Casos recentes em estádios reacendem debate sobre racismo, identidade nacional e o avanço de discursos ultranacionalistas na Argentina e em outras democracias.
Por Thiago Modenesi – de Brasília
Os episódios recentes de manifestações racistas envolvendo parte de torcedores argentinos provocaram indignação em toda a América Latina. Não se trata de um fenômeno isolado, mas de um problema que precisa ser compreendido dentro de um contexto político e social mais amplo. O crescimento da extrema-direita em diversos países, inclusive na Argentina, contribuiu para tornar mais visíveis discursos nacionalistas, xenófobos e racistas que antes permaneciam mais restritos.

É importante, contudo, evitar generalizações. A Argentina não pode ser reduzida ao comportamento de uma parcela de seus torcedores. O país possui uma longa tradição de movimentos populares, sindicais, estudantis e de direitos humanos que sempre combateram o preconceito. Da mesma forma, milhões de argentinos rejeitam manifestações racistas e não se identificam com elas.
Ao mesmo tempo, é inegável que o futebol de alto rendimento passou por profundas transformações. As grandes seleções nacionais estão cada vez mais inseridas em uma indústria global bilionária, aproximando seus protagonistas de interesses econômicos, patrocinadores e círculos de poder muitas vezes distantes da realidade vivida pela maioria da população. Esse distanciamento também pode ser percebido em outras seleções sul-americanas.
Na Argentina, alguns gestos públicos de jogadores ou pessoas ligadas ao futebol têm sido interpretados por parte da opinião pública como aproximações com setores conservadores ou da direita internacional. Também chama atenção o fato de Israel promover, em algumas ocasiões, iniciativas e eventos relacionados à seleção argentina, o que acaba sendo lido politicamente por diferentes grupos em razão do contexto internacional.
Historicamente, porém, a imagem da seleção argentina era outra. Ídolos como Diego Maradona, Mario Kempes, Juan Román Riquelme e Carlos Tévez cultivaram uma forte identificação com os setores populares do país. Maradona, sobretudo, tornou-se um símbolo do Sul Global ao desafiar poderes estabelecidos dentro e fora do futebol. Um gol de Maradona era celebrado em diversos países latino-americanos como uma vitória dos povos periféricos diante das grandes potências esportivas.
Hoje, parte dessa identificação parece enfraquecida. O futebol transformou-se em uma vitrine globalizada, e muitos torcedores latino-americanos já não enxergam a seleção argentina como representante dos anseios populares da região. A antipatia manifestada em diferentes países também foi alimentada por diversos episódios envolvendo comportamentos inadequados de parte de torcedores argentinos, especialmente em competições continentais.
É igualmente importante recordar que a própria história argentina desmente a narrativa de uma identidade exclusivamente europeia ou branca. A população afro-argentina desempenhou papel relevante na formação do país, embora sua contribuição tenha sido frequentemente invisibilizada ao longo da história. A tentativa de apresentar a Argentina como um país exclusivamente branco faz parte de uma construção histórica. Desde o final do século XIX, setores das elites políticas difundiram o ideal de “europeização” do país, estimulando a imigração europeia e apagando a participação decisiva de negros e indígenas na formação nacional.
A história, entretanto, desmente esse mito. Milhares de afro-argentinos lutaram nas guerras de independência ao lado de José de San Martín. María Remedios del Valle, mulher negra, foi reconhecida como heroína nacional e hoje é celebrada como a Madre de la Patria. A invisibilização dessa herança não ocorreu por acaso, ela integra um processo histórico de branqueamento simbólico que buscou aproximar a identidade argentina de uma suposta Europa transplantada para a América do Sul.
A construção de uma identidade nacional baseada na ideia de uma suposta homogeneidade branca ignora parte significativa da formação social argentina. É justamente essa tradição de branqueamento que parte da extrema-direita contemporânea procura recuperar.
Argentina
Ao defender uma identidade nacional homogênea, branca e europeizada, esses movimentos reeditam antigas narrativas que negam a diversidade étnica da Argentina e reforçam preconceitos contra imigrantes, povos indígenas, afrodescendentes e outros grupos. Trata-se de um fenômeno que ultrapassa as fronteiras argentinas.
Discursos semelhantes encontram eco na extrema-direita brasileira, europeia e norte-americana, que frequentemente utilizam referências comuns em torno do nacionalismo excludente e da rejeição ao multiculturalismo. O combate ao racismo, portanto, não passa apenas pela condenação de episódios ocorridos nos estádios, mas também pelo enfrentamento das ideias que procuram naturalizar a exclusão e apagar a verdadeira história dos povos latino-americanos.
Em diferentes partes do mundo observa-se o crescimento de movimentos que procuram redefinir a identidade nacional em bases étnicas ou culturais restritivas, frequentemente alimentando preconceitos contra minorias e estrangeiros. Combater essas ideias exige fortalecer a educação, a memória histórica e a valorização da diversidade.
Também não se pode ignorar o contexto econômico vivido pela Argentina. O país atravessa uma grave crise social, com elevados índices de pobreza. Em um cenário como esse, eventos esportivos internacionais de alto custo tendem a ser frequentados principalmente pelos setores com maior poder aquisitivo, o que pode produzir uma representação social bastante diferente da composição real da sociedade argentina.
Os lamentáveis casos de racismo protagonizados por parte de torcedores, e eventuais comportamentos inadequados de atletas ou dirigentes, quando ocorrerem, devem ser denunciados e responsabilizados. Mas é igualmente importante distinguir essas atitudes da identidade de todo um povo. A Argentina produziu alguns dos maiores símbolos populares da história do futebol, e milhões de argentinos continuam defendendo valores democráticos e antirracistas.
O combate ao racismo não deve servir para alimentar novos preconceitos nacionais, mas para reafirmar um princípio universal: nenhuma sociedade está imune ao avanço da intolerância, e enfrentá-la é uma responsabilidade coletiva em toda a América Latina e no mundo.
Thiago Modenesi, é Bacharel em Direito, Licenciado em História e Pedagogo, Especialista em Ensino de História, Ciência Política, Gestão da Aprendizagem e Moderna Educação, Mestre e Doutor em Educação, com pos-doutorado na área. É professor no Mestrado em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste e nos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica e Ciências Farmacêuticas, todos na UFPE, membro do INCT iCeis, pesquisador sobre inovação e Estado, charges, cartuns e histórias em quadrinhos e editor na Quadriculando Editora, além de presidente do PCdoB em Jaboatão dos Guararapes-PE.
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