Estação gelada do Leste Europeu se consagrou como aliado histórico de Moscou contra outros exércitos.
Por Redação, com DW – de Moscou, Kiev
Sob pressão militar e diplomática, a Rússia redobra a aposta no frio extremo como arma de guerra contra a Ucrânia . No inverno mais rigoroso em uma década, renovados ataques à infraestrutura energética, tática adotada desde o início do conflito, deixam centenas de milhares de pessoas sem sistemas de aquecimento, eletricidade ou água. As temperaturas chegam à casa dos -20 °C, tornando casas inabitáveis.

Apelidada de “General Inverno” na Rússia, a estação gelada do Leste Europeu se consagrou como aliado histórico de Moscou contra outros exércitos, do napoleônico ao nazista . Hoje, ela é usada pelo presidente Vladimir Putin contra civis em vários cantos da Ucrânia, provocando demandas urgentes e acumulando danos difíceis de rapidamente reparar.
O resultado tem sido uma degradação geral do sistema de energia da Ucrânia, o que resultou em cortes de energia rotativos na maioria das regiões do país, que rotineiramente duram até 18 horas por dia nos últimos meses.
Para Marina Sergienko, uma contadora de 51 anos que na semana passada buscou abrigo numa estação de metrô em Kiev, o objetivo é claro: “Desgastar as pessoas, levar as coisas a um ponto crítico para que não nos reste força e romper com a nossa resistência,” disse ela à agência de notícias AFP. É a mesma interpretação que fazem o governo ucraniano e analistas do conflito.
Na madrugada anterior, um ataque russo deixara 5,6 mil edifícios residenciais sem calefação na capital. Em quase 80% deles, o aquecimento tinha acabado de ser restaurado, depois de um episódio semelhante no início do mês.
Eletricidade
Já em Dnipro, a 500 quilômetros a sudeste de Kiev, geradores zumbiam do lado de fora das lojas no centro da cidade. Lá, os moradores relatam já estarem habituados aos cortes no sistema de energia.
– Este não é o primeiro apagão, e suspeito que não será o último, então estamos trabalhando – afirmou uma barista, que se apresentou à agência inglesa de notícias Reuters como Iryna. O governo ucraniano estimava na semana passada que 1 milhão de pessoas não tivesse eletricidade.
Para Pauline Sophie Heinrichs, professora de Estudos de Guerra Clima e Segurança Energética na King’s College de Londres, a Rússia se beneficia de conhecimento sobre o sistema de energia da Ucrânia, que foi membro da União Soviética (URSS). “Por décadas, o sistema de energia da Ucrânia foi ligado a Rússia e Belarus como parte de uma matriz centralizada,” ela escreveu num artigo para o The Conversation .
Nesta quinta-feira, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que há indícios de que a Rússia prepara uma nova onda de ataques pesados. Ele também criticou a prefeitura de Kiev, comandada por um rival político, por não garantir equipamentos de reserva suficientes antes do inverno.
Destruição
O desmantelamento da infraestrutura energética começara quando, também no inverno, a Rússia conduziu a invasão em larga escala da Ucrânia, há quase quatro anos.
Ao longo de 2022 e 2023, cerca de metade da capacidade de geração de energia foi ocupada pelas forças russas, destruída ou danificada, e aproximadamente metade das grandes subestações da rede foram danificadas por mísseis e drones, segundo relatório da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês).
Um dos maiores golpes para o fornecimento ucraniano foi a ocupação, já nos primeiros dias de guerra, da usina nuclear de Zaporíjia , a maior da Europa e até então responsável por gerar 6 mil megawatts, fornecendo um quarto da eletricidade no país.
Os ataques se intensificariam em 2024. Seriam perdidos já no primeiro semestre mais 9 mil megawatts, sobretudo em ativos térmicos e hidrelétricos. Em agosto, cerca de 8 milhões de casas ficaram no escuro na capital.
Ação premeditada
A ofensiva contra o fornecimento de eletricidade e aquecimento escalaria ainda no fim do ano passado e, sobretudo, a partir deste janeiro, à medida que baixavam os termômetros. Desde outubro, pelo menos 20 regiões foram alvo de ataques.
Já não há “uma única central elétrica na Ucrânia que não tenha sido atingida pelo inimigo desde o início da guerra”, disse ao Parlamento o ministro da Energia ucraniano, Denys Shmyhal, conforme reportou a mídia independente local.
Segundo ele, 612 ataques russos miraram a infraestrutura energética no ano anterior, e o ritmo dos ataques vinha aumentando. “Milhares de megawatts de capacidade de geração foram destruídos.”
Cada ataque enfraquece ainda mais esse sistema, forçando os ucranianos arecorrerem a improvisos e redes de solidariedade para se aquecer. Enquanto isso, trabalhadores do setor de energia operam sob condições extremas ou arriscadas para restaurar a infraestrutura.
– Grandes números de drones e mísseis se concentram em cidades específicas para paralisar as forças de defesa aérea – escreveu Yuliya Kazdobina, pesquisadora do centro de análise não-governamental Prisma Ucraniano, em artigo publicado pelo think tank Atlantic Council .
– O momento em que a campanha de bombardeio russa é realizada não deixa margem para dúvidas razoáveis: trata-se de uma tentativa premeditada de atingir a população ucraniana, instrumentalizando o clima invernal.
Frio
O porta-voz adjunto do governo da Alemanha, Steffen Meyer, descreveu neste mês os ataques contra a infraestrutura energética como “profundamente desumanos e desprezíveis da vida humana”. “Em nossa opinião, a Rússia de Putin está cometendo crimes de guerra.”
Já Zelensky vem acusando o Kremlin de não permitir que a diplomacia liderada pelos Estados Unidos trabalhe em direção a uma resolução para o conflito, que se aproxima do seu quarto aniversário. Os dois lados atualmente negociam um possível acordo de paz .
Para analistas como Kazdobina, o objetivo do governo russo é forçar a Ucrânia a aceitar a paz em seus termos. “Em vez de concordar com um cessar-fogo ou oferecer concessões, Putin usa o terror como ferramenta de negociação para garantir a rendição da Ucrânia,” escreveu ainda a pesquisadora.
À época da ofensiva invernal que deu início à guerra, analistas especularam que o Kremlin esperasse que o frio fosse também contribuir para uma atmosfera mais favorável na União Europeia (UE). A previsão era de que a dependência do gás russo, que aquecia parte das casas europeias, freasse o apoio à Ucrânia.
Mas um inverno ameno, apesar do aumento dos preços da eletricidade, frustrou o provável cálculo de Putin. A UE ganhou tempo para ensaiar a substituição da participação russa no fornecimento de gás, que já caiu de 40% para 13%. Nesta semana, o bloco aprovou uma regra para banir todas as importações de gás russo até 2027.
Pressão econômica
Os ataques russos geram também consequências econômicas para os ucranianos. Em 2024, o governo anunciou que quase dobraria o preço das contas de eletricidade para ajudar a cobrir os custos com os reparos na infraestrutura.
À época, a guerra já impunha pressão tanto sobre os bolsos da população quanto do Estado, uma vez que a importação de energia chegou a níveis recordes. Autoridades citadas pela Reuters calcularam em mais de 1 bilhão de dólares os danos provocados ao setor energético pelos ataques russos.
A UE enviou 10 mil geradores em caráter de emergência, a fim de restaurar serviços essenciais, como hospitais e abrigos, desde o início da guerra. Em preparação para este inverno, o braço Executivo do bloco também realocou uma usina termelétrica doada pela Lituânia.
Por sua vez, a organização francesa Eletricistas Sem Fronteiras instalou cerca de cem sistemas de painéis solares, baterias e geradores em dez regiões, alimentando escolas, hospitais e estações de bombeamento.
ONU
Além de se ver sob pressão dos EUA para assegurar um acordo, a Rússia sofre com o desgaste do seu Exército no campo de batalha . Nesta semana, um estudo do think tank americano Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) estimou em 1,2 milhão o número de militares russos mortos, feridos ou desaparecidos desde fevereiro de 2022.
O Kremlin refuta o cálculo, que ecoa a percepção de outros observadores sobre as baixas russas serem subestimadas por contagens oficiais. Diz, ainda, que só ataca instalações militares ucranianas e culpa Kiev pela continuação da guerra, porque o vizinho se nega a aceitar suas exigências.
– Os civis são os que mais sofrem com esses ataques (à infraestrutura energética). Eles só podem ser descritos como cruéis. Precisam parar – disse neste mês o chefe de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Volker Türk. “Atacar civis e infraestrutura civil é uma clara violação das regras da guerra.”
Mais de 2,5 mil civis foram mortos e mais de 12 mil ficaram feridos em 2025, segundo o Escritório do Alto Comissariado ONU para os Direitos Humanos. As mortes contabilizadas desde 2022 chegaram a 15 mil, mas o total “provavelmente é consideravelmente maior”, segundo a agência.