Rio de Janeiro, 16 de Julho de 2026

Neymar e a polarização política

Por Alexandre Freitas Campos – Quando a política vira o principal agrupador de uma opinião, vale a pena ligar um alerta vermelho e ficar atento.

Quinta, 16 de Julho de 2026 às 09:21, por: CdB

Quando a política vira o principal agrupador de uma opinião, vale a pena ligar um alerta vermelho e ficar atento.

Por Alexandre Freitas Campos – do Rio de Janeiro

Neymar é um jogador que não deu muita sorte na seleção brasileira. Enquanto Ronaldo teve ao seu lado Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Kaká; Romário teve Bebeto; Zico teve Sócrates, Júnior e Falcão; e Pelé teve tantos craques ao seu lado que nem precisamos citar para o texto não ficar pesado; o Neymar jogou quatro Copas (2014, 2018, 2022 e 2026) com nomes como Fred, Gabriel Jesus e Everton Cebolinha. Bons jogadores, mas que sempre estiveram em patamares bem abaixo do próprio Neymar, que é o maior artilheiro da história da seleção, o terceiro maior em Copas do Mundo.

Neymar Jr

Quem se propõe a fazer um retrospecto da trajetória de Neymar na seleção brasileira precisa ser mais abrangente e honesto, levando em conta toda a safra de jogadores que estiveram ao seu lado nas últimas copas. Se isso for feito, acredito que a constatação seja a de que Neymar não foi parte do problema, mas da solução. Quando falamos em Era Neymar, estamos nos referindo a quais craques além dele próprio? É até difícil elencar, de tão isolado que Neymar ficou em um patamar bem acima dos outros.

Por conta da frustração acumulada, batem no jogador errado pelos motivos errados. Claro que Neymar tem muitos defeitos. É um cai-cai, vive lesionado, apoia bets (não é o único) etc. Mas grande parte das críticas ao Neymar são por razões extracampo: por causa de política e por sua postura pessoal. E isso é um problema.  

Uma pesquisa da Genial em parceria com a Quaest [1] na ocasião da convocação apontou que entre eleitores que se identificam como direita não bolsonarista, 58% defenderam a convocação de Neymar, enquanto 34% eram contrários. O grupo apresenta o maior nível de apoio ao jogador. Já entre os que se dizem de esquerda não lulista, a maioria rejeitou a convocação do atacante na seleção. Nesse segmento, a taxa de oposição superava a de apoio, indicando cenário inverso ao observado na direita.

Entre eleitores lulistas, os números também indicavam rejeição. Segundo o levantamento, 50% eram contrários à convocação de Neymar, enquanto 45% apoiavam a presença do jogador. No grupo de bolsonaristas, o cenário era diferente. A pesquisa apontava 57% favoráveis à convocação, contra 36% contrários, indicando maioria pró-Neymar entre esses eleitores.

Os dados mostram que o debate sobre Neymar na seleção acompanha divisões políticas do país. Pesquisas de análise de conteúdo, perfis e palavras nas redes conseguem mensurar facilmente a influência política nessa e outras discussões. Outra pesquisa, esta durante a Copa, realizada pelo Instituto Democracia em Xeque, também mapeou que debates sobre a figura de Neymar nas redes sociais têm mais viés político do que esportivo [2].

Enquanto a direita associava Neymar ao bolsonarismo e criticava Lula “por falta de apoio ao ídolo do futebol brasileiro”, perfis à esquerda criticaram o jogador “pelo individualismo excessivo em campo, pela atitude arrogante e antidesportiva contra os jogadores noruegueses, por ser mimado e receber tratamento diferenciado e por manter relações com bets”.    

O problema é que quando a política embota demais o nosso juízo, perdemos a capacidade de avaliar as coisas pelo mérito. Seja no futebol, nas artes, na ciência ou o que quer que seja, se a política vira o principal agrupador de uma opinião (sobre algo que não tem tanto a ver com política), alguma coisa está errada. No Brasil, durante a pandemia, os defensores do “tratamento precoce”, que acreditavam na eficácia da cloroquina ou ivermectina, eram basicamente bolsonarista. Nem é preciso dizer que seus critérios não eram científicos.

Por outro lado, quando a bióloga Natalia Pasternak e o jornalista de ciência Carlos Orsi lançaram o livro “Que bobagem!: Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério”, afirmando que a psicanálise seria uma pseudociência – e estavam longe de descobrirem a roda, pois esse é um debate bem antigo – de modo geral, aqueles que criticaram os autores e defenderam a psicanálise eram predominantemente de esquerda. O que talvez se explique pelo peso da psicanálise em uma tradição intelectual e política nesse campo. Novamente, não é preciso dizer que os critérios não eram científicos ou epistemológicos. Se o principal agrupador de uma opinião é o viés político, vale ligar um alerta vermelho e ficar atento.   

Não gosto da figura pessoal que o Neymar repercute na mídia, nem de seu alinhamento político, mas gosto menos ainda de críticas motivadas por política que tentam se disfarçar de críticas técnicas. Sejam essas críticas feitas a atletas, artistas, professores etc. Um exemplo é o tanto de críticas sem nenhum embasamento pedagógico feitas ao Paulo Freire por quem não entende cosa alguma de pedagogia e não é capaz de citar dois pedagogos que considere melhores e o porquê eles seriam melhores.

Anti-Neymar

Endrick, eleito por parte da torcida como um anti-Neymar (parte da torcida principalmente à esquerda) perdeu um gol feito; Bruno Guimarães perdeu um pênalti; o meio-campo brasileiro deu muito espaço para o Odegaard; a zaga brasileira deu bobeira com o Haaland, que é um centroavante implacável e não perdoou. Há muitos problemas e erros para além de Neymar.

A polarização política digital estimula uma birra que ultrapassa a política, preenche todos os espaços da vida cotidiana – inclusive o futebol – e infantiliza as pessoas. É curioso ver, por exemplo, como Youri Djorkaeff, ex-jogador francês, falou sobre Neymar após a eliminação do Brasil para a Noruega [3]. Para ele, naquela partida, “foi o Neymar, aos 34 anos, que não joga há cinco anos, quem ainda criou alguma coisa no fim”. A visão de alguém de fora, distanciado da polarização política brasileira, destoa daqueles que viram no mesmo jogo um Neymar antidesportivo e arrumador de confusão contra os noruegueses. 

A Copa acabou para o Brasil. É hora de renovação. Que venha uma boa safra de jogadores e investimentos na formação de atletas, em vez de um salvador solitário (o que nunca dá certo).

Referências:

[1] Posição política afeta opiniões sobre Neymar na Copa

https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/selecao-brasileira/posicao-politica-afeta-opinioes-sobre-neymar-na-copa-entenda

[2] Política supera futebol no debate sobre Neymar durante a Copa

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/07/politica-supera-futebol-no-debate-sobre-neymar-durante-a-copa-aponta-estudo.shtml

[3] Djorkaeff fala sobre seleção brasileira e Neymar

https://www.instagram.com/p/DalbcvuGmbv?img_index=1

 

Alexandre Freitas Campos, filiado ao PCdoB/RJ, jornalista, assessor de Comunicação em políticas públicas e doutorando em História.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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