Rio de Janeiro, 28 de Julho de 2026

Documentário resgata drama da família afetada pelo césio-137

Os dois foram as primeiras vítimas do maior incidente radiológico da história do Brasil, recontado no curta-metragem Lourdes e Leide, do diretor de...

Terça, 28 de Julho de 2026 às 15:03, por: CdB

Os dois foram as primeiras vítimas do maior incidente radiológico da história do Brasil, recontado no curta-metragem Lourdes e Leide, do diretor de cinema Angelo Lima.

Por Redação, com ABr – de Brasília

No dia 13 de setembro de 1987, há quase 40 anos, dois catadores de lixo entraram no prédio abandonado e em ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no centro de Goiânia. Nesse prédio, Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves encontraram um equipamento de radioterapia que havia sido abandonado e o levaram para a casa de um deles.

Curta-metragem “Lourdes e Leide” foi exibido no Bonito Cinesur

Eles removeram o lacre da cápsula e encontraram um pó semelhante a um sal de cozinha, que emitia um intenso brilho azul no escuro. Era o césio-137, um material radioativo.

Os dois foram as primeiras vítimas do maior incidente radiológico da história do Brasil, recontado no curta-metragem Lourdes e Leide, do diretor de cinema Angelo Lima, exibido no Festival Bonito CineSur, no Mato Grosso do Sul.

Filmado no ano passado, o documentário volta a denunciar o sofrimento gerado pelo episódio, acompanhando o cotidiano solitário de dona Lourdes, tomado pelas memórias da filha Leide, que morreu pela exposição ao césio aos 6 anos de idade.

– Foi uma tragédia silenciosa – disse o diretor. “Isso foi uma tragédia dentro de uma família, uma família que sofreu muito e perdeu várias pessoas, imediatamente”.

Bastante emocionado, o diretor conversou com a reportagem da Agência Brasil logo após a exibição no Bonito CineSur.

– Eu sempre culpo o Estado. Eu não vou culpar os catadores, nem vou culpar a família. Essa é uma tragédia que eles não tinham dimensão do que era. E alguma coisa precisa ser feita para reparar esses danos.

Césio

A substância radioativa chegou à casa de Lourdes e Leide alguns dias depois de ter sido encontrada no IGR. Sem saber a gravidade do que tinham em mãos, Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves decidiram vender esse material para um ferro-velho que pertencia a Devair Alves Ferreira, que também ficou encantado com a luminosidade.

Devair apresentou a descoberta para a esposa e o distribuiu para familiares e amigos. Sem saber do perigo, as pessoas manipulavam o material, o que causou sintomas imediatos como náuseas, tonturas, vômitos e diarreia.

O irmão de Devair, Ivo Ferreira, levou um pouco dessa substância contida na cápsula para a filha, Leide das Neves, que ingeriu as partículas do césio. A gravidade da exposição fez com que a menina morresse poucos dias depois, em 23 de setembro. Ela precisou ser enterrada em um caixão de chumbo de 700 quilos para conter a radiação que seu corpo ainda emitia.

Além dela, outras três pessoas morreram entre quatro e cinco semanas após exposição àquela radiação.

Morte de outro filho

Nesta última semana, dona Lourdes perdeu mais um filho, Lucimar das Neves Ferreira. Ele tinha 14 anos de idade quando o acidente com o césio ocorreu.

– O Lucimar era um menino que foi internado [na época do acidente radioativo] e ganhou uma pensão também do Estado. Mas, aí, ele começou a beber muito, sabe? E teve um enfisema pulmonar violento. Ela [Lourdes] está muito chocada – contou o diretor.

Segundo o presidente da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), Marcelo Santos Neves, a morte de Lucimar o fez relembrar dos dias difíceis provocados por esse acidente radioativo.

– A gente se entristece porque, com essa perda, tudo relembra aqueles dias difíceis – disse Neves, em vídeo publicado nas redes sociais da associação.

– Agora, a gente tem que dar o máximo de apoio possível, porque vai ser muito dolorido para ela [para a mãe, Lourdes], por mais que ela já esteja calejada com essas dores de perda da filha – completou.

Para o diretor do curta, a família de dona Lourdes já sofreu demais com esse episódio.

– Essa é uma tragédia violenta. Essa família foi totalmente abalada [por conta desse acidente radioativo]. Naquela época, eles não podiam chegar na rua, está me entendendo? Na rua, as pessoas falavam: ‘olha aí o pessoal do Césio’ e trancavam as portas, sabe? Eles tiveram que se mudar várias vezes – contou Lima. “Isso acaba com a vida de todo mundo. Destrói famílias”, ressaltou o diretor.

Memória

O curta Lourdes e Leide foi exibido na noite de segunda-feira, no Bonito CineSur, festival que acontece até o próximo sábado, na cidade de Bonito.

Além da exibição do documentário, o festival promove uma pequena exposição de fotos que ajuda a contar a história sobre esse acidente com o césio-137. Entre as imagens, há fotos da pequena Leide e também do seu enterro.

– No enterro da Leide, chegaram a jogar pedras – contou o diretor. “Naquela época, eles [os familiares] sofreram coisas muito fortes assim”.

Em sua visão, essa tragédia “poderia acontecer com qualquer um” e, por isso, a sociedade brasileira precisaria estar mais preparada para enfrentar situações como essa.

– Eu acho que, em termos governamentais, nada mudou. As pessoas esqueceram disso rapidamente, porque quiseram esquecer rapidamente. E não tiveram humanidade – disse Lima.

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