Rio de Janeiro, 02 de Fevereiro de 2026

Reindustrialização ainda é o caminho

Por Abraham B. Sicsú  – Planos vão se amoldando às conjunturas, que nem sempre podem ser previstas. O importante é entender como os objetivos podem ou não se transformar em realidade.

Segunda, 02 de Fevereiro de 2026 às 09:31, por: CdB

Planos vão se amoldando às conjunturas, que nem sempre podem ser previstas. O importante é entender como os objetivos podem ou não se transformar em realidade.

Por Abraham B. Sicsú – de Brasília

Na transição para o atual governo Lula, uma iniciativa muito importante foi a estruturação de um projeto de desenvolvimento para o país. Muitos nos envolvemos nessa construção conjunta e definimos bases para a busca de uma sociedade mais equânime, sustentável e sólida, com a inserção efetiva da população nos frutos dos caminhos a serem seguidos.

Reindustrialização ainda é o caminho | Para reforçar o processo de investimentos no setor industrial é fundamental termos crédito compatível com os empreendimentos
Para reforçar o processo de investimentos no setor industrial é fundamental termos crédito compatível com os empreendimentos

Uma das constatações feitas, a priori, foi o processo de desindustrialização que o país vinha sofrendo e a necessidade de revertê-lo para permitir melhorias no padrão de vida e na renda das pessoas. Um país que em 2010 tinha no setor industrial a participação de 22% no PIB viu decair essa participação para menos de 10% em 2022.

Com isso, se elabora um plano para a indústria nacional, o Nova Indústria Brasil (NIB), que tenta dar condições para a recuperação do setor. O objetivo, nas palavras do vice-presidente e atual ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, é “aumentar a competitividade das nossas empresas e alavancar as exportações brasileiras de alto valor agregado — e, aqui, nós estamos falando de um setor de alta tecnologia, com capacidade não só de produzir e exportar, mas também de gerar emprego de alta qualificação e alta renda“.

Passados três anos, cabe fazer uma melhor avaliação do ocorrido e das dificuldades enfrentadas. Está-se consciente de que os planos vão se amoldando às conjunturas, que nem sempre podem ser previstas, e que é importante entender como os objetivos podem ou não se transformar em realidade.

Um primeiro aspecto a ser reforçado é a própria mudança do quadro mundial. Com as mudanças no país que detém a hegemonia, o Brasil reforça a busca de acordos internacionais e formações de blocos, como o que se está ultimando com a União Europeia, nem sempre em condições vantajosas para nós.

Uma análise interessante deste bloco em formação específico é feita por Manoel Casado e Paulo Nogueira Batista Jr. No artigo “Acordo Mercosul/União Europeia: já era ruim e ficou pior”, publicado na revista Terapia Política, os autores dizem: “O Brasil, severamente desindustrializado, regredindo em marcha forçada à condição de país primário-exportador, volta a adotar o evangelho do livre comércio – justo na hora em que economias centrais e países emergentes relevantes reduzem o grau de exposição externa de suas economias, adotam medidas de proteção contra a concorrência estrangeira e elevam seu nível de autonomia produtiva e tecnológica.”

Evidentemente, os setores mais atingidos nesse processo de integração são aqueles mais tecnificados, no qual se incluem relevantes segmentos da indústria de transformação, onde ainda não somos vanguarda mundial, setores onde se tende a aumentar a dependência externa e onde fica patente a nossa fragilização em investimentos estruturadores.

Crédito

O quadro não se resume a isso. Para reforçar o processo de investimentos no setor industrial é fundamental termos crédito compatível com os empreendimentos. Nossa taxa Selic é absurda. Mais de 10% de taxa real, retirando a inflação. A atração de investimentos, sejam internos ou externos, fica bastante dificultada.

Nesse processo, o que se nota é o retornar da entrada de capital especulativo, principalmente em bolsas, e uma tendência de arrefecimento do investimento direto em empreendimentos nos últimos meses.

Problema maior está intimamente ligado ao câmbio. Temos uma situação bastante complexa. O real se valorizou, em um ano, mais de 15% em relação ao dólar. Com isso, as importações baratearam e as exportações ficaram menos atrativas. Um cenário pouco alvissareiro para a indústria de transformação. Verdade, bem interessante para a exportação de commodities.

Não se pode negar que alguns poucos segmentos industriais se beneficiam, como as indústrias farmacêutica e a alimentícia, fortemente dependentes de insumos externos. Mas, em geral, há problemas, com a falta de crédito e concorrentes externos mais bem posicionados, com produtos mais baratos. Tal cenário anula qualquer possível proteção alfandegária, caracterizando-se como uma abertura comercial unilateral.

Se nosso principal parceiro comercial atual é a China, cabe ver o que ocorre com ela. O yuan mantém quase uma paridade com o dólar. Em 12 meses, se valorizou apenas 4,66% — bem menos que os 16% do real. Com isso, os produtos chineses se tornaram mais atraentes.

Vejam bem, não estamos falando apenas de produtos de baixa tecnologia embutida; a China produz hoje os mais sofisticados itens em quase todas as áreas. Esse cenário reforça a tendência de sermos um país primário exportador para o gigante asiático, no máximo com alguns intermediários, com baixíssima exportação na área de maior valor agregado.

O cenário está desenhado. O PIB industrial brasileiro, no biênio 2024-2025, teve um desempenho díspar que merece ser analisado.

PIB

Em 2024, saindo de anos de estagnação, houve uma forte inserção do setor, advindo das medidas da NIB e da crença na reindustrialização. A indústria apresentou no período um crescimento de 3,3% em valor, o que a tornou um dos setores responsáveis pelo forte crescimento anual que tivemos (3,4% do PIB).

Em 2025 parece apresentar perfil diferente. Sinais de desaceleração são notados. O crescimento se dá a taxas bem inferiores, entre 1,8 e 2%, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em quatro meses seguidos não teve crescimento.

A demanda não cresceu conforme esperado; dado o custo do crédito, os investimentos desaceleraram. Bens de capitais, que projetam o crescimento futuro, também têm reduzido o seu avançar. Isso tudo faz com que não tenhamos atingido, ainda, em volume e valor, o patamar que tínhamos em 2011.

Se a preocupação é preparar o País para o futuro, é fundamental analisar o perfil dos investimentos projetados pela NIB e pelo Programa Brasileiro de Inteligência Artificial.

Um dos principais vetores e preocupações é a transformação digital de nossas empresas. Inserir-se em um mundo em que a inteligência artificial passa a definir tendência de expansão; em que a manipulação de um inimaginável volume de informações com datacenters potentíssimos e no qual a internet das coisas é cada vez mais corriqueira, passa a ser fundamental para o salto de eficiência que se deseja dar na produtividade.

No entanto, tudo isso, mesmo que bem planejado, pode ser inviabilizado se não estivermos atentos às condições macroeconômicas, ao ônus que pagamos por ter um custo financeiro muito maior que nossos competidores, por um câmbio que inviabiliza qualquer estratégia de apoio à retomada nos patamares desejados da indústria nacional, por acordos comerciais que não se atentem às dificuldades setoriais que vamos enfrentar. Esses são pontos fundamentais a serem analisados.

 

Abraham B. Sicsú, é professor aposentado do Departamento de Engenharia de Produção da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador aposentado da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco).

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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