Ao sugerir que cada ano inaugura uma nova possibilidade, ela descola a escola de sua materialidade histórica e social. Apaga-se o fato de que os problemas enfrentados no cotidiano escolar não são episódicos.
Por Rosana Alves – de São Paulo
Reconhecer que a escola não recomeça a cada início de ano letivo não é negar o valor do trabalho docente, nem desconsiderar os esforços cotidianos de cada professor. Pelo contrário, é afirmar que os desafios enfrentados pela escola pública não são individuais, nem resultado de falta de compromisso ou de competência, mas expressão de condições objetivas que atravessam o nosso trabalho. Compreender isso é fundamental para que não naturalizemos a sobrecarga, a culpa e a sensação permanente de insuficiência. Nosso trabalho tem limites concretos, e reconhecê-los é condição para fortalecer práticas coletivas, defender a escola pública e sustentar a centralidade do conhecimento no processo educativo.

Todo início de ano letivo, no entanto, é acompanhado por um ritual conhecido. Cartazes de boas-vindas, discursos oficiais otimistas, apelos à esperança e à ideia de “novo começo”. A escola pública atravessa o portão no primeiro dia de aula carregando problemas que não tiraram férias. Falta de estrutura, precarização do trabalho docente, currículos esvaziados e a presença cada vez mais agressiva de lógicas externas à escola seguem organizando o cotidiano escolar. O ano letivo começa. As contradições que marcam a educação pública permanecem.
A noção de recomeço cumpre uma função ideológica precisa. Ao sugerir que cada ano inaugura uma nova possibilidade, ela descola a escola de sua materialidade histórica e social. Apaga-se o fato de que os problemas enfrentados no cotidiano escolar não são episódicos, nem resultado de falhas individuais, mas expressão de um projeto político que atravessa governos, calendários e gestões. O discurso do recomeço desloca a responsabilidade do Estado para os ombros de professores, gestores e estudantes, como se vontade, criatividade e “boa atitude” fossem suficientes para compensar a ausência de políticas estruturais.
Escola pública
A escola pública inicia o ano letivo sob as mesmas condições, ou piores do que as do ano anterior. Salas superlotadas, profissionais adoecidos, contratos precarizados, ausência de concursos, infraestrutura insuficiente e currículos cada vez mais submetidos à lógica das competências mínimas. A isso se soma a expansão da privatização direta e indireta, da plataformização do ensino, das parcerias com o setor privado e das formas de controle baseadas em metas, avaliações externas e rankings. Não se trata de desvios ou erros de percurso, mas de um projeto de classe que transforma o direito à educação em mercadoria e a escola em espaço de gestão da pobreza.
Nesse contexto, ganha força um discurso pedagógico que desloca o centro do debate. Problemas sociais profundos passam a ser tratados como questões emocionais, comportamentais ou relacionais. Fala-se em acolhimento, resiliência e empatia, enquanto se silenciam as condições objetivas de existência da classe trabalhadora. A psicologização dos conflitos sociais cumpre o papel de despolitizar a escola e naturalizar a desigualdade. O sofrimento produzido pela exploração capitalista aparece como fragilidade individual, a ser administrada no interior da sala de aula.
Não se trata de negar a dimensão humana da educação, mas de denunciar o uso ideológico desse discurso. Acolhimento sem políticas públicas, sem financiamento adequado e sem acesso ao conhecimento sistematizado não emancipa; apenas administra a precariedade. Ao mesmo tempo em que se cobra da escola que “cuide”, retira-se dela a possibilidade de cumprir sua função histórica: garantir à classe trabalhadora o acesso aos conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade.
O professor inicia o ano letivo atravessado por expectativas irreais e cobranças contraditórias. Espera-se que ensine mais, com menos condições; que resolva problemas sociais que extrapolam a escola; que atinja metas definidas fora da realidade concreta de seu trabalho. A retórica da inovação e da superação individual encobre a intensificação da exploração do trabalho docente e a perda progressiva de autonomia pedagógica.
Diante disso, insistir na narrativa do recomeço é mais do que ingenuidade: é cumplicidade com o projeto que mantém a escola pública permanentemente sob ataque. Não há novo começo possível enquanto se preservam as mesmas bases materiais que produzem a desigualdade educacional. Não há esperança concreta sem enfrentamento político.
A escola pública não precisa de discursos motivacionais, nem de promessas vazias a cada fevereiro. Precisa de investimento, de valorização do trabalho docente, de currículo comprometido com o conhecimento científico, artístico e filosófico, e de ruptura com a lógica que subordina o direito à educação aos interesses do mercado. O ano letivo começa. A luta em defesa da escola pública, essa sim, não pode nunca recomeçar do zero, porque ela nunca deixou de existir.
Rosana Alves, é professora, historiadora, pedagoga e coordenadora pedagógica na rede municipal de Ensino de São Paulo (SP). É mestra em Filosofia e História da Educação pela Unicamp e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP, além de membro da direção do PCdoB São Paulo (SP).
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