Desde a semana passada, ativistas de vários países têm partido do México em embarcações carregadas com alimentos e outros suprimentos destinados à ilha, que enfrenta um bloqueio de petróleo imposto pelos Estados Unidos.
Por Redação, com RFI – da Cidade do México, Havana
A Marinha mexicana buscava, nesta sexta-feira, dois veleiros desaparecidos no Mar do Caribe, com nove pessoas de diversas nacionalidades a bordo, que seguiam rumo a Cuba transportando ajuda humanitária.

Desde a semana passada, ativistas de vários países têm partido do México em embarcações carregadas com alimentos e outros suprimentos destinados à ilha, que enfrenta um bloqueio de petróleo imposto pelos Estados Unidos.
As duas embarcações zarparam de Isla Mujeres, no México, com destino a Havana, em 20 de março, informou o Ministério da Marinha mexicana em comunicado. A previsão era de que chegassem à ilha entre 24 e 25 de março, segundo as autoridades.
Nesta sexta-feira, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, expressou sua “particular preocupação” com o paradeiro das embarcações. “Estamos fazendo todo o possível para buscar e resgatar esses irmãos de armas”, escreveu em mensagem publicada no X.
Até o momento, não foi possível “estabelecer comunicação ou confirmar sua chegada”, informou o Ministério da Marinha mexicana em comunicado divulgado na quinta-feira, data em que o alerta foi emitido.
– Com base na velocidade dos navios informada às autoridades marítimas cubanas, a previsão de chegada a Havana é entre a noite de sexta-feira, 27 de março, e o meio-dia deste sábado – afirmou James Schneider, porta-voz da organização Nuestra América, em Londres, em nota divulgada nesta sexta-feira.
– Os capitães e as tripulações são marinheiros experientes, e ambas as embarcações estão equipadas com sistemas de segurança e dispositivos de sinalização adequados – acrescentou. “Estamos cooperando plenamente com as autoridades e seguimos confiantes na capacidade das tripulações de chegar a Havana em segurança”, declarou.
Segundo uma equipe da agência francesa de notícias Agence France-Presse (AFP) a bordo de outra embarcação que conseguiu chegar ao porto sem incidentes, ventos fortes e correntes marítimas dificultaram a travessia.
A Marinha informou que mantém contato “com as missões diplomáticas dos países de origem das pessoas a bordo” para cooperar e trocar informações. As buscas contam com o apoio de aeronaves, segundo a corporação, que também apelou à comunidade marítima civil e comercial do Caribe e do Golfo do México para que reporte “sem demora” qualquer informação ou avistamento dos veleiros desaparecidos.
O primeiro navio da flotilha de ajuda humanitária chegou a Cuba na terça-feira, transportando “mais de 20 toneladas” de alimentos, medicamentos e painéis solares, segundo os organizadores. O barco de pesca de camarão Maguro, simbolicamente rebatizado de “Granma 2.0” — em referência ao navio usado por Fidel Castro em 1956 para desembarcar na ilha e iniciar a Revolução Cubana — atracou em Havana com três dias de atraso, após enfrentar fortes ventos e correntes durante a viagem desde o México.
Crise agravada
A ilha, com 9,6 milhões de habitantes, atravessa uma grave crise econômica e energética. Esta última se intensificou após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelas forças americanas, em janeiro, e a interrupção abrupta das entregas de petróleo de Caracas — principal fornecedora de combustível de Cuba nos últimos 25 anos. Somente em 2025, Caracas enviou a Havana quase 30 mil barris de petróleo por dia.
Imagens mostram estradas às escuras, veículos parados e serviços interrompidos. “A falta de combustível tem um impacto muito concreto na saúde, por exemplo. Os hospitais não têm eletricidade”, explica Étienne Labande, coordenador residente interino da ONU em Cuba.
– Em relação à segurança alimentar, cerca de 80% da produção agrícola depende de combustível para funcionar — para o plantio, o trabalho na terra, os sistemas de irrigação — tudo exige eletricidade ou combustível diretamente. E há também toda a questão do transporte de mercadorias, especialmente alimentos. Sem combustível, elas não circulam normalmente. Ou seja, um local produz alimentos, mas eles não chegam aos mercados – detalha.
A ONU está em negociações com Washington para implementar um plano de ação em resposta à crise energética e viabilizar a importação de combustível destinado aos serviços humanitários essenciais na ilha.
– Estamos falando de um volume entre quatro e cinco milhões de litros de diesel até o fim do ano, que é o prazo do plano de ação para sustentar a resposta. Sem combustível, não podemos fazer nada. A chave para toda a resposta agora depende da disponibilidade de combustível. Se conseguirmos importar e utilizá-lo na operação, conseguiremos atender a população. Sem isso, a operação fica paralisada — ou pelo menos muito lenta e complexa – enfatiza Labande.
Um dos problemas mais graves é o colapso do sistema de saúde, alertou a OMS esta semana. Os hospitais cubanos têm enfrentado dificuldades para manter os serviços de emergência e terapia intensiva, adiando cirurgias e o atendimento a gestantes.