Devastadora avalanche deixa centenas de trabalhadores presos em túneis de projetos hidrelétricos, e equipes de resgate lutam para tentar salvá-los.
Por Redação, com DW – de Kathmandu
As autoridades do Nepal e da China continuaram nesta terça-feira as buscas por milhares de pessoas que permanecem desaparecidas desde a devastadora avalanche ocorrida na semana passada.

A enxurrada de gelo, rocha, lama e detritos deixou um rastro de destruição em cidades e vilarejos situados em vales nepaleses, bem como do outro lado da fronteira, na China, na quarta-feira passada, matando mais de mil pessoas e deixando mais de 4 mil desaparecidas nos dois países, segundo os números oficiais. Acredita-se que o colapso de uma geleira tenha desencadeado o desastre.
Uma das prioridades das operações de resgate nepalesas é encontrar centenas de trabalhadores que estariam presos nos túneis de 12 projetos hidrelétricos da bacia dos rios Bhote Koshi e Trishuli atingidos pelas enxurradas.
A Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres do Nepal elevou para 987, nesta terça-feira, o número de corpos recuperados e reduziu o total de desaparecidos para 3.916. Grande parte da redução corresponde a uma queda no número de trabalhadores desaparecidos em projetos hidrelétricos, que passou de 933 para 639.
Nesta segunda-feira, as equipes de resgate do Nepal concluíram a busca no túnel da usina hidrelétrica de Rasuwagadhi, onde se suspeitava haver dezenas de trabalhadores presos desde a avalanche de lama ocorrida na semana passada, sem encontrar corpos ou sobreviventes.
Os socorristas inspecionaram o túnel até o final com o auxílio de drones, sem encontrar sinais de vítimas, segundo informou a imprensa local, citando o gabinete do primeiro-ministro do Nepal.
Nas instalações subterrâneas da usina hidrelétrica Upper Trishuli-3A, um túnel está inundado até o teto, e uma massa de rocha, terra e lama bloqueia o caminho. Autoridades disseram que engenheiros do Exército iniciaram operações de detonação no local. Equipes de resgate chegaram à seção principal de um túnel no domingo, mas não encontraram sobreviventes.
Críticas
Para pessoas isoladas por uma inundação, a sobrevivência depende de muitos fatores, incluindo o acesso a oxigênio, alimentos e água potável. Especialistas afirmam que as primeiras 72 horas são críticas, pois as chances de sobrevivência diminuem sem acesso a água limpa. Não está claro se havia estoques de emergência de água potável nos túneis.
Um aspecto importante é se os túneis cumpriam os protocolos de emergência para casos de falta de energia ou desastres naturais, disse a epidemiologista Jennifer Horney, especializada em desastres da Universidade de Delaware.
Se for esse o caso, os trabalhadores poderiam ter sido treinados sobre a localização das saídas. No entanto, a força da inundação pode ter feito com que lama se acumulasse sobre essas saídas, o que dificulta a execução dos planos de resgate.
Água e oxigênio
O acesso a ar respirável é outro fator crucial para a sobrevivência. Seis dias após as inundações, crescem as preocupações com asfixia.
– Esses túneis são grandes o suficiente para a passagem de caminhões – disse o geocientista Jakob Steiner, da Universidade de Graz (Áustria), radicado em Dhaka, Bangladesh. “E, pelo que sabemos, conseguiram levar oxigênio a alguns dos que estão presos lá dentro e estão tentando resgatá-los agora. No entanto, é uma corrida contra o tempo, pois as pessoas precisam de comida e água.”
Os efeitos psicológicos do isolamento, bem como possíveis ferimentos, também podem cobrar um preço. Outra consideração importante é se existe uma maneira segura de fornecer água e suprimentos essenciais enquanto as operações de resgate prosseguem, segundo Thomas Chandler, diretor do Centro Nacional de Preparação para Desastres da Universidade de Columbia.
Ele mencionou o desabamento de um túnel no Himalaia em 2023, causado por um deslizamento de terra, no qual 41 trabalhadores indianos foram resgatados após ficarem presos por 17 dias. Eles receberam alimentos, água e oxigênio por meio de tubulações.
O ambiente dentro dos túneis também pode desempenhar um papel relevante. Se ele estiver quente e úmido, as pessoas podem sofrer desidratação mais rapidamente, e os resgatados podem estar muito debilitados.