Moradores dizem estar isolados, sem acesso a alimentos e a outros serviços essenciais. Duas famílias palestinas estão encurraladas no local há quatro dias.
Por Redação, com RFI – de Qusra, na Cisjordânia
Apesar de ser um fervoroso defensor da colonização na Cisjordânia ocupada, o embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, denunciou nesta quinta‑feira o cerco a casas palestinas por colonos israelenses, classificando o ato como “terrorismo”. Já o Líbano condenou a destruição de moradias no sul no país, em áreas controladas pelo Exército de Israel.

Desde domingo, algumas dezenas de colonos bloqueiam o acesso a casas palestinas no vilarejo de Qusra, perto de Nablus. Moradores dizem estar isolados, sem acesso a alimentos e a outros serviços essenciais. Duas famílias palestinas estão encurraladas no local há quatro dias. Cerca de uma dezena de colonos mantém as casas sob cerco, lança pedras e impede qualquer entrada ou saída. Aisha Abu Rida relatou: “Estamos cercados pelos colonos, mas resistimos. Com a ajuda de Deus, não deixaremos nossa casa, aconteça o que acontecer, apesar dos cortes de água e luz e de seus ataques repetidos para nos expulsar.”
O embaixador norte-americano, Mike Huckabee, se pronunciou sobre o caso na rede social X, em resposta a uma postagem que cobrava uma ação da embaixada, já que uma das residências pertence a um palestino que também possui a cidadania americana. Segundo ele, a embaixada acompanhou o caso de perto, e “as Forças de Defesa de Israel (IDF) e a Polícia israelense foram ao locala nosso pedido para retirar os terroristas israelenses responsáveis por isso”.
– As ações daqueles que fizeram isso à casa dessa família são criminosas. A Casa Branca não ‘interveio’ porque mantivemos Washington informado sobre a situação. As atitudes dos responsáveis por esse horrível ato de terror, destinado a intimidar e assediar esta família, são repugnantes. Não há desculpa para esse comportamento de valentões – afirmou
As declarações de Huckabee são particularmente incomuns. O pastor evangélico já apoiou repetidamente as colônias judaicas na Cisjordânia, território ocupado por Israel desde 1967, e rejeitou a criação de um Estado palestino.
A atuação do Exército israelense tem sido contraditória. Sob pressão, um alto oficial visitou Qusra na quarta-feira e classificou a situação como “inaceitável”. A tenda dos colonos foi retirada, mas eles permaneceram no local. Os soldados deixaram a área, sem proteção às famílias, e retornaram nesta quinta-feira, tentando novamente dispersar os colonos, segundo o Times of Israel.
Para Yuli Novak, diretor da ONG israelense Btselem, o episódio reflete um padrão mais amplo: “O que acontece em Qusra não é um incidente isolado. Milícias de colonos, apoiadas pelo Exército, ampliam seus ataques a vilarejos palestinos, tomando terras, atacando casas e expulsando famílias. A limpeza étnica por Israel na Cisjordânia está se acelerando e se expandindo à vista de todos.”
Vídeos gravados pelas famílias mostram soldados conversando e até rezando com colonos. O Exército afirma ter destacado um batalhão extra na Cisjordânia ocupada para “restabelecer a ordem”.
A violência de colonos israelenses contra palestinos aumentou de forma dramática desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, com investidas e agressões quase diárias contra vilarejos palestinos. Mais de 500 mil israelenses vivem em colônias na Cisjordânia e em outros territórios palestinos ocupados, consideradas ilegais pelo direito internacional, em meio a cerca de três milhões de palestinos.
Líbano
Já no Líbano, o primeiro‑ministro Nawaf Salam condenou as destruições “sistemáticas” no sul do país, onde Israel afirmou estar demolindo “todas as casas” na área controlada por seu Exército.
As forças israelenses estabeleceram no sul do Líbano uma “zona de segurança” em uma faixa de cerca de 10 quilômetros ao longo da fronteira. Israel afirma que a medida visa proteger as comunidades do norte do país dos ataques do movimento pró-Irã Hezbollah, acusado de manter na região uma infraestrutura militar.
Os “ataques, incursões, demolições e a destruição sistemática de casas”, de infraestruturas, prédios governamentais e locais religiosos conduzidos por Israel “representam uma grave violação dos princípios e regras do direito internacional”, declarou Salam em comunicado. Afirmar que as cidades e os vilarejos da região “são exclusivamente ‘infraestruturas militares’ (…) não pode servir de pretexto para destruí‑los, deslocar seus habitantes e impedir seu retorno”, acrescentou o premiê libanês.
Na última guerra entre Israel e o Hezbollah, neste ano, mais de um milhão de pessoas, em sua maioria no sul do Líbano, foram deslocadas pelos bombardeios israelenses. Embora a maior parte tenha conseguido voltar, muitas não puderam recuperar suas casas.
O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, esteve na quarta‑feira no sul do Líbano, reafirmando sua determinação de manter tropas na “zona de segurança”.
‘Vamos limpar essa área’.
– O Exército está aqui para proteger as localidades do norte de Israel e suas próprias forças. Vamos limpar essa área (…) Não nos retiraremos de forma alguma das zonas de segurança: nem no Líbano, nem na Síria, nem em Gaza – afirmou. Segundo o ministro, o Exército “destrói as instalações subterrâneas” dos grupos armados e “todas as casas”.
Questionado sobre essas declarações, um responsável do Departamento de Estado americano respondeu que os Estados Unidos esperam que “todas as partes ajam conforme o acordo que aceitaram, e Israel declarou claramente que não tem nenhuma ambição territorial no Líbano”.
“Uma presença militar permanente no sul do Líbano não é compatível com os compromissos assumidos no acordo, nem com a paz e a segurança de longo prazo dos dois Estados”, acrescentou em mensagem enviada à agência francesa de notícias Agence France-Presse (AFP).
Tecnicamente em estado de guerra, Líbano e Israel assinaram no fim de junho um acordo que prevê o envio do Exército libanês ao sul, começando por “zonas‑piloto” que Israel deve evacuar sob condição do desarmamento do Hezbollah. A ala radical do movimento xiita libanês rejeita o acordo e se recusa a entregar as armas.
Apesar do cessar‑fogo em vigor desde junho, Israel continua realizando ataques pontuais no Líbano. A agência oficial libanesa ANI informou na quarta‑feira que tropas israelenses provocaram explosões em vilarejos do sul do país, especialmente em Zawtar el‑Charqiyé, que fica ao lado de uma das “zonas‑piloto”.
O general americano Joseph Clearfield, que dirige o grupo de coordenação encarregado da implementação do acordo de junho, estava em visita ao Líbano nesta quarta‑feira. Ele se reuniu com o comandante do Exército, Rodolphe Haykal, com quem discutiu “as disposições de segurança” ligadas ao acordo, além das dificuldades enfrentadas pelos soldados libaneses, segundo o Exército.
O general também se encontrou com o presidente libanês, Joseph Aoun, para tratar da aplicação do acordo‑quadro. Israel e Líbano devem iniciar no próximo mês um oitavo ciclo de negociações sob mediação dos Estados Unidos, em Roma.