Em meio a um contexto mundial conturbado e ao crescimento da extrema direita no país, o presidente António José Seguro lembrou que a liberdade depende da paz.
Por Redação, com RFI – de Lisboa
Portugal celebrou neste sábado os 52 anos da Revolução dos Cravos, que pôs fim a mais de 40 anos de ditadura, com uma sessão solene realizada na Assembleia da República e uma manifestação nas ruas de Lisboa.

Em meio a um contexto mundial conturbado e ao crescimento da extrema direita no país, o presidente António José Seguro lembrou que a liberdade depende da paz.
– A liberdade é tão natural como a nossa vida. A liberdade, a igualdade, a justiça social, a democracia são valores que fazem parte da nossa identidade coletiva – disse o presidente socialista português em seu discurso na tradicional sessão solene do Parlamento.
– O 25 de Abril de 1974 é de valor inquestionável” e foi, “de certa forma, em termos coletivos, um nascimento – completou Seguro, em seu primeiro discurso comemorativo da Revolução dos Cravos como presidente. Ele foi empossado como chefe de Estado em 9 de março.
– Mas a liberdade não vive isolada. Está profundamente ligada à paz. Num tempo em que assistimos com inquietação a guerras que devastam países e destroem vidas, compreendemos melhor esta ligação – acrescentou.
Defesa da democracia
Em um momento de crescimento da extrema direita em Portugal, Seguro se dirigiu aos jovens, afirmando que não pede para que “amem o 25 de abril”, mas que tenham a noção de que as conquistas da revolução têm tradução concreta na vida cotidiana.
– O perigo para a democracia raramente chega como nos filmes”, e sim num “argumento que parece inofensivo e, nos dias de hoje, também com algoritmos – disse, afirmando que “fora” da democracia “não há mais justiça e nem mais liberdade”. “Se queremos uma política melhor, não é afastando-nos da política que a mudamos, é participando”.
O presidente português também pediu aos jovens que ajam sempre que virem direitos fundamentais serem violados. “Quando ouvirem a palavra liberdade a ser usada para restringir, defendam-na”, declarou Seguro. “Não se calem, falem mais alto”, disse, pedindo que os jovens não sejam espectadores da democracia, mas protagonistas.
– Cuidar da liberdade é exercê-la com coragem – sublinhou, pedindo que “não a tratem como garantida”. “Ou defendemos com coragem ou arriscamos a perdê-la com silêncio”, concluiu, ao recordar que tinha 12 anos no 25 de Abril e que só é presidente porque esse dia existiu.
“Silêncio às armas”
A Associação 25 de Abril, organização que divulga e preserva a memória da revolução, também fez referência à conjuntura de guerras durante as comemorações deste ano. Em mensagem lida por seu presidente, Vasco Lourenço, durante um jantar comemorativo realizado na sexta-feira (24), em Lisboa, a associação pediu “silêncio às armas” e o fim dos conflitos. “As guerras nunca são solução para os conflitos que quase sempre servem interesses obscuros”, afirmou a mensagem, acrescentando que “o mundo está altamente conturbado”.
“Hoje comemoramos os 52 anos da libertação e da conquista da paz em Portugal, com o lançamento de um grito que confiamos que possa ser ouvido pelos nossos dirigentes, mas que também possa extravasar as nossas fronteiras e possa ser escutado pelos dirigentes de todo o mundo”, diz o texto.
“O mundo está perturbado porque há loucos que estão a tomar conta de alguns países com a demagogia e a mentira a aproveitarem-se da fraca memória dos povos. O direito Internacional é cada vez mais uma falácia onde impera a lei do mais forte. O medo começa a reinstalar-se”, lamentou.
Cravos vermelhos
A Revolução dos Cravos foi um movimento militar e popular ocorrido em 25 de abril de 1974, em Portugal, que pôs fim à ditadura do Estado Novo, vigente desde 1933, derrubando o regime autoritário. O nome vem do gesto simbólico de civis que colocaram cravos vermelhos nos canos das armas dos soldados, representando a natureza pacífica da revolução, que abriu caminho para a democratização do país, a liberdade política e o processo de descolonização das colônias portuguesas na África.
Além da sessão solene que marca o aniversário da data todos os anos, também será realizado o tradicional desfile na Avenida da Liberdade, em Lisboa.
A atriz portuguesa Maria de Medeiros contou, em entrevista à agência francesa de notícias RFI, como a revolução a marcou. “Recordo muito bem. O 25 de abril de 1974, eu estava em Viena, tinha nove anos, mas lembro-me de ver os meus pais literalmente aos saltos de alegria na sala do nosso apartamento”, contou a atriz e diretora que, em 2000, produziu e dirigiu o filme franco-português Capitães de Abril, que retrata a história da Revolução dos Cravos.
– Os meus pais eram novos, eram pessoas divertidas. Mas eu senti que a alegria desse dia era algo muito especial, muito diferente e que ia muito profundo neles e que alguma coisa de muito importante tinha acontecido, que, de fato, revolucionou não só Portugal, mas revolucionou a vida dos portugueses e a nossa também.