Rio de Janeiro, 02 de Julho de 2026

Eleitor, a extrema-direita mente para você

Por Thiago Modenesi – Discurso antiestablishment, promessas de ruptura e prática neoliberal são confrontados em uma análise sobre campanhas, governos e seus...

Quarta, 01 de Julho de 2026 às 09:40, por: CdB

Discurso antiestablishment, promessas de ruptura e prática neoliberal são confrontados em uma análise sobre campanhas, governos e seus impactos para os trabalhadores.

Por Thiago Modenesi – de Brasília

Em tempos de crise orgânica do capitalismo, a extrema-direita surge como um fenômeno paradoxal. Apresenta-se como a antítese do sistema, a voz da rua, o furacão que varrerá a política tradicional. No entanto, essa aparência disruptiva esconde uma função objetiva: a de salvar o próprio sistema que diz combater. Ao analisar suas campanhas e, sobretudo, seus governos, percebe-se que a extrema-direita não apenas mente, mas atua como o mais fiel agente do neoliberalismo e da reprodução ampliada do capital.

Em tempos de crise orgânica do capitalismo, a extrema-direita surge como um fenômeno paradoxal

Durante a campanha, o discurso é sempre o mesmo: romper com a “casta”, acabar com os privilégios, devolver o poder ao povo. Por trás dessa retórica inflamada, porém, não há qualquer projeto de transformação estrutural. O que há, na verdade, é um receituário econômico envelhecido e ultraneoliberal: austeridade fiscal, desregulamentação total, ataques aos direitos trabalhistas, privatização de estatais e abertura desenfreada ao capital financeiro.

A motosserra de Javier Milei e similares contra o Estado nada mais é que o velho programa de desmonte do bem-estar social, agora embalado com adereços de rebeldia. A extrema-direita não quer destruir o capitalismo; quer destruir os mecanismos que limitam sua selvageria. Seu verdadeiro inimigo não é a elite, mas o trabalhador organizado, o sindicato, a previdência pública e qualquer conquista que impeça a livre circulação do lucro.

Do ponto de vista marxista, a extrema-direita cumpre um papel histórico preciso: o de gerir a crise política do capitalismo quando a social-democracia e a direita tradicional já não conseguem mais impor a agenda neoliberal sem gerar rejeição massiva. Ela é a válvula de escape que canaliza a insatisfação popular não para a luta de classes, mas para o ódio contra supostos inimigos externos ou internos, a “política tradicional”, os “privilegiados”, os “vagabundos”.

Essa postura é o que Gramsci chamaria de hegemonia pelo medo: em vez de conquistar o consenso pelo bem-estar, a extrema-direita governa pela desorientação, fazendo o trabalhador acreditar que seu explorador é o Estado, e não o patrão. Ao personificar o inimigo em figuras abstratas, como a casta, o sistema, ela oculta a verdadeira relação de produção: a exploração do trabalho pelo capital.

O mais revelador, porém, é que, uma vez no poder, essa mesma força de “ruptura” descarta qualquer veleidade transformadora e corre para os braços dos políticos conservadores de carreira. E não por acaso: o capital precisa de governabilidade, de quadros experientes que saibam administrar a máquina estatal a serviço dos grandes grupos econômicos. Os outsiders são úteis para incendiar a campanha, mas não para gerenciar o incêndio que o próprio neoliberalismo provocou.

Argentina

Na Argentina, Javier Milei prometeu fechar o Banco Central e dolarizar a economia, propostas que, se levadas a sério, implodiriam a soberania nacional. Ao assumir, não fez nem uma coisa nem outra. Em vez disso, escolheu para seu ministério nomes como Luis Caputo, Patricia Bullrich e Guillermo Francos, todos integrantes da velha guarda do macrismo, o mesmo establishment que ele jurou extinguir. O que ocorreu? Uma desvalorização brutal do peso, um pacote de austeridade que jogou milhões na pobreza e um desmonte acelerado dos direitos sociais, tudo em nome do “ajuste necessário”. Para o capital financeiro, Milei é um sonho; para o povo, um pesadelo com rosto de motosserra.

Na Colômbia, Abelardo de la Espriella venceu recentemente com discurso de ruptura e, em seguida, já apontou que nomeará Rodrigo Lara Restrepo, ex-senador do Cambio Radical, e José Manuel Restrepo, ex-ministro de Iván Duque. Ou seja: a mesma política que a campanha execrava passou a dirigir o governo. A reação nas redes sociais foi imediata, com apoiadores se sentindo enganados. E estão certos: foram enganados. Mas o engano é estrutural, não acidental. A extrema-direita só chega ao poder para aplicar, com ainda mais rigor, a agenda que a direita tradicional já não tem coragem de impor.

Para o marxismo, o fetiche da mercadoria oculta as relações sociais sob a aparência de coisas. Do mesmo modo, o fetichismo político da extrema-direita oculta a dominação de classe sob a aparência de ruptura. O eleitor acredita estar votando em alguém que balança o sistema, mas está, na verdade, votando em um gestor da crise que aprofundará a exploração.

A mentira não é um deslize ético; é uma necessidade sistêmica. Sem a promessa de ruptura, a extrema-direita não angaria votos entre os trabalhadores, sem a prática conservadora, ela não obtém o apoio do grande capital. Ela precisa mentir para ser eleita e precisa trair para governar. Essa contradição é inerente à sua natureza: são no geral partidos da burguesia que se vestem de movimento supostamente popular.

Quando um candidato de extrema-direita promete quebrar tudo, desconfie. Por trás da retórica anti-establishment, está o mais velho dos programas: o neoliberalismo em sua versão mais agressiva, a favor do capital e contra o trabalho. Quando ele chega ao poder, nomeia os mesmos políticos que condenou, porque são eles que sabem como servir aos interesses das elites.

A extrema-direita mente para você, eleitor, não por acaso, mas por função. Mente para transformar sua raiva em voto, sua esperança em submissão e seu futuro em lucro para poucos. O palco da campanha é uma farsa, o governo, o verdadeiro rosto do capital. E esse rosto, meus caros, nunca foi disruptivo, sempre foi o mesmo de sempre. Cuidado, pois a bola da vez do golpe da extrema-direita no tabuleiro latino-americano é o Brasil, e o nome do golpista é Flávio.

 

Thiago Modenesi, é Bacharel em Direito, Licenciado em História e Pedagogo, Especialista em Ensino de História, Ciência Política, Gestão da Aprendizagem e Moderna Educação, Mestre e Doutor em Educação, com pos-doutorado na área. É professor no Mestrado em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste e nos Programas de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica e Ciências Farmacêuticas, todos na UFPE, membro do INCT iCeis, pesquisador sobre inovação e Estado, charges, cartuns e histórias em quadrinhos e editor na Quadriculando Editora, além de presidente do PCdoB em Jaboatão dos Guararapes-PE.

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