Cadáveres estão se decompondo antes de serem identificados, levando autoridades a enterrá-los em valas comuns para evitar riscos sanitários. Número de desaparecidos em tragédia já beira os 5 mil.
Por Redação, com DW – de Nuwakot, no Nepal
Sobrecarregado pela quantidade de mortos e incapaz de manter seus corpos todos refrigerados até que sejam identificados por suas famílias, o Nepal começou no sábado a enterrar em valas comuns as primeiras vítimas das enxurradas devastadoras que deixaram quase mil mortos, além de mais de 4 mil desaparecidos, informou a imprensa local.

A decisão gerou controvérsia no país, de maioria hindu, onde a cremação é a prática tradicional.
O desastre na região fronteiriça entre a China e o Nepal foi provocado após o colapso de uma geleira desencadear uma gigantesca avalanche, com inundações repentinas que arrasaram regiões inteiras em questão de minutos.
Nesta segunda-feira, já são 903 vítimas confirmadas no lado nepalês, e 16 no lado chinês. Enquanto no primeiro país o número de desaparecidos aumentou drasticamente para 4.247 pessoas, 546 pessoas seguem desaparecidas na China.
Entre os desaparecidos há cidadãos de Índia, Estados Unidos, Ucrânia, China, Malásia, Austrália, Reino Unido, Letônia, Canadá, Coreia do Sul, Singapura, Alemanha e Rússia, dentre outras nacionalidades.
Milhares de equipes de resgate continuam procurando vítimas e recuperando corpos nas áreas afetadas do Nepal e do sudoeste do Tibete, na China. A região dos Himalaias é isolada e muito procurada por turistas de aventura e peregrinos.
Muitos corpos foram encontrados no sul do Nepal, a dezenas de quilômetros das áreas mais atingidas pelas enchentes de quarta-feira, segundo as autoridades nepalesas.
Identificação
A magnitude do desastre e a rápida decomposição dos corpos impeliu as autoridades a realizar os primeiros enterros antes que fossem identificados, por razões sanitárias, já que não há como manter tantos cadáveres refrigerados.
Amostras de DNA, fotografias e outras informações de identificação estão sendo coletadas antes dos enterros para que os familiares possam identificar seus entes queridos posteriormente.
– Nossa prioridade absoluta é devolver cada vítima às suas famílias – afirmou um porta-voz da polícia, citado pelo jornal Kathmandu Post.
No distrito nepalês de Chitwan, no centro-sul do país, Anil Thapa, policial que coordenava a recolhida de corpos, afirmou que muitos foram resgatados após ficarem submersos na água da enxurrada por cerca de quatro dias, de modo que já estavam em estado avançado de decomposição quando foram encontrados.
Em Chitwan, cerca de 250 corpos ainda aguardavam identificação. Os trabalhos são dificultados pela infraestrutura forense limitada, falta de vagas nos necrotérios e as altas temperaturas e umidade, que aceleram o processo de decomposição de cadáveres.
Especialistas alertam que deixá-los expostos poderia aumentar o risco de doenças.
– As pessoas estão preocupadas de que este possa ser um enterro definitivo, mas trata-se apenas de uma medida temporária – disse Thapa. “Se alguém conseguir confirmar a identidade posteriormente usando as informações disponíveis, poderá recuperar o corpo e realizar os ritos fúnebres apropriados.”
Amrit Bahadur Rai, secretário de Relações Exteriores do Nepal, garantiu que as famílias “poderão comparar os registros posteriormente e terão autorização para exumar os restos mortais no futuro para realizar os rituais necessários”.
Novos deslizamentos de terra na região no domingo bloquearam a principal rodovia que liga a capital, Katmandu, a Chitwan, apenas um dia após sua reabertura parcial, complicando os esforços para transportar corpos e suprimentos de ajuda humanitária.
Na área atingida pelo desastre na China, as equipes tentam reabrir uma importante estrada de acesso para permitir a entrada de equipamentos pesados. No entanto, o risco de novos deslizamentos de terra e enchentes está dificultando os trabalhos. Mais chuvas estão previstas para a região nos próximos dias.
China
A China, que vem sendo acusada de censurar informações e espalhar desinformação sobre a catástrofe, afirmou nesta segunda-feira que tem agido de forma “aberta, transparente e oportuna”.
Pequim atribui a grupos tibetanos no exterior acusações de que o governo chinês estaria subnotificando o número de mortos e desaparecidos.
Quase mil trabalhadores presos em túneis de hidrelétricas.
Enquanto isso, as equipes de resgate no Nepal estão concentrando esforços em várias usinas hidrelétricas que sofreram graves danos causados por lama e destroços.
Acredita-se que ao menos 933 trabalhadores estejam presos em múltiplos túneis dessas instalações na cordilheira do Himalaia. As operações têm sido dificultadas pela elevação do nível da água e pelas más condições climáticas.
Várias dezenas de militares, policiais e guias nepaleses trabalham dia e noite nesses locais de difícil acesso, auxiliados por especialistas vindos da Índia, China e Coreia do Sul.
Internado na capital, Katmandu, um funcionário da usina hidrelétrica Upper Trishuli, Shibu Giri, de 44 anos, descreveu como escapou milagrosamente da onda que arrasou tudo em seu caminho.
– Foi como um tsunami, com um barulho enorme e uma gigantesca nuvem de poeira – relatou à agência francesa de notícias Agence France-Presse (AFP) nesta segunda-feira. “Fugindo, subimos para áreas mais altas […] já não se via mais nada; realmente achei que não sairia vivo.”
O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, destacou a injustiça de o país sofrer impactos extremos das mudanças climáticas, apesar de possuir uma das menores emissões de carbono per capita do mundo.
Isso se deve à sua localização no Himalaia, a cadeia de montanhas mais alta do planeta, onde as geleiras estão derretendo em ritmo acelerado à medida que o aquecimento global avança.