Sem vitória militar, Donald Trump aposta agora na asfixia econômica do país rival. Mas esbarra na China.
Por Redação, com CartaCapital – de Teerã
A guerra contra o Irã chega à marca dos seis meses muito distante da promessa inicial de Donald Trump de uma campanha curta e decisiva.

Quando os primeiros ataques norte-americanos e israelenses começaram, em 28 de fevereiro, a Casa Branca prometia neutralizar Teerã em poucas semanas. O regime iraniano, porém, não caiu. Tampouco sucumbiram seu programa nuclear e sua capacidade de retaliação. O tour de force dos Estados Unidos transformou-se, assim, em uma guerra de desgaste militar, econômico e político.
Teerã sofreu perdas pesadas, inclusive a morte do líder supremo Ali Khamenei, e teve parte importante de sua infraestrutura militar atingida. Ainda assim, preservou capacidade suficiente para atacar bases norte-americanas na região e manter o Estreito de Ormuz como um torniquete sobre Washington e a economia mundial. A ameaça à circulação de petróleo pelo Golfo Pérsico, somada à rebeldia dos houthis no Mar Vermelho, transformou uma guerra bilateral em tensão sobre diferentes regiões do Oriente Médio.
Um dos principais objetivos declarados de Trump era impedir que o Irã adquirisse uma arma nuclear, mas, seis meses depois, nem os Estados Unidos sabem exatamente quanto do programa iraniano sobreviveu aos bombardeios. Sem acesso pleno dos inspetores internacionais às instalações nucleares e sem localização confirmada de parte do estoque de urânio enriquecido, permanece aberta justamente a questão que deveria justificar a ofensiva.
Sanções
A dificuldade de obter uma vitória militar levou a Casa Branca a mudar de estratégia. Nesta semana, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou uma nova e ampla ofensiva de sanções para tentar asfixiar financeiramente o regime iraniano. O problema, como observa uma análise recém-publicada no Financial Times, é que Washington esbarra no mesmo dilema apontado por Barack Obama há mais de uma década: pressionar de verdade o Irã exigiria atingir grandes bancos e empresas chinesas, com o risco de desencadear uma retaliação de Pequim e provocar danos à própria economia norte-americana.
A China compra a maior parte do petróleo exportado pelo Irã e dispõe de instrumentos econômicos para responder a sanções norte-americanas, enquanto o uso recorrente do dólar como arma geopolítica alimenta esforços de outros países para reduzir sua dependência do sistema financeiro dos Estados Unidos. A disputa com Teerã, portanto, já não revela apenas os limites do poder militar americano, mas também as dificuldades de Washington para transformar sua supremacia financeira em submissão política de adversários.
Seis meses depois, nenhum dos lados parece capaz de impor um desfecho ao conflito. O Irã está mais enfraquecido e militarizado; os Estados Unidos enfrentam custos crescentes, perda de equipamentos, pressão inflacionária e desgaste político às vésperas das eleições legislativas. O que começou como uma demonstração de força tornou-se uma espécie de teste à própria hegemonia americana — e, quanto mais a guerra se prolonga, mais difícil fica para Trump sustentar a ideia de que ainda controla o rumo dos acontecimentos.