tratada apenas como vitória meramente eleitoral

O desafio agora é transformar a força demonstrada nas urnas, nas ruas e nas redes em nova correlação de forças no país.

A fuga de Flávio Bolsonaro (PL), para os Estados Unidos, em meio às turbulências políticas que cercam ele e a família, contrasta com a mobilização de milhões de brasileiros que foram às ruas, ocuparam as redes e se empenharam para impedir a vitória do extremismo de direita.

A imagem do senador deixando o País, como quem foge das consequências de derrota acachapante, expõe a distância entre a disposição de luta de seus adversários e a postura da família dele que fez da confrontação permanente marca política. A fuga na calada da noite, por si só, não prova qualquer irregularidade, mas o contraste político é evidente e incontornável.

O resultado eleitoral demonstrou que o bolsonarismo não é invencível. Ao contrário. Tampouco representa a maioria da sociedade brasileira. Embora conserve base social e eleitoral aguerrida, capacidade de mobilização e influência em setores religiosos, empresariais e das forças de segurança, o movimento está longe de expressar o conjunto do país.

A perspectiva de circunscrever sua influência ao núcleo de 15% a 20% do eleitorado — que é o que originalmente representam — é objetivo político possível, mas não dado, como comprovado nesta eleição. Para alcançá-lo, será necessário disputar os milhões de brasileiros que não se identificam com a extrema direita, mas também não aderem automaticamente ao campo progressista, em particular, o de esquerda.

Ruas

As mobilizações em defesa da democracia foram decisivas para dar dimensão política à disputa. Não se tratou apenas de pedir votos para Lula, mas de defender direitos, soberania nacional, liberdade e respeito à vontade popular.

Trabalhadores, sindicalistas, estudantes, artistas, intelectuais e militantes de diferentes gerações compreenderam que a eleição ultrapassava a escolha de governo: estava em jogo o espaço democrático conquistado após décadas de luta. Não cabe mais retrocessos antidemocráticos.

Essa energia não pode desaparecer com o encerramento das urnas. É preciso mantê-la viva por meio de organizações populares, sindicatos, movimentos sociais, entidades estudantis e frentes democráticas. A mobilização episódica, concentrada no calendário eleitoral, não basta para enfrentar essa corrente política que atua permanentemente nas instituições, nas igrejas, nos meios empresariais e nas plataformas digitais.

A nova conformação política deve reunir as forças que sustentaram a reeleição de Lula e atrair setores que, embora não sejam de esquerda, rejeitam o autoritarismo, a intolerância e as ameaças às instituições. O isolamento do bolsonarismo não será obtido pela simples repetição de palavras de ordem, mas pela construção de maioria social em torno de objetivos concretos.

As redes

Outro aprendizado fundamental é a necessidade de ocupar as redes digitais com organização, criatividade e continuidade. Durante muito tempo, a extrema direita tratou esses espaços como território próprio, disseminando desinformação, explorando ressentimentos e convertendo pautas reacionárias e tresloucadas em instrumentos de mobilização política.

A reação democrática mostrou que esse domínio pode ser enfrentado. Militantes, comunicadores, influenciadores, artistas, intelectuais e eleitores comuns demonstraram capacidade de produzir conteúdo, rebater mentiras e mobilizar públicos que nem sempre são alcançados pelos meios tradicionais da política.

Mas não basta aparecer nas redes durante a campanha. É necessário construir presença permanente, com linguagem acessível, informação confiável, capacidade de resposta rápida e diálogo com os problemas cotidianos da população. Emprego, salário, moradia, saúde, educação, segurança e custo de vida precisam estar no centro dessa comunicação.

A esquerda também deve abandonar a ilusão de que a correção de suas propostas garante, por si só, apoio popular. A disputa política exige compreender sentimentos, valores, hábitos culturais e novas formas de sociabilidade. Quem não dialoga com a sociedade deixa espaço para que a extrema direita transforme insegurança e frustração em ressentimento contra a democracia e a política.

Disputa social

O bolsonarismo deve ser enfrentado com firmeza política, sem concessões ao golpismo e sem normalização das práticas autoritárias desse perigoso segmento da política brasileira. O bolsonarismo é o fascismo de verde e amarelo. E como tal deve ser combatido com vigor e energia.

Isso não significa restringir direitos ou perseguir adversários. Significa estabelecer fronteira democrática nítida, responsabilizar quem comete crimes, combater a desinformação e impedir que ameaças às instituições sejam tratadas como opiniões políticas ordinárias.

Também exige enfrentar as condições sociais que alimentam a extrema direita. A precarização do trabalho, a insegurança econômica, a desigualdade e a sensação de abandono não serão superadas apenas com denúncias contra Bolsonaro e os aliados dele.

O governo Lula precisa entregar resultados concretos, ampliar direitos, melhorar a renda e demonstrar, na vida cotidiana, que a democracia é capaz de produzir mudanças.

A direita radical prospera quando consegue apresentar os problemas reais da população como prova de que a política democrática fracassou. Por isso, a resposta não pode ser apenas discursiva. É preciso combinar desenvolvimento, distribuição de renda, serviços públicos de qualidade e participação popular.

Há, ainda, obstáculo importante: a composição do Congresso Nacional e a força de setores reacionários nas instituições. A vitória presidencial não elimina essa correlação de forças desfavoráveis. Será necessário construir alianças sem diluir o programa democrático e social, mobilizar a sociedade para sustentar as mudanças e impedir que os interesses de minorias econômicas se imponham sobre a maioria trabalhadora.

Vitória precisa virar força organizada.

A reeleição de Lula abriu janela política excepcional. As ruas demonstraram a capacidade de mobilização, as redes revelaram novas possibilidades de organização e as urnas impuseram derrota ao projeto extremista/fascista. Desperdiçar essa combinação seria erro histórico.

O objetivo não é apenas derrotar eleitoralmente o bolsonarismo a cada 4 anos. É reduzir sua capacidade de pautar o debate público, desarticular sua influência social e impedir que volte a se apresentar como alternativa majoritária de poder. Isso requer ação política permanente, unidade democrática, compromisso com os trabalhadores e disposição para disputar corações e mentes.

O bolsonarismo não será reduzido à corrente minoritária por decreto, nem pela hostilidade aos eleitores que ainda o apoiam. Será necessário conquistar parte deles, neutralizar a influência dos setores mais radicalizados e demonstrar que existe, concretamente, caminho melhor para o País.

A vitória de Lula deve ser o ponto de partida, não a linha de chegada. Se a mobilização popular se transformar em organização duradoura, presença ativa nas redes, conquistas sociais e defesa intransigente da democracia e do Estado de Direito, será possível construir maioria capaz de isolar o extremismo de direita.

O Brasil que derrotou o bolsonarismo nas urnas precisa agora impedir que esse continue sequestrando o debate nacional e ameaçando o futuro democrático do País.

 

Marcos Verlaine, é Jornalista, analista político e assessor parlamentar do Diap.

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