Reflexão critica defende que partidos de esquerda precisam abandonar análises abstratas e antecipar movimentos do cenário real para agir com estratégia nas eleições.
Por Luciano Siqueira – de Brasília
Já registrei noutra oportunidade o conceito emitido por Tostão (Eduardo Gonçalves de Andrade), médico e colunista esportivo do diário conservador paulistano Folha de S. Paulo, destacado integrante da seleção brasileira campeã mundial em 1970:

— “O grande jogador tem a capacidade de inventar o momento. E tem a antevisão do lance: quando recebe a bola, ele já sabe tudo o que vai acontecer dali pra frente. Chega sempre primeiro que o outro”.
Tudo a ver com o que dizia Nilton Santos, outra legenda do nosso futebol, que se tornara excelente marcador de Pelé, desde que, em final de carreira, deixara a lateral esquerda e se convertera em quarto zagueiro:
— “Eu me antecipo. Dou combate antes do ‘negão’ pegar a bola, pois se ele a domina não há quem o impeça de fazer uma jogada genial.”
É como devem proceder dirigentes partidários em relação às eleições gerais deste ano – não apenas em nível nacional, mas igualmente em plano estadual.
É preciso se antecipar ao desenrolar dos acontecimentos.
Mas o voluntarismo e a superficialidade na abordagem do ambiente pré-eleitoral frequentemente é o que predomina.
Então, no caso específico do PCdoB, uma Comissão Política (instância de controle e de decisão do Comitê Estadual, quando não em reunião plenária), realiza bom debate a propósito das tendências conjunturais no mundo e no Brasil, mas carente de uma abordagem precisa do ambiente econômico e social local.
É o distanciamento da realidade concreta e uma boa dose de subjetivismo e improvisação na compreensão da vida real.
Chapa majoritária
A montagem da chapa majoritária, por exemplo. Que interesses de classe representam candidaturas ao governo estadual, idem os postulantes ao Senado, por exemplo. Como é possível influenciá-los com proposições mais avançadas? Como tais candidaturas dialogam com o projeto nacional que dá conteúdo à frente ampla liderada por Lula?
Desse modo, ainda lembrando Tostão e Nilton Santos, os fatos comandam as atitudes, sem que as direções estaduais exercitem a capacidade de a eles se anteciparem.
E se intervém na peleja eleitoral a reboque dos acontecimentos, comprometendo em boa parte o poder de fogo de corrente política potencialmente capaz de “ler” a evolução dos acontecimentos e, assim, potencializar iniciativas e superar em boa medida suas limitações orgânicas e materiais.
Tudo a ver como o distanciamento da realidade viva na qual se desenrola a cena política, que hoje acomete partidos de esquerda no Brasil, mais afeitos a proclamações gerais do que à inserção real na vida e na luta das massas trabalhadores e demais camadas populares.
Nesse contexto, vale a consigna “menos proclamações gerais, mais apego à realidade dos fatos”.
Luciano Siqueira, é médico membro do Comitê Central do PCdoB e secretário nacional de Relações Institucionais, Gestão e Políticas Públicas do partido, foi deputado estadual em Pernambuco e vice-prefeito do Recife.
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