O senador dedica parte substancial do seu tempo a se explicar diante da opinião pública e mesmo dos próprios correligionários sobre suas relações comprometedoras.
Por Luciano Siqueira – de Brasília
Campanhas eleitorais são uma espécie de arena onde gladiadores disputam o pódio com todas as armas disponíveis.

Em princípio, seria o confronto de atributos positivos, de diversas naturezas, que uma vez assimilados pela grande plateia – o eleitorado -, propiciaria a vitória ao melhor dos contendores.
Mas não é bem assim. Ou é, porém numa complexidade em boa parte determinada pelas circunstâncias da luta e pela “bagagem” exibida por cada gladiador.
O presidente Lula disputará o pleito contra mais de um oponente, mas dentre eles, pelos menos por enquanto, o senador Flávio Bolsonaro (PL), dito filho 01 do ex-presidente encarcerado Jair, se destaca.
Um adversário oportuno. Vulnerável, ainda que arrogante e predisposto a toda sorte de manobras distantes anos-luz de qualquer consideração de ordem ética.
Um candidato em ascensão? Longe disso. Desde que reveladas suas relações comprometedoras com o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, o senador dedica parte substancial do seu tempo a se explicar diante da opinião pública e mesmo dos próprios correligionários. O que se reforça agora com a retomada do “tarifaço” de Donald Trump contra a economia brasileira, onde estão nítidas as digitais do bolsonarismo.
Na correspondência enviada por Trump a Lula, são mencionadas supostas fragilidades no combate à corrupção e questionamentos ao sistema PIX para justificar as barreiras protecionistas. Tudo a ver com a retórica enviesada do clã Bolsonaro, tornando justa a alcunha de “Tariflávio” que agonia o senador nas redes sociais.
Num ambiente político minimamente sério e sujeito a normas jurídicas aplicáveis e diante de uma opinião pública atenta e crítica, o candidato bolsonarista raiz já teria desistido ou afastado pelo próprio partido.
Ao contrário, esperneia como pode e aciona o arsenal de comunicação digital pautado pelo conceito de “pós-verdade”, em que a fronteira entre o acontecido e o inventado é tão tênue quanto um fio dental.
Nessas circunstâncias, avulta um paradoxo: o principal candidato da extrema direita, herdeiro direto de minoritário, porém consistente naco do eleitorado de todo o país é também o melhor adversário a ser enfrentado pela ampla coalização democrática e popular liderada pelo presidente Lula.
Antes de tudo porque, em razão das diatribes do senador junto ao governo norte-americano, com o qual se relaciona de forma subserviente, a defesa da soberania nacional avulta como destaque na cena eleitoral, bandeira capaz, a um só tempo, de demarcar campos e elevar o nível de consciência da população.
“Entregas”
Politiza a disputa, para além do confronto entre as chamadas “entregas”, quase sempre referidas a politicas e programas socialmente compensatórios que, embora importantes, não podem nem devem se sobrepor à questão nacional e à defesa da democracia.
O discurso das “entregas” gera gratidão, mas não a consciência política necessária.
Mas quando se relacionam as “entregas” com a soberania nacional e a defesa e o aprimoramento do regime democrático, à gratidão se acrescenta a consciência política que esclarece, organiza e mobiliza.
Sim, o senador bolsonarista raiz é o melhor adversário a enfrentar nas atuais circunstâncias.
Luciano Siqueira, é médico membro do Comitê Central do PCdoB e secretário nacional de Relações Institucionais, Gestão e Políticas Públicas do partido, foi deputado estadual em Pernambuco e vice-prefeito do Recife.
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