Rio de Janeiro, 19 de Maio de 2026

O bolsonarismo faz mal ao Brasil

Escândalo de Flávio Bolsonaro reacende debate sobre autoritarismo e crise ética na política brasileira. Thiago Modenesi analisa os impactos do bolsonarismo.

Terça, 19 de Maio de 2026 às 09:12, por: CdB

Escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro reacende debate sobre autoritarismo, desgaste institucional e crise ética na política brasileira.

Por Thiago Modenesi – de Brasília

O recente escândalo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro é mais do que um episódio constrangedor da política nacional. Ele sintetiza, de forma brutal, o tipo de relação promíscua entre poder, dinheiro, influência e espetáculo político que marcou a ascensão do bolsonarismo ao centro do Estado brasileiro. As revelações de áudios, mensagens e negociações milionárias para financiar um filme laudatório sobre Jair Bolsonaro (a produção estadunidense Dark Horse, mais cara que 15 dos últimos 20 vencedores do Oscar na categoria de melhor filme) não apenas aprofundam suspeitas já existentes sobre o clã Bolsonaro, mas expõem a degradação ética produzida por um projeto político que se alimentou permanentemente da mentira, do conflito e da corrosão institucional. 

O bolsonarismo faz mal ao Brasil | Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro

Segundo reportagem recente do Intercept Brasil, amplificada por todos os meios de comunicação e com fartura de novos fatos e provas que vão se acumulando nos dias que se seguem, Flávio Bolsonaro teria solicitado dezenas de milhões de dólares a Daniel Vorcaro, banqueiro investigado por fraudes bilionárias relacionadas ao Banco Master, para financiar uma cinebiografia do pai. O mesmo Flávio que, publicamente, negava proximidade com o empresário, aparece em mensagens prometendo lealdade irrestrita e cobrando pagamentos. O caso é grave não apenas pelo possível conteúdo criminal que ainda será investigado, mas pelo retrato político que oferece: o de uma família que construiu sua imagem pública dizendo combater o sistema, enquanto mantinha relações estreitas com setores obscuros do mercado financeiro e do poder econômico. Em um dos desdobramentos, Flávio joga a crise no colo do irmão Eduardo, cujo advogado administra o recurso captado para a película, na sequência já aparece compra de propriedade pelo fundo no mesmo estado nos EUA que mora o ex-deputado e novo fato apurado pelo ICL em que o local em que deveria sediar a produtora naquele país não há registro e nem conhecimento pelas pessoas da existência da mesma.

O bolsonarismo sempre vendeu ao país uma narrativa de uma suposta “renovação moral”. Na prática, porém, produziu exatamente o contrário. Desde a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência, o Brasil mergulhou numa espiral de radicalização política, destruição do debate público e ataques sistemáticos às instituições democráticas. O governo transformou a mentira em método, o ódio em linguagem política e a desinformação em estratégia permanente de mobilização.

Não se tratou apenas de divergência ideológica. Democracias maduras convivem com diferenças profundas entre direita e esquerda. O problema do bolsonarismo foi outro: a normalização da violência política e do autoritarismo. Houve ataques às urnas eletrônicas, estímulo a teorias conspiratórias, perseguição a jornalistas, intimidação de opositores e incentivo constante à lógica do inimigo interno. O ápice desse processo foi a tentativa de ruptura institucional após as eleições de 2022, culminando nos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, um dos momentos mais graves da história republicana recente.

Vorcaro

O caso Vorcaro mostra que o bolsonarismo nunca foi apenas um fenômeno ideológico conservador. Tornou-se também um ecossistema de interesses econômicos, relações obscuras e blindagem política mútua. A retórica anticorrupção serviu, muitas vezes, apenas como instrumento de mobilização emocional, enquanto figuras centrais do grupo acumulavam denúncias, investigações e escândalos sucessivos. O próprio Flávio Bolsonaro já havia enfrentado questionamentos relacionados ao caso das rachadinhas quando deputado estadual na década de 90 e compra de 51 imóveis em dinheiro vivo, ambas ajudaram a corroer a imagem moralizante da família.

Ao longo dos últimos anos, o país pagou um preço altíssimo pelo peso e relevo desse grupo na política nacional. O debate público foi empobrecido. A política virou guerra cultural permanente. A convivência democrática se deteriorou. O extremismo contaminou relações sociais, instituições e até mesmo setores das Forças Armadas e das polícias. O Brasil perdeu capacidade de diálogo, planejamento nacional e construção de consensos mínimos.

Superar politicamente o bolsonarismo não significa perseguir eleitores conservadores nem eliminar a direita do debate democrático. Pelo contrário: o país precisa de uma direita democrática, comprometida com as regras do jogo, com a Constituição e com o respeito às instituições. O que precisa ser superado é a lógica política fundada no culto à personalidade, na manipulação do medo, no autoritarismo e na degradação ética.

Nenhuma democracia saudável pode prosperar sob permanente estado de tensão institucional. Nenhuma nação consegue construir futuro quando parte de sua liderança trabalha diariamente para desacreditar eleições, atacar tribunais e transformar adversários em inimigos existenciais. O Brasil necessita reconstruir uma cultura política baseada no respeito, na racionalidade e no compromisso republicano.

O escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro talvez seja apenas mais um capítulo de uma longa série de crises associadas ao clã Bolsonaro. Mas ele também pode servir como símbolo de esgotamento. O país precisa virar essa página. Não por vingança, mas por necessidade histórica. A democracia brasileira só se fortalecerá plenamente quando deixar para trás a política da destruição permanente e recuperar a capacidade de fazer da divergência um instrumento de construção nacional, e não de sabotagem da própria República. Não é pequeno o fato de setores da própria direita, praticamente a totalidade dos outros pré-candidatos deste espectro político, se manifestarem duramente e publicamente no episódio em tela. O clã (ou seria quadrilha) Bolsonaro intoxica o Brasil, a democracia e a política.

 

Thiago Modenesi, é Bacharel em Direito, Licenciado em História e Pedagogo, Especialista em Ensino de História, Ciência Política, Gestão da Aprendizagem e Moderna Educação, Mestre e Doutor em Educação, com pos-doutorado na área. É professor no Mestrado em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste e nos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica e Ciências Farmacêuticas, todos na UFPE, membro do INCT iCeis, pesquisador sobre inovação e Estado, charges, cartuns e histórias em quadrinhos e editor na Quadriculando Editora, além de presidente do PCdoB em Jaboatão dos Guararapes-PE.

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