Rio de Janeiro, 21 de Maio de 2026

Coletivo Camaradas: construir o afeto como parte da luta política

Explore como o Coletivo Camaradas utiliza o afeto como ferramenta estratégica para a organização e transformação social no Território Criativo do Gesso.

Quinta, 21 de Maio de 2026 às 10:12, por: CdB

Entre vínculos comunitários, escuta popular e práxis marxista, texto defende o afeto como ferramenta estratégica de organização e transformação social.

Por Alexandre Lucas – de São Paulo

O Coletivo Camaradas deve criar as condições para ter, no Território Criativo do Gesso, um laboratório social de organização popular. Para isso, é preciso se vincular, de diversas formas, aos organismos que atuam dentro desse território. O pensamento de um laboratório nos remete à ideia de experienciar, testar, comparar, observar, estudar, compreender processos, nortear a teoria e a prática. Essa dimensão laboratorial pode ser comparada à Guerrilha do Araguaia, uma das maiores experiências de resistência armada contra a ditadura militar no Brasil. A escolha do local, a observação da área, a definição dos pontos de ocupação, o relacionamento com a população, os laços de aproximação e de ajuda mútua, a troca de saberes, o respeito aos seus costumes e a escuta atenta das problemáticas e sonhos da população foram o que possibilitaram o apoio popular e a capacidade de sobrevivência e resistência por tanto tempo.

Coletivo Camaradas: construir o afeto como parte da luta política | O Coletivo Camaradas
O Coletivo Camaradas

A Guerrilha do Araguaia nos traz um vasto campo de ensinamentos, em especial no tocante à íntima relação entre afeto e política, mesmo com os seus aspectos distintos. Cada realidade histórica é analisada a partir de seus contextos, o que não impede fazer analogias e encontrar similaridades possíveis. A nossa luta no Território Criativo do Gesso e a Guerrilha do Araguaia talvez tenham em comum a ideia do laboratório social permeado por instrumentos de análise da relação humana pautada pelo respeito às diferenças de entendimentos e caminhos. É preciso fazer um recorte entre o território e a comunidade. A comunidade do Gesso é parte deste território, mas, para nós, deve ser tratada como nossa casa. O que isso representa? É o lugar onde estabelecemos vínculos afetivos, temos mais proximidade com a população e onde o espaço do conflito também é mais perto. Isso exige engenharia para aprender a tomar café com o povo, aprender a escutar as demandas e os desejos do povo da forma como eles conseguem formular, e aprender a interpretar e encaminhar de acordo com os interesses políticos da nossa organização. É fundamental o entendimento de que somos uma organização política de viés marxista: a forma de análise se baseia pelas condições objetivas concretas, contextos e correlações de forças políticas. Traçamos nossa tática política a partir do esforço de entendimento da realidade. Isso significa dizer também que quem define a nossa linha política de atuação é o conjunto de dirigentes e militantes da nossa organização. O fato de se relacionar com a população não pode interferir no processo de gestão do nosso instrumento de luta (Coletivo Camaradas), e é isso que coloca a ideia do Laboratório Social como fundamental para a tomada de decisão.

Vale lembrar que a comunidade do Gesso pode ser nossa casa, mas não é nosso lugar (pode até ser também). Normalmente somos os corpos estranhos na comunidade: muitos dos nossos não residem nem no território, nem na comunidade. Dentro da dimensão política, temos que entender que a dimensão afetiva é parte do mesmo processo de acolhimento, escuta, inclusão e caminhada coletiva.

Moradores

Tratar bem os moradores é uma obrigação política, e nossa relação com as crianças e adolescentes deve ser humanizada, pedagógica, afetiva e política. Isso parece óbvio, mas não é, porque a realidade concreta não é baseada no sim e no não, no bem e no mal, mas é recheada de complexidades sociais, de internalizações históricas carregadas, muitas vezes, de resquícios de autoritarismo, superioridade, opressão e colonização. Portanto, é necessário desconstruir cotidianamente posições políticas que possam nos isolar, antipatizar e nos afastar da realidade. Ao mesmo tempo, é necessário não vacilar da bússola teórica em conjunto com a apropriação da realidade concreta (práxis). É preciso horizontalizar o norte político do nosso tratamento com a comunidade para não sermos alvo. Devemos ser argamassa de feição afetiva para conquistar mentes e corações para a transformação social.

 

Alexandre Lucas, é pedagogo e integrante do Coletivo Camaradas.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

Edições digital e impressa