Os números indicam que a tentativa de usar pressões econômicas externas contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode estar produzindo um efeito político contrário ao pretendido.
Por Redação – de São Paulo
O ‘tarifaço’ decretado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, teve a participação direta da família Bolsonaro, principalmente, o agora candidato à Presidência da República conhecido como filho ’01’. Para a maioria dos brasileiros, as alíquotas abusivas determinadas por Washington contra produtos brasileiros têm como objetivo favorecer a candidatura de ultradireita.

De acordo com pesquisa do Instituto DataFolha, divulgada nesta segunda-feira pelo diário conservador paulistano Folha de S.Paulo, 52% dos entrevistados acreditam que as medidas comerciais adotadas por Washington apoiam o senador na disputa ao Palácio do Planalto. Outros 37% rejeitam essa interpretação, e 11% não souberam responder.
Os números indicam que a tentativa de usar pressões econômicas externas contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode estar produzindo um efeito político contrário ao pretendido. Em vez de atingir apenas o governo brasileiro, o tarifaço passou a ser associado por parte expressiva da população à relação política e ideológica da família Bolsonaro com Trump.
Campanha
De acordo com o levantamento, a percepção de interferência política ocorre em um contexto no qual a família Bolsonaro mantém relações estreitas com Trump e com integrantes do movimento de extrema-direita internacional.
O presidente norte-americano sempre foi apresentado como referência política por Jair Bolsonaro e seus filhos. Essa proximidade passou a pesar sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro à medida que o governo dos Estados Unidos adotou medidas capazes de prejudicar empresas, trabalhadores e exportadores brasileiros.
No primeiro semestre da campanha, Flávio tentou se desvincular do tarifaço. O senador participou de uma audiência nos Estados Unidos e enviou uma carta ao governo norte-americano, argumentando que as sobretaxas poderiam beneficiar eleitoralmente o presidente Lula. A estratégia, porém, não conseguiu impedir que seu nome fosse associado às medidas de Trump.
Sanções
Nas redes sociais, críticos passaram a utilizar a expressão ‘Tariflávio’ para relacionar diretamente o candidato da extrema-direita às sanções comerciais impostas ao Brasil. A pesquisa eleitoral mais recente do DataFolha também mostra o presidente Lula à frente de Flávio Bolsonaro tanto no primeiro quanto no segundo turno.
No principal cenário de primeiro turno, Lula aparece com 40% das intenções de voto, contra 32% de Flávio. Em uma eventual disputa direta, o presidente venceria por 48% a 43%. Os números indicam que, apesar da ofensiva comercial do governo Trump e da tentativa de atribuir ao governo brasileiro a responsabilidade pela crise, Lula preserva uma vantagem relevante sobre o candidato bolsonarista.
A defesa da soberania nacional passou a ocupar um espaço central no discurso do presidente. Lula sustenta que o Brasil deve negociar com os Estados Unidos, mas não aceitar pressões destinadas a interferir nas decisões políticas, econômicas e institucionais do país.
Negociação
O levantamento mostra que 74% dos brasileiros defendem a negociação como caminho para resolver a crise com os Estados Unidos. Apenas 17% apoiam uma retaliação produto por produto, enquanto 2% afirmam que o Brasil deveria simplesmente aceitar o tarifaço.
A preferência pelo diálogo coincide com a posição defendida pelo governo Lula. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, descartou uma reação automática e afirmou que o Brasil busca uma solução negociada, sem abrir mão da defesa de seus interesses.
A pesquisa ouviu 2.004 eleitores com 16 anos ou mais nos dias 22 e 23 de julho. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e o levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).