Rio de Janeiro, 20 de Janeiro de 2026

O Trump pode provocar uma guerra mundial

Por Dalton Rosado - Sob a tutela de Trump e de seus assessores mais influentes (alguns bem ideológicos e conscientes do que querem), flertam com a ideia de guerra mundial,

Terça, 20 de Janeiro de 2026 às 19:38, por: Rui Martins

“A dívida pública e privada pode desencadear
uma crise mundial: em 2026 ainda vai dar
pra segurar, mas depois disso vai ser
difícil…” (José Kobori, economista)
As eleições de 2026, nos EUA, já mobilizam partidos políticos de todos os espectros ideológicos mas com a mesma proposta, a de administrar as finanças públicas para o cargo executivo da União, Estados e escolha de parlamentares para os cargos legislativos.

Por Dalton Rosado, advogado, colaborador do blog  Náufrago da Utopia.
O Trump pode provocar uma guerra mundial | A impressão é a de que os EUA são governados por um louco.
A impressão é a de que os EUA são governados por um louco.

Só há uma certeza: qualquer que seja o resultado da eleição e perfil ideológico do vencedor eleito para o cargo executivo da União Federal, ele vai administrar a falência estatal e tentar minimizá-la diante da crise do capitalismo internacional e seus reflexos no capitalismo nacional.

Quanto ao parlamento, de maioria conservadora desde o Império, sempre ligada ao capital e elites retrógradas, e agora piorada com a infiltração de parlamentares ligados ao crime organizado, as leis propostas e votadas convergirão para medidas suicidas tomadas em nome da salvação do capitalismo, como é o caso da recente lei da devastação, que levará à prática e descriminalização dos crimes ambientais.

O coro dos contentes eleitorais de ambos os lados, aferrados aos interesses particulares de cada vertente ideológica, é indiferente à realidade catastrófica que se avizinha no mundo econômico mas que desconhecem, seja porque consideram assunto para economista resolver, ou seja porque a institucionalidade estatal e suas finanças advindas dos impostos arrecadados das atividades mercantis, capitalistas, devem ser preservadas, posto são elas que financiam suas vidas públicas,
As eleições representam para o povo o momento da barganha que se opera em vários níveis de influência, que como diz a poesia: ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão.

A eleição, portanto, é tida como exercício democrático da vontade popular e agrada a todos que consideram ruim apenas a ditadura que concentra ainda mais o poder, e sem barganha. De fato, a ditadura é o pior dos mundos, porque ela se soma à ditadura do capital formando um conjunto de poder absolutista insuportável, mas sua rejeição não isenta os pecados do mundo burguês dito democrático.

Considera-se que ruim com a democracia burguesa, pior sem ela e por medo do péssimo, se aceita o ruim que se conhece e no qual se pode ter um discurso politicamente correto.

Mas o coro dos contentes tem um problema: o capitalismo.

A falência do capitalismo por seus próprios fundamentos, apesar de todos os bem-intencionados humanistas quererem civilizá-lo e humanizá-lo, contraria o comodismo pequeno burguês e coloca os conformistas e reformistas numa sinuca de bico.

São poucos os economistas que admitem o fim da linha do capitalismo; em geral eles sempre encontram soluções dentro da imanência capitalista como se as crises decorressem de má administração e desvios irresponsáveis e nunca das contradições em processo que agora atingem um patamar de dimensão gigantesca sendo impossível de solucionar o problema sob os parâmetros da forma-valor.

Entrevistado por um site que se pretende independente, o economista e professor de Finanças José Kobori, sobre quem não há a mais remota suspeita de facciosismo de esquerda, pela primeira vez ouvi alguém do campo capitalista admitir a falência dessa forma de relação social que nos últimos 200 anos tomou forma política a lhe dar contornos de sustentação.

Na entrevista ele demonstra alguns dos números macroeconômicos que evidenciam a rota falimentar do capitalismo, tais como o fim da complementaridade econômica entre Estados Unidos e Japão.
Cara de um, focinho de outro.
Como consequência de seus dados econômicos terem credibilidade, o Japão se tornou um país receptáculo mundial de capitais há décadas. Recebia investimentos a juros negativos e comprava títulos dos Estados Unidos, ganhando spread (diferença de ganho financeiro) em tais operação de crédito.

Com isso passou a ser uma referência mundial financeira e detentor de grandes somas dos títulos do Estados Unidos; mas a lua-de-mel chegou ao fim. O Japão passou a ter inflação alta para os seus padrões, de 2,9% ao ano e redução da renda per capita para 1,9% aa.

Com a inflação dos EUA em alta, passou a se livrar dos títulos daquele país, causando um desequilíbrio na questão da liquidez da dívida pública trilionária, e este é apenas um sintoma de um conjunto de fatores explosivos da questão estrutural referente à incapacidade de solvência da dívida pública e privada no sistema financeiro bancário mundial.

O PIB dos Estados Unidos mal se sustentou no ano passado, assim mesmo em níveis baixos, por conta das big techs e seus negócios na área da Inteligência Artificial, que representaram cerca de 92% do PIB positivo.

Ou seja, retirando-se os ganhos das big techs, o PIB estadunidense se reduziria a 0,10%, simultaneamente ao crescimento de sua dívida anual em uns U$ 2 trilhões, que já é de cerca de 130% do PIB, o maior do mundo enquanto país; um descompasso que cada vez mais torna visível o descrédito do dólar como moeda internacional e da própria força do capital dos EUA.
EUA e Japão lutam batalha perdida no front econômico

Afirma Kobori que a valorização e lucros das big techs são ambos irracionais e insustentáveis, tendendo a desaparecer com a concorrência de outras big techs, principalmente da China.

Isto vai acarretar o estouro de uma nova bolha de enorme dimensão. Ele prenuncia que a crise de agora será maior ainda do que a de crise imobiliária 1929/1930 sem que o Estado tenha capacidade de suprir a crise de liquidez a partir da intervenção estatal.

A supervalorização de ativos como ações das bolsas, cujas relações de preços com a capacidade real de geração de lucros do capital de giro das empresas e endividamento destas, tornam irracional e artificial a corrida de valorização fruto da lei da oferta e da procura.

Trata-se, portanto, uma fuga para a frente, evidenciando a falta de consistência desse movimento. Um exemplo disto é o lucro piramidal das criptomoedas num Esquema Ponzi sem sustentação e que levará muita gente à bancarrota na hora da verdade.

Por fim, ele denuncia que os EUA, sob a tutela de Trump e de seus assessores mais influentes (alguns bem ideológicos e conscientes do que querem), flertam com a ideia de guerra mundial, entendendo que o seu maior e mais seguro ativo é o poderio militar que pretendem usar para subjugar a ordem capitalista mundial, dobrando a aposta ao invés de tentar a superação do capitalismo.

Porta-aviões nuclear dos EUA: pirataria se modernizou
Entretanto, o bom analista José Kobori não diz como seria a superação do capitalismo fora da guerra, e eu complemento a sua boa análise anatômica, mas imanente, dizendo que só há uma saída: a superação do sistema produtor de mercadorias.

Sob uma nova forma de relação social abrir-se-ão as portas do progresso solidário sem as amarras do critério da famigerada viabilidade econômica, segundo o qual somente se faz aquilo que gera lucros.

Evitemos a guerra fratricida mundial e salvemos a humanidade do assassino denominado capitalismo.

Dalton Rosado, advogado, escritor e compositor, foi secretário de Finanças da prefeitura de Fortaleza na administração popular de Maria Luiza Fontenele

Direto da Redação é um fórum de debates publicado no jornal Correio do Brasil peo jornalista Rui Martins.

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