Rio de Janeiro, 19 de Agosto de 2026

Democracia exige memória, resistência e compromisso com o futuro

Por Thiago Modenesi – Uma sociedade que esquece aqueles que lutaram por sua liberdade corre o risco de imaginar que os direitos democráticos sempre existiram e, por isso, jamais poderão desaparecer.

Quarta, 19 de Agosto de 2026 às 09:27, por: CdB

Uma sociedade que esquece aqueles que lutaram por sua liberdade corre o risco de imaginar que os direitos democráticos sempre existiram e, por isso, jamais poderão desaparecer.

Por Thiago Modenesi – de Brasília

A democracia brasileira não nasceu pronta, nem foi uma concessão daqueles que estavam no poder. Ela é resultado de uma longa e dolorosa construção histórica, marcada pela resistência de homens e mulheres que enfrentaram a repressão, a censura, a perseguição, a prisão, a tortura, o exílio e, em muitos casos, entregaram a própria vida na luta contra a ditadura.

A democracia brasileira não nasceu pronta, nem foi uma concessão daqueles que estavam no poder

Quando hoje podemos votar, organizar partidos, expressar opiniões, participar de movimentos sociais, ocupar as ruas, publicar livros e defender diferentes projetos para o país, é preciso lembrar que esses direitos não foram sempre assegurados. Muitos brasileiros viveram sem eles. Alguns pagaram com a própria vida para que as gerações seguintes pudessem exercer a liberdade que hoje consideramos parte da vida cotidiana.

A ditadura instaurada no Brasil em 1964 rompeu com a ordem democrática e instituiu um regime baseado na supressão das liberdades políticas, na censura, na perseguição aos opositores e na violência de Estado. Universidades foram atingidas, sindicatos sofreram intervenção, organizações políticas foram perseguidas e milhares de pessoas foram presas, cassadas, exiladas ou obrigadas a viver na clandestinidade. A repressão não alcançou apenas dirigentes políticos: estudantes, trabalhadores, professores, artistas, jornalistas, intelectuais e cidadãos comuns também foram perseguidos por contestarem o autoritarismo.

Muitos daqueles que resistiram sabiam dos riscos que corriam. Ainda assim, recusaram-se a aceitar que o medo determinasse os limites da liberdade. Houve quem enfrentasse a ditadura nas organizações políticas, quem atuasse na clandestinidade, quem denunciasse violações de direitos humanos, quem utilizasse a arte e a cultura como instrumentos de resistência e quem simplesmente se recusasse a permanecer em silêncio.

Alguns foram assassinados. Outros desapareceram e jamais puderam retornar para suas famílias. Muitos carregaram durante décadas as marcas físicas e psicológicas da violência. Recordar essas trajetórias não significa transformar o passado em instrumento de vingança. Significa compreender o preço da democracia.

Uma sociedade que esquece aqueles que lutaram por sua liberdade corre o risco de imaginar que os direitos democráticos sempre existiram e, por isso, jamais poderão desaparecer. A História demonstra o contrário. Democracias podem ser destruídas, instituições podem ser enfraquecidas e direitos podem ser restringidos. A liberdade também pode ser corroída gradualmente quando o autoritarismo passa a ser apresentado como solução para os problemas da sociedade.

É por isso que a defesa da democracia não pode se limitar à celebração do passado. Ela precisa representar um compromisso permanente com o presente e com o futuro.

A Constituição de 1988 simboliza uma das maiores conquistas desse processo. Depois de duas décadas de ditadura, o Brasil reconstruiu suas instituições democráticas e estabeleceu direitos fundamentais que passaram a orientar a vida nacional. O voto universal, a liberdade de expressão, o pluralismo partidário, a organização dos movimentos sociais, a liberdade de imprensa e a proteção aos direitos individuais não são detalhes administrativos. São pilares de uma sociedade democrática.

Justamente por isso, nenhuma democracia consolidada pode considerar seus retrocessos inevitáveis ou aceitáveis. Divergências políticas fazem parte da vida democrática. A alternância de poder é legítima e necessária. A existência de diferentes projetos para o país é indispensável. O problema surge quando forças políticas passam a questionar os próprios fundamentos que permitem a existência do debate democrático.

Esse é um dos desafios colocados pela ascensão da extrema direita em diferentes países e, particularmente, no Brasil. A experiência contemporânea demonstra que movimentos autoritários podem utilizar as próprias instituições democráticas para alcançar espaço político e disputar eleições. O risco não está na existência de opiniões conservadoras ou de projetos diferentes, mas na transformação do autoritarismo, da intolerância, da deslegitimação das instituições e da violência política em instrumentos legítimos de disputa pelo poder.

No Brasil de hoje, esse debate ganha uma dimensão concreta diante da candidatura de Flávio Bolsonaro, oficialmente lançada pelo Partido Liberal para a Presidência da República. Sua candidatura representa a continuidade de um campo político associado à extrema direita brasileira e torna ainda mais necessária a discussão sobre os limites democráticos da disputa eleitoral. A eleição, por si só, não transforma uma posição autoritária em democrática. O voto é condição fundamental da democracia, mas a democracia não se resume ao ato de votar.

É preciso, portanto, fazer uma distinção fundamental: a democracia deve permitir que diferentes forças políticas disputem o poder, mas não pode ser indiferente quando projetos políticos questionam os princípios que garantem a própria existência dessa disputa. Eleições livres, direitos fundamentais, liberdade de expressão, pluralismo político, independência institucional e respeito aos resultados eleitorais não são obstáculos à democracia. São a própria democracia.

Nesse sentido, a memória daqueles que morreram resistindo à ditadura possui uma dimensão profundamente contemporânea. Cada vez que alguém afirma que a ditadura foi necessária, relativiza a tortura, celebra a violência política ou apresenta a ruptura institucional como solução para conflitos democráticos, o passado volta a nos fazer uma pergunta incômoda: aprendemos alguma coisa com a nossa própria História?

Não se trata de viver prisioneiro da memória. Trata-se de transformá-la em consciência. Uma democracia madura não precisa apagar seus conflitos históricos, precisa conhecê-los, debatê-los e ensiná-los às novas gerações.

Ditadura

A memória daqueles que morreram durante a resistência à ditadura não pertence apenas às suas famílias ou aos grupos políticos aos quais pertenceram. Ela pertence à História do Brasil e à própria democracia brasileira. Essas pessoas lutaram por um país no qual seus filhos e netos pudessem escolher livremente seus governantes, organizar suas ideias e construir seus próprios caminhos.

Muitos não viveram para testemunhar a redemocratização. Não viram a campanha pelas Diretas Já, não acompanharam a promulgação da Constituição de 1988 e não participaram das eleições que marcaram a retomada da democracia. Ainda assim, suas lutas fizeram parte do caminho que nos trouxe até aqui.

Defender a democracia hoje é também uma forma de honrar aqueles que não puderam desfrutá-la plenamente. É reconhecer que suas vidas não foram esquecidas e que a liberdade pela qual lutaram não pode ser tratada como algo descartável.

A democracia brasileira, evidentemente, possui problemas. É desigual, imperfeita e atravessada por profundas injustiças sociais. Persistem a pobreza, o racismo, a violência, a desigualdade econômica e diferentes formas de exclusão. Mas essas contradições não justificam o abandono da democracia. Ao contrário: exigem mais democracia, mais participação social, mais direitos e instituições cada vez mais responsáveis diante da sociedade.

O caminho para superar as limitações da democracia não pode ser a sua destruição. Não precisamos de menos liberdade para enfrentar nossos problemas, precisamos de uma democracia capaz de produzir mais igualdade, cidadania e justiça social.

Aqueles que deram a vida na resistência à ditadura não lutaram para que as futuras gerações fossem obrigadas a concordar com suas ideias. Lutaram para que tivéssemos o direito de discordar. Essa talvez seja uma das maiores lições de suas trajetórias.

A liberdade democrática não significa que todos devam pensar da mesma maneira. Significa poder pensar, falar, organizar-se e disputar projetos diferentes sem que o Estado transforme a divergência em crime e sem que a violência substitua o debate político.

Quando uma sociedade conhece seu passado e compreende o preço da liberdade, torna-se mais difícil aceitar discursos que romantizam o autoritarismo. Quando conhece as histórias daqueles que foram perseguidos, torturados, assassinados ou desapareceram por defender direitos políticos, compreende que democracia não é apenas uma palavra bonita em um discurso. É uma construção histórica que exige vigilância, participação e compromisso.

A memória da resistência deve servir como um compromisso coletivo: nunca mais a censura como política de Estado, nunca mais a perseguição política, nunca mais a tortura como instrumento de poder; nunca mais o desaparecimento de pessoas por suas ideias, nunca mais a ruptura das instituições democráticas como método para resolver conflitos políticos.

A democracia que temos foi conquistada com luta. Cabe às gerações atuais impedir que ela seja perdida pela indiferença. E, diante dos desafios contemporâneos, essa responsabilidade torna-se ainda maior.

A disputa eleitoral de 2026 coloca novamente diante da sociedade brasileira uma questão que ultrapassa nomes e partidos: que democracia queremos preservar e transmitir às próximas gerações? A candidatura de Flávio Bolsonaro, como expressão da extrema direita brasileira, insere-se nesse debate e exige que a sociedade discuta não apenas propostas de governo, mas também o compromisso de cada projeto político com o pluralismo, os direitos fundamentais e as instituições democráticas, algo que esta não tem nenhum.

Não basta lembrar aqueles que morreram pela liberdade. É necessário defender, no presente, aquilo pelo qual eles lutaram. A melhor homenagem aos que tombaram pela democracia não é apenas erguer monumentos ou repetir seus nomes. É garantir que seus sonhos continuem vivos. É compreender que nenhuma geração recebe a democracia como uma herança definitiva. Cada geração precisa conquistá-la, protegê-la e transmiti-la à próxima.

Os que deram a vida na resistência fizeram a sua parte. Agora, a responsabilidade é nossa.

 

Thiago Modenesi, é Bacharel em Direito, Licenciado em História e Pedagogo, Especialista em Ensino de História, Ciência Política, Gestão da Aprendizagem e Moderna Educação, Mestre e Doutor em Educação, com pos-doutorado na área. É professor no Mestrado em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste e nos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica e Ciências Farmacêuticas, todos na UFPE, membro do INCT iCeis, pesquisador sobre inovação e Estado, charges, cartuns e histórias em quadrinhos e editor na Quadriculando Editora, além de presidente do PCdoB em Jaboatão dos Guararapes-PE.

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