Clausewitz certamente diria que ao Irã a resistência não visa necessariamente a uma vitória decisiva no campo de batalha; ela objetiva “exaurir as razões políticas do adversário”.
Por Luciano Siqueira – de Brasília
Conflito de curta duração e ações cirúrgicas, como diz o falastrão Donald Trump e reverbera a mídia ocidental pró-imperialista ou guerra prolongada de consequências ainda imprevisíveis, como sugerem analistas isentos?

Cá com meus modestíssimos botões, penso que o conflito parece muito mais complexo do que gostariam os agressores EUA-Israel.
E me traz à mente o estudioso da guerra clássica Carl von Clausewitz, a cuja obra fui apresentado pelo inesquecível camarada Haroldo Lima — dirigente do PCdoB falecido na pandemia de Covid-19—, ao tempo de nossa militância clandestina na resistência à ditadura militar.
“Ler Clausewitz é indispensável”, dizia Haroldo. E discorria sobre o assunto com o entusiasmo de quem imaginava que derrotaríamos a ditadura militar pela força das armas.
Agora, com saudade do velho e querido camarada, manuseio o exemplar “Da guerra” (Carl von Clausewitz, Editora Martins Fontes, 1996), da biblioteca daqui de casa, e revejo passagens sublinhadas. Sem nenhuma pretensão, é óbvio, de analisar o que se passa no Oriente Médio com base na obra do estudioso belga, pois me falta competência e os tempos são outros.
Donald Trump
Mas imagino o general prussiano do século XIX diante das estripulias de Donald Trump e sua pretendida “guerra cirúrgica”, sustentada em aparato bélico ultramoderno, reafirmando que a essência da guerra permanece a mesma: um ato de violência destinado a forçar o adversário a se submeter aos ditames do agressor.
No caso, o conflito entre uma potência imperialista sem limites no uso da força e um país médio, de cultura milenar, que há três décadas vinha se preparando para este embate e se apoia no chamado “ódio primordial”, no dizer de Clausewitz, para resistir por etapas, multiplicando frentes de combate de modo a tornar o conflito “regional” e, assim, mais complexo e duradouro. Isto sem almejar uma vitória decisiva a curto prazo, mas usando como “eixo de resistência” a persistente mobilização de suas forças armadas e do povo e das milícias aliadas, no intuito de exaurir a vontade política do inimigo.
Clausewitz certamente diria que ao Irã a resistência não visa necessariamente a uma vitória decisiva no campo de batalha; ela objetiva “exaurir as razões políticas do adversário”, neste caso, às voltas com contradições e conflitos de toda ordem, na arena mundial e internamente, onde cresce o desgaste de Trump, surgem divisões em sua base de apoio e caem drasticamente os índices de aprovação do seu governo.
As consequências virão em seguida. Acompanhemos.
Luciano Siqueira, é médico membro do Comitê Central do PCdoB e secretário nacional de Relações Institucionais, Gestão e Políticas Públicas do partido, foi deputado estadual em Pernambuco e vice-prefeito do Recife.
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