Substituição do programa ‘Rede Cegonha’ pela ‘Rede Materna e Infantil’ (Rami) e a apresentação da nova ‘Caderneta da Gestante’ representam retrocesso das políticas integrais de atenção à mulher. A gestante precisa ser vista de forma integral, com acompanhamento de uma equipe multiprofissional.
Por Alexandre Padilha - de São Paulo
Há mudanças radicais no modo de enxergar a mulher e cuidar da saúde materna no governo Bolsonaro. A substituição do programa ‘Rede Cegonha’ pela ‘Rede Materna e Infantil’ (Rami) e a apresentação da nova ‘Caderneta da Gestante’ representam o retrocesso das políticas integrais de atenção à saúde da mulher e gestante, onde o papel do acompanhamento dessa mulher por uma equipe multiprofissional é ignorado e práticas comprovadamente não eficazes são incentivadas.Rede Cegonha
A Rede Cegonha inaugurou, com recursos permanentes do Ministério da Saúde, os Centros de Parto Normal, equipamentos próximos ou dentro de maternidades onde a grande maioria dos partos – que não sejam de risco, vão evoluir para partos normais e que são conduzidos por enfermeiras obstetrizes, obstetrizes e doulas, enfrentando a indústria das cesarianas no Brasil. A Rami não incentiva os centros e ignora o papel desses profissionais no parto. A nova ‘Caderneta da Gestante’ é mais uma pérola do terraplanismo sanitário. Volta a defender a amamentação como método anticoncepcional, comprovado mais do que já evidente não ser um método adequado e que coloca em risco novas gestações em intervalos curtos, e é uma das variáveis que contribuem para a vulnerabilidade na primeira infância, passa pano pra farra da cesarianas e episiotomia, não recomendada pela Organização Mundial da Saúde desde 2018, além de sustentar a defesa de manobras que significam riscos gravíssimos às mulheres, como a manobra de Kristeller, prática de empurrar e forçar a barriga com a justificativa de facilitar o parto. O cuidado à saúde integral da mulher, da gestante e criança, necessariamente, exige articulação regional, com serviços de referência, seja nos equipamentos de Atenção Básica a maternidades de alto risco. Para isso, é necessário que a política de atenção esteja pactuada com estados e municípios. A política apresentada pelo governo Bolsonaro simplesmente impõe o uso de práticas ultrapassadas e que desrespeitam a mulher e não foram construídas com a sociedade. Entrei com ações na Câmara dos Deputados para sustar a nova ‘Rede Materna e Infantil’ e no Tribunal de Contas da União para que a 6ª edição da ‘Caderneta da Gestante’ seja investigada por incentivar práticas de violência obstétrica e diretrizes não comprovadamente eficazes. É inconcebível que o poder público recomende, oriente e financie práticas de caráter duvidoso e sem respaldo científico.Alexandre Padilha, é médico, professor universitário e deputado federal (PT-SP). Foi ministro da Coordenação Política de Lula e da Saúde de Dilma e secretário de Saúde na gestão Fernando Haddad na cidade de São Paulo.
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