Organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o evento vai até o próximo sábado e é considerado a maior e mais importante mobilização do movimento no país.
Por Redação, com ABr – de Brasília
Indígenas de todo o país começaram a chegar a Brasília no domingo para participar da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL 2026), no Eixo Cultural Ibero-Americano (antiga Funarte), no Centro da capital federal.

Organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o evento vai até o próximo sábado e é considerado a maior e mais importante mobilização do movimento no país. Segundo os organizadores, entre 7 mil e 8 mil pessoas, entre indígenas e não indígenas, devem participar este ano.
O ATL costuma reunir representantes de grande parte dos 391 povos originários existentes no Brasil, bem como de outras nações, para debater a defesa dos territórios e denunciar as violações aos direitos indígenas. Nos últimos anos, a pauta se ampliou e o evento passou a acolher também a discussões sobre a participação político-eleitoral indígena, a crise climática e a defesa da democracia.
Contudo, o eixo central das discussões segue sendo a necessidade de o Estado brasileiro reconhecer o direito dos povos originários à terra.
– Como todos os anos, estamos aguardando o governo federal anunciar a criação de novas terras indígenas – disse à Agência Brasil o coordenador executivo da Apib, Dinamam Tuxá.
Segundo ele, após um período de quatro anos (2019-2022) no qual nenhuma nova terra indígena foi criada, o governo federal homologou, entre janeiro de 2023 e novembro de 2025, 20 novos territórios. Segundo a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), isso equivale a cerca de 2,5 milhões de hectares de terras protegidas em 11 unidades federativas.
– Mas seguimos nesta luta, nesse pleito pela garantia territorial – acrescentou Dinamam, informando haver cerca de 110 áreas reivindicadas como terras da União de usufruto indígena em análise.
– Temos um passivo de demarcação muito alto e um cenário de muita violência e vulnerabilidade nas terras indígenas que governo algum conseguiu superar. Isso tem sido um fator motivador para os povos indígenas virem a Brasília apresentar nossas pautas – destacou o coordenador da Apib.
Mobilização
O ATL também marca o início do chamado Abril Indígena, mês de mobilização nacional em que o movimento busca chamar a atenção para outras pautas, como a necessidade de mais investimentos em saúde e educação indígena. O tema da atual edição do acampamento é “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”.
– Estamos promovendo um amplo debate sobre diversos temas, como educação, saúde, relações internacionais com os povos indígenas de outros países, enfim, várias políticas públicas – destacou Dinamam, confirmando a realização das tradicionais caminhadas pela Esplanada dos Ministérios.
A primeira marcha está agendada para esta terça-feira, contra propostas de lei que, segundo a Apib, contrariam os interesses dos povos originários, como a liberação da mineração em terras indígenas ou o estabelecimento do chamado marco temporal – tese jurídica segundo a qual os indígenas só têm direito aos territórios que ocupavam em outubro de 1988, quando a Constituição Federal foi promulgada.
As eleições de 2026 também vão pautar alguns dos principais debates do Acampamento Terra Livre, como o que ocorrerá na quinta-feira, na mesa “Campanha Indígena: a resposta para transformar a política somos nós” – título do manifesto que a Apib publicou no ano passado, reafirmando o compromisso de seguir com o projeto de aldeamento da política, lançado há alguns anos.
– Vamos lançar o Campanha Indígena, uma iniciativa para dar um direcionamento às candidaturas lançadas por uma frente de partidos aliados ao movimento indígena. Vamos orientar os indígenas interessados para que se somem a esses partidos que têm defendido nossos direitos. E, durante todo o ano, vamos promover ações para alavancar estas candidaturas indígenas a fim de garantir a maior representação [indígena] no Congresso Nacional –antecipou Dinamam.
Participação
Cotinha de Sousa Guajajara deixou a Terra Indígena Morro Branco, em Grajaú (MA), junto com outros 67 indígenas da etnia Guajajara. O grupo percorreu cerca de 1,4 mil quilômetros a bordo de dois ônibus para chegar a Brasília ainda no último sábado. No domingo, Cotinha já estava instalada dentro da área cercada destinada ao evento, ajudando as companheiras de viagem a expor o artesanato que muitos indígenas trazem para vender durante o ATL.
– Viemos mais cedo. Teve boatos de que não ia ter [acampamento], mas, assim que as lideranças resolveram que ia acontecer, nós decidimos vir – explicou Cotinha.
– Nossa expectativa é que áreas sejam demarcadas, homologadas ou ampliadas, principalmente no Maranhão. Isso é muito necessário. Nossa comunidade mesmo vive em área já homologada, mas a população aumentou e a área já não é suficiente – comentou a maranhense.
Morando na capital federal desde janeiro, onde faz mestrado em educação na Universidade de Brasília (UnB), Oziel Ticuna compareceu ao acampamento neste domingo para rever amigos e aguardar a chegada dos representantes de sua comunidade, no Rio Alto Solimões, no Amazonas.
– Como ela fica muito distante de Brasília, nós geralmente enviamos entre três e cinco representantes escolhidos entre nossas lideranças – contou Oziel, que já participou de várias outras edições do evento, na condição de comunicador indígena. Oziel resumiu para a reportagem a importância do ATL.
– O acampamento trouxe uma nova forma de nos organizarmos, de trabalharmos coletivamente, com os povos ouvindo uns aos outros e tentando construir soluções para nossos problemas e proteger nossas culturas – acrescentou. “Estaremos aqui para lutar pelo nosso povo.”