Rio de Janeiro, 12 de Setembro de 2026

Naomi Klein descreve, em novo livro, o avanço do fascismo no mundo

Um dos homens tem lágrimas nos olhos enquanto descreve sua beleza. A cena de abertura de 'Fim dos Tempos: Fascismo', escrito em parceria com Astra Taylor, não é uma metáfora.

Sábado, 12 de Setembro de 2026 às 17:20, por: CdB

Um dos homens tem lágrimas nos olhos enquanto descreve sua beleza. A cena de abertura de ‘Fim dos Tempos: Fascismo’, escrito em parceria com Astra Taylor, não é uma metáfora.

Por Redação, com The Guardian – de Londres

O novo livro da jornalista e escritora canadense Naomi Klein começa no topo de uma montanha com dois “homens fiéis reunindo uma plateia para compartilhar sua visão”. É a visão de uma cidade paradisíaca, com portões em todas as entradas, onde não há necessidade de armas e todos os seus habitantes são ricos.

Naomi Klein
A jornalista e escritora Naomi Klein observa o crescimento do fascismo na sociedade mundial

Um dos homens tem lágrimas nos olhos enquanto descreve sua beleza. A cena de abertura de ‘Fim dos Tempos: Fascismo’, escrito em parceria com Astra Taylor, não é uma metáfora. Os homens são Jared Kushner e Steve Witkoff. O ano é 2026, a montanha é Davos.

— A cidade paradisíaca se chamará Nova Gaza — descreve a jornalista Zoe Williams, na entrevista exclusiva à jornalista Zoe Williams publicada neste sábado, no diário britânico ‘The Guardian’.

Vala comum

O encontro do Fórum Econômico Mundial em Davos , na Suíça, sempre teve um duplo propósito: fornecer uma plataforma para os super-ricos descreverem todo o bem que estão fazendo no combate à pobreza e às mudanças climáticas, e nos dar uma amostra de suas vidas invejáveis. Este ano, o que testemunhamos foi, de forma bastante descarada, os homens mais ricos do mundo reunidos para discutir as possibilidades imobiliárias de uma vala comum.

Naquele mesmo evento em Davos, Donald Trump anunciou seu ‘Conselho de Paz’ para a reconstrução de Gaza – que não apresentou resultados substanciais nos sete meses seguintes, mas, mais importante, diz Klein, “estamos sendo atingidos por tantos eventos extraordinários que é difícil compreender a importância disso: eles anunciaram uma Organização das Nações Unidas privatizada”.

— Acho que entendemos que a riqueza se multiplica, certo? Certamente, os ricos entendem isso. Mas não acho que dediquemos muito tempo a refletir sobre as implicações do que significa tanta riqueza se multiplicar e o que isso causa psicologicamente. Parte dessa nova falta de vergonha que estamos vendo é justamente o que acontece quando essa quantidade de poder financeiro, midiático, tecnológico e militar se concentra nas mãos de um grupo muito pequeno e irresponsável de pessoas. Elas param de tentar nos seduzir de alguma forma — continua Klein, em seu escritório tranquilo e espaçoso na Colúmbia Britânica.

Neoliberalismo

“Klein parece calma e curiosa ao transmitir essa mensagem. Ela ri com facilidade. Mas, aliás, ela tinha a mesma serenidade e vivacidade quando a entrevistei no palco em Manchester para o lançamento de ‘Doppelgänger’, seu livro de 2023, no qual descreve como o mundo digital está destruindo nossa conexão com a realidade e uns com os outros. Em 1999, quando seu trabalho inovador, No Logo, foi publicado, ela parecia incrivelmente convicta, aos 29 anos, de que o neoliberalismo estava causando danos cuja extensão ainda nem conseguíamos perceber, e, mesmo assim, aparentava estar centrada e feliz no mundo. De alguma forma, ela consegue manter essa atitude, mesmo que as notícias que transmite sejam sempre tão convincentemente, inacreditavelmente ruins”, escreve Williams.

O fascismo do fim dos tempos, segundo a escritora, descreve o mundo em que vivemos, onde os componentes do autoritarismo estão presentes em todos os lugares: a economia anarco-libertária na Argentina; a destruição da liberdade de imprensa na Rússia; a erosão das instituições democráticas na Hungria (até a deposição de Viktor Orbán); “o “neofascismo anti-imigração” na Itália; a instrumentalização da identidade trans por Jair Bolsonaro, no Brasil; a islamofobia na Índia de Modi”, acrescenta.

“Mas este é um fascismo diferente. Seus defensores desejam ativamente um apocalipse, ou uma onda de apocalipses interconectados provocados pelas mudanças climáticas e pelo caos financeiro, para nos conduzir rapidamente a um mundo pós-democrático no qual apenas alguns ricos sobreviverão para prosperar. Essas são tendências que venho acompanhando há muito tempo, o enclave privatizado nascido do choque, do desastre, que observei quando fazia reportagens no Iraque”, pontua Williams.

— Este livro começou como um artigo no The Guardian , que viralizou completamente. Astra e eu sabíamos que havia muito mais apuração a fazer, mas, em um nível pessoal, queríamos passar o próximo ano imersos na mente dessas pessoas, nessas culturas? Então Astra disse: ‘Já estou mergulhada nisso, vou ouvir essas pessoas de qualquer maneira. Então, é melhor sentir que estou fazendo algo a respeito.’ Essa é a razão pela qual este é o primeiro livro que escrevi em parceria. Quando você vai a lugares sombrios e assustadores, é bom levar um amigo.” Astra Taylor também é escritora, ativista e documentarista, e fundou o Debt Collective , um experimento fascinante na construção de uma solidariedade estruturada e quase sindicalizada em torno da dívida pessoal, com os objetivos de longo prazo de abolir as taxas de matrícula estudantil, nacionalizar a saúde e fortalecer o poder dos inquilinos — relata Klein.

 

Paraíso

Klein e Taylor apresentam os leitores aos fundamentalistas religiosos, sionistas cristãos e nacionalistas cristãos nos EUA, que se preparam para a segunda vinda de Cristo. Descrevendo um “estado entrincheirado”, os autores conectam desastres relacionados ao clima, um exército permanente anti-imigração fanático na forma do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) e uma política construída sobre falsas promessas e desinformação para retratar uma sociedade febril e dividida que não sabe em que acreditar. Mas a parte verdadeiramente aterradora é a seção de transição, sobre os bilionários da tecnologia. “Os super-ricos têm suas próprias fantasias apocalípticas, construídas não na fé ou ideologia, mas em uma avaliação calma e racional de como melhor manter sua posição; eles prefeririam reinar no inferno a compartilhar do paraíso. E eles têm todo o dinheiro para garantir que cheguem lá”, acrescenta a entrevistadora.

— São tendências que venho acompanhando há muito tempo. O enclave privatizado nascido do choque, do desastre, eu vi quando fazia reportagens no Iraque. Há a imagem da Zona Verde, essa Cidade Esmeralda administrada pelos EUA no meio de Bagdá, construída pela Halliburton e todas essas empreiteiras privadas, com o poder de nomear um vice-rei. Nas partes finais de ‘A Doutrina do Choque’ (2007), eu falo sobre como essas empreiteiras migraram (do Iraque) para o furacão Katrina, e a ideia de que esses desastres climáticos são sua próxima fronteira de crescimento. Repórteres começaram a chamar Nova Orleans de ‘Bagdá no Bayou‘. A turma toda está aqui, tem a Halliburton, tem a Bechtel, tem a Blackwater — relata.

 

Espiral

Mas, e ela não se cansa de enfatizar isso, por mais útil que seja conhecer o histórico recente dessas tendências, você não deve se confortar com a ideia de já ter visto tudo isso antes.

— A imagem de uma espiral tem sido muito útil para entender o fato de que nossa era é, ao mesmo tempo, familiar e diferente. A questão da espiral é que você gira, mas não vai para o mesmo lugar. Se a espiral aponta para baixo, ela é mais profunda, mais fechada, carrega mais velocidade, mais força, mais calor, mais violência — pontua a escritora.

“A imagem é ao mesmo tempo poética e extremamente sóbria. Ela oferece um breve incentivo moral, como alguém lhe entregando uma fatia de laranja a caminho de uma zona de guerra”, sublinha Williams.

— Você pode inverter uma espiral – ela se expande para fora, é a espiral do universo — conclui a ativista canadense.

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