Polícia Federal amplia cerco a esquema bilionário de fraudes que levou à liquidação do Banco Master.
Por Redação, com Agenda do Poder – de São Paulo
O empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, foi preso nesta quarta-feira durante a segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal. Zettel foi detido em um aeroporto no momento em que se preparava para embarcar em um jatinho com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, segundo reportagem do diário conservador carioca O Globo. Ele era alvo de mandado de busca e apreensão, mas acabou preso antes de deixar o país.

A detenção ocorre em um contexto semelhante ao da primeira fase da operação. Em novembro do ano passado, o próprio Daniel Vorcaro foi preso enquanto embarcava em um jatinho no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, também com destino a Dubai. À época, a Polícia Federal avançava sobre suspeitas de graves irregularidades financeiras no âmbito do Banco Master, então comandado por Vorcaro.
Buscas, bloqueios e suspeita de fraude bilionária
Nesta nova etapa da Compliance Zero, os investigadores cumprem 42 mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Vorcaro e a familiares no estado de São Paulo. As ordens judiciais foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal e incluem medidas de sequestro e bloqueio de bens e valores que ultrapassam R$ 5,7 bilhões.
A investigação apura um suposto esquema de criação e negociação de títulos de crédito falsos, utilizados para inflar artificialmente a situação financeira do Banco Master e maquiar balanços contábeis. Diante das suspeitas de fraude, a instituição acabou sendo liquidada, com o encerramento de suas atividades no sistema financeiro.
Fundos sob suspeita e operações relâmpago
Em parte, o esquema envolvia aplicações em fundos de investimento cujas operações despertaram a atenção das autoridades e passaram a ser investigadas pelo Banco Central do Brasil.
Um dos casos mais emblemáticos é o do Fundo Brain Cash, administrado pela gestora Reag. Com apenas 20 dias de existência, o fundo recebeu R$ 450 milhões a partir de um empréstimo do Banco Master e multiplicou seu patrimônio em cerca de 30 mil vezes. Essa foi a única transação registrada no balanço do fundo, que possuía apenas um investidor, uma empresa dirigida por uma ex-funcionária da própria Reag.
Procurada, a Reag explicou “que os recursos mencionados decorrem de operações de crédito estruturadas cujos desembolsos estavam vinculados ao avanço de projetos específicos” e que, “por determinação contratual, a liberação das parcelas só poderia ocorrer após a confirmação de marcos de execução e aprovação técnica desses projetos”.
Apesar da explicação, a operação chamou a atenção do Banco Central e passou a ser apurada pelo Ministério Público Federal, diante da suspeita de reavaliação indevida de ativos, que teria gerado uma rentabilidade considerada extraordinária e incompatível com padrões normais de mercado.
Rede de transações e alerta do Banco Central
As apurações sobre a relação entre o Banco Master e a Reag identificaram uma série de transações financeiras realizadas em curto espaço de tempo por uma rede de fundos. Uma dessas operações envolve diretamente o Brain Cash.
Em comunicação enviada ao Ministério Público Federal, o Banco Central afirmou que empréstimos suspeitos concedidos pelo Banco Master a 36 empresas foram aplicados em fundos com rendimento incerto e inferior ao custo das operações de crédito. Segundo a autoridade monetária, o volume dessas operações superou duas vezes o tamanho do patrimônio do banco em agosto do ano passado.
“Os recursos tomados eram aplicados, em quase sua totalidade, de forma compulsória, em fundo de liquidez com remuneração incerta, a qual se revelou, em todos os casos, muito inferior ao custo da operação de crédito”, diz o documento.
Dados do Banco Central indicam que cerca de R$ 10,5 bilhões oriundos dessas operações de crédito foram aplicados por 36 empresas em fundos administrados pela Reag Investimentos. No período analisado, o Banco Master possuía um patrimônio de referência de R$ 4,7 bilhões, o que reforçou as preocupações das autoridades sobre a sustentabilidade e a legalidade das operações.
TCU acompanha liquidação do banco
Após a decretação da liquidação do Banco Master, o Tribunal de Contas da União anunciou que realizaria uma inspeção no caso. A iniciativa gerou tensão institucional e reação no mercado financeiro, diante do receio de que a Corte de Contas extrapolasse atribuições da autoridade monetária.
Depois de semanas de impasse, uma reunião realizada na segunda-feira levou a um entendimento entre os órgãos. Ficou acordado que o TCU fará um trabalho de fiscalização do processo de liquidação do Banco Master sem criar riscos à atuação do Banco Central nem abrir brechas para a defesa dos acionistas da instituição liquidada.
Rentabilidades fora do padrão
Entre as operações analisadas pelas autoridades, há registros de rentabilidades consideradas incompatíveis com a realidade do mercado. Uma delas teria alcançado 10.502.205,65% em 2024. Segundo os investigadores, o fluxo financeiro sob suspeita tinha origem e destino no Banco Master, liquidado no fim do ano passado justamente pelas suspeitas de fraude.
Com a prisão de Fabiano Zettel e o aprofundamento das diligências, a Polícia Federal busca agora mapear com mais precisão a extensão do esquema, identificar todos os beneficiários e esclarecer o papel de cada um dos envolvidos nas operações que culminaram na queda de uma instituição financeira de médio porte e em um dos maiores escândalos recentes do setor bancário.