Análise relaciona avanço dos direitos das mulheres à reação conservadora e defende unidade anticapitalista contra patriarcado, misoginia e violência de gênero.
Por Leandro do Erre – de São Paulo
Nas últimas décadas, e com intensidade renovada nos últimos anos, temos testemunhado o surgimento de um fenômeno chamado “crise da masculinidade”. Influenciadores digitais, atores de novelas, líderes religiosos e movimentos que pregam o “resgate do poder masculino” unem suas vozes em um coro uníssono: o homem moderno estaria enfraquecido, castrado pelo feminismo e privado de seu “papel natural” na sociedade. No entanto, uma análise crítica revela que essa suposta crise é, na verdade, uma construção ideológica. Não há uma crise estrutural do ser homem; o que existe é o pânico moral de uma ideologia conservadora que se recusa a aceitar o protagonismo feminino.

Não podemos ignorar que há uma crise em torno do papel masculino na sociedade contemporânea. Esse fenômeno atravessa diferentes segmentos: entre os jovens, manifesta-se sobretudo no início do processo de socialização, em meio a transformações profundas que já não oferecem a segurança de um protagonismo previamente definido; entre os adultos, surge como insegurança diante da perda de referências tradicionais e da necessidade de se adaptar a novas dinâmicas sociais, familiares e profissionais. Em ambos os casos, trata-se de um impacto real que não pode ser desconsiderado. Contudo, reduzir a análise apenas a esse aspecto é insuficiente; é preciso compreender como setores conservadores se apropriam dessa conjuntura para reforçar discursos e práticas que buscam preservar a dominação masculina, apresentando-se como resposta às angústias de homens em geral, mas operando, na essência, para manter intacta a lógica patriarcal.
A chamada “crise da masculinidade” é, na realidade, uma reação ao enfraquecimento do patriarcado diante da perda de seus privilégios históricos. Para compreender a essência desse fenômeno, é necessário revelar como o conservadorismo se adapta e muda de roupagem ao longo do tempo — seja por meio da religião, de movimentos que defendem o “resgate da honra e do protagonismo masculino”, da mercantilização de cursos voltados a “homens enfraquecidos” ou da violência do movimento Red Pill. Em todas essas manifestações, a essência permanece a mesma: a necessidade de subjugar a mulher para garantir a manutenção do domínio patriarcal.
O patriarcado não é natural: a grande derrota do feminino.
Para desconstruir a ideologia da fragilidade masculina, é preciso recorrer ao desenvolvimento da sociedade. Em sua obra clássica A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado[1], Friedrich Engels demonstra que o domínio masculino não é um dado biológico, mas uma construção histórica com origens econômicas e políticas.
Nas sociedades primitivas, a linhagem era traçada pela linha materna (o direito materno) e as mulheres exerciam um papel central na sociedade primitiva. A humanidade já viveu sob o que Engels chamou de ginecocracia, onde a mulher gozava de liberdade, respeito e poder. No entanto, com o advento da domesticação de animais e o acúmulo de riquezas — a gênese da propriedade privada —, os homens precisaram garantir que essa herança fosse repassada aos seus filhos biológicos, com o objetivo de garantir o controle do poder econômico.
Para assegurar a paternidade (direito paterno), impuseram a monogamia estrita às mulheres e derrubaram o direito materno. Engels[1] define esse momento de forma categórica:
“O desmoronamento do direito materno, a grande derrota histórica do sexo feminino em todo o mundo. O homem apoderou-se também da direção da casa; a mulher viu-se degradada, convertida em servidora, em escrava da luxúria do homem, em simples instrumento de reprodução.”
Em outra passagem, Engels[1] destaca:
“O descobrimento da primitiva gens do direito materno, como etapa anterior à gens de direito paterno dos povos civilizados, tem, para a história primitiva, a mesma importância que a teoria da evolução de Darwin para a biologia e a teoria da mais-valia, enunciada por Marx, para a economia política.”
Desde então, esse processo forjou o caminho para a união entre patriarcado e capitalismo. A submissão da mulher não é uma ordem natural ou divina, mas uma exigência econômica e política para a manutenção do poder do patriarcado em conluio com o capitalismo. A atual “crise da masculinidade” é apenas a reação ideológica a qualquer tentativa de reverter esse processo de dominação.
As três faces do conservadorismo.
Ao longo da história, e especialmente na atualidade, essa ideologia conservadora se manifesta de formas aparentemente distintas, mas que operam com a mesma essência, a defesa estrutural da dominação masculina. Podemos identificar três exemplos centrais dessa dinâmica.
A religião como instrumento de dominação masculina.
A religião foi uma das primeiras e mais eficazes ferramentas utilizadas para legitimar a derrubada do matriarcado. Engels aponta como a antiga liberdade sexual das mulheres foi convertida, nos templos da antiguidade, em rituais de expiação, nos quais a entrega do corpo passou a ser uma exigência religiosa. Da mesma forma, a narrativa da família patriarcal foi naturalizada pelos textos sagrados, como os livros de Moisés, que apresentaram o domínio masculino como ordem eterna e divina.
Essa lógica permanece viva nos púlpitos de diversas igrejas evangélicas – segmento religioso mais conservador. Multiplicam-se discursos que exigem a submissão incondicional da mulher ao marido e que chegam a orientar vítimas de violência doméstica a se manterem em relações abusivas. Em um sermão que viralizou nas redes, o apóstolo Adelino de Carvalho afirmou que as mulheres fiéis deveriam se submeter sexualmente ao marido como forma de retribuição pelo sustento, naturalizando o estupro marital sob a roupagem de doutrina bíblica. Em outro episódio, o pastor José Carlos de Lima interrompeu um culto para criticar publicamente a vestimenta de uma mulher presente, expondo-a diante da congregação e gerando revolta nas redes sociais.
A religião
A mesma retórica aparece em vídeos que circulam nas redes sociais, como o do pastor Moisés, que afirmou categoricamente que as mulheres “têm que ser submissas ao marido”, apoiando-se em versículos bíblicos descontextualizados e ignorando qualquer noção de reciprocidade ou respeito mútuo. Além disso, há uma postura das igrejas que silenciam vítimas de violência doméstica, orientando-as a “orar mais”, “perdoar” e “voltar para casa”, “Deus vai restaurar seu casamento”. Reportagens recentes (Revista Cenarium e dados do UOL – 2025) revelam que 42,7% das mulheres evangélicas já sofreram violência doméstica e, ao buscar apoio, encontram respostas que reforçam a permanência no ciclo de abuso.
Nesse contexto, a religião funciona como um véu ideológico que transforma a violência material em “vontade de Deus”. Pesquisas recentes (Guiame – 2025 e Vocativo 2026) indicam que a violência doméstica afeta desproporcionalmente mulheres evangélicas no Brasil: 69% das vítimas de violência grave afirmam frequentar igrejas evangélicas. A estrutura de submissão pregada nos púlpitos atua, portanto, como legitimação religiosa da dominação patriarcal.
Os movimentos de resgate da “honra masculina” e a mercantilização da “masculinidade”.
A segunda face desse fenômeno são os chamados movimentos de “resgate da honra masculina”, como o grupo Legendários e outros semelhantes. À primeira vista, sua retórica não se expressa por meio de agressões explícitas contra as mulheres; pelo contrário, costuma vir revestida de apelos à tradição, à honra, à espiritualidade ou à valorização do papel masculino na sociedade. No entanto, sob essa forma aparentemente positiva, persiste a mesma essência: a defesa da submissão feminina como condição para a reafirmação da identidade masculina. Ao propor que o homem recupere sua “honra” ou seu “protagonismo”, tais movimentos reforçam a ideia de que a mulher deve ocupar um lugar secundário, legitimando, de maneira sutil, a continuidade da dominação patriarcal.
Essa ideologia encontra sua expressão mais lucrativa na mercantilização da chamada “crise masculina”. Cursos, imersões e plataformas de “desenvolvimento masculino” transformam a angústia de homens alienados pelo próprio sistema capitalista em um produto altamente rentável. Eventos como O Farol e a Forja, de Juliano Cazarré, ou programas religiosos como Esto Vir: Seja Homem, do padre Paulo Ricardo, prometem reconectar os homens com sua “verdadeira masculinidade” por meio de palestras sobre liderança, espiritualidade e paternidade. Projetos evangélicos como Homem ao Máximo e plataformas como Homem Alpha misturam linguagem de autoajuda, hierarquias da manosphere e discursos bíblicos para vender a ideia de que a solução para a “fraqueza” masculina é o retorno a um modelo tradicional de dominação. Até redes internacionais, como a Christian Men’s Network, oferecem cursos que vinculam masculinidade à autoridade espiritual e familiar.
Essas iniciativas não oferecem respostas reais aos dilemas emocionais ou sociais dos homens. Ao contrário, reforçam a noção de que a saída para a “crise” é a reafirmação da masculinidade hegemônica, vendida como mercadoria para aqueles que se sentem ameaçados pelo avanço dos direitos das mulheres. Criando câmaras de eco que reafirmam o ódio e o preconceito contra as mulheres, esses espaços funcionam como engrenagens de retroalimentação da violência simbólica e material. Trata-se, em última instância, da fetichização da masculinidade patriarcal, transformada em produto de consumo e apresentada como solução ilusória para o mal-estar masculino contemporâneo.
O movimento Red Pill e a violência misógina.
A terceira e mais extremada manifestação dessa ideologia é o movimento Red Pill e a chamada “machosfera”. Enquanto os cursos conservadores procuram embalar a dominação masculina em uma estética de honra e virtude cristã, o Red Pill expõe sem disfarces a violência crua e o ressentimento que sustentam o patriarcado.
Baseados em uma distorção de conceitos evolucionistas e na hierarquização social entre “machos alfa” e “beta”, esses grupos promovem abertamente a desumanização da mulher. Não por acaso, essa ideologia tem servido como combustível para a radicalização de jovens e para a ocorrência de massacres e ataques de ódio. O massacre de Isla Vista, nos Estados Unidos, em 2014, é um exemplo emblemático: Elliot Rodger, de 22 anos, matou seis pessoas e feriu outras 14 após publicar um manifesto de 137 páginas culpando as mulheres por rejeitá-lo sexualmente, tornando-se uma espécie de “santo” para comunidades incel online. Em 2018, Alek Minassian atropelou pedestres com uma van em Toronto, matando 11 pessoas e ferindo 15; antes do ataque, declarou no Facebook que “a rebelião incel já começou”, reverenciando Elliot Rodger como modelo. Em 2021, no Reino Unido, Jake Davison assassinou cinco pessoas, incluindo sua própria mãe, antes de se suicidar, após expressar em fóruns incel e canais da machosfera seu ódio contra mulheres e frustrações sexuais.
Brasil
No Brasil, a mesma lógica se manifestou em episódios como o estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro, em 2016, cometido por mais de 30 homens que filmaram e compartilharam o vídeo como troféu, reproduzindo a dinâmica de dominação e desumanização típica da machosfera. Entre 2022 e 2026, diversos ataques a escolas também foram conectados à radicalização de adolescentes em fóruns incel, levando o governo federal a identificar comunidades online que combinavam discurso de ódio contra mulheres com apologia à violência e a criar operações policiais específicas contra esses grupos.
O Red Pill, portanto, representa a expressão nua e direta do pânico masculino diante da impossibilidade de exercer controle absoluto sobre o corpo e a vida das mulheres.
Unidade para derrotar o verdadeiro inimigo.
Fica claro, que não podemos reduzir esse fenômeno da “crise da masculinidade” como uma crise psicológica ou a fragilidades individuais. O que se revela é uma lógica estrutural que se expressa em diferentes formas: seja na religião que invoca Deus para manter o controle, numa pseudo ética masculina que reafirma a dominação ou na violência explícita que busca o extermínio. Todas essas manifestações compartilham uma mesma espinha dorsal: o conservadorismo que não aceita a transformação da sociedade, que rejeita o protagonismo feminino e que resiste à construção de uma ordem plural.
Diante dessa realidade, entendo que há um elemento central para quem deseja sinceramente combater o patriarcado: é indispensável construir, na ação militante, um caráter anticapitalista nas lutas específicas. O patriarcado não se sustenta isoladamente; ele está enraizado na lógica da propriedade privada e na exploração capitalista. Por isso, qualquer enfrentamento real à dominação masculina exige também o fortalecimento da unidade do campo de esquerda, capaz de articular feminismo, antirracismo, sindicalismo e ambientalismo em uma ação comum contra o inimigo estrutural. Somente uma perspectiva anticapitalista pode abrir caminho para a emancipação plena das mulheres e para a construção de uma sociedade verdadeiramente plural e justa.
Não basta discutir e combater o patriarcado de forma isolada e sem conexão com a luta anticapitalista, ou tratar a violência contra a mulher apenas como um problema das mulheres. Da mesma forma que não conseguiremos superar de forma permanente o racismo dentro dos marcos do capitalismo, também não seremos capazes de barrar a destruição ambiental ou a exploração do trabalho sem questionar o próprio sistema. Todas essas lutas — feminista, antirracista, ambiental e sindical — não podem se resolver plenamente de forma isolada. É necessário construir unidade, encontrar convergências e caminhar juntos rumo a uma transformação estrutural que enfrente as bases do capital e da dominação patriarcal.
A crítica ao capitalismo deve ser o eixo capaz de unificar essas forças em um projeto comum. Só assim poderemos avançar para uma sociedade plural, justa e verdadeiramente humana, que respeite todas as pessoas — independentemente de sexo, raça ou classe. Esse processo exige consolidar uma grande crítica anticapitalista, capaz de orientar a ação coletiva contra a exploração e o preconceito, e abrir caminho para uma nova forma de organização social.
Referências
ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Capítulo II – A Família. Marxists Internet Archive. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1884/origem/cap02.htm
Revista Centauro: https://revistacenarium.com.br/pastora-evangelica-alerta-sobre-violencia-domestica-e-incentiva-denuncias/
UOL: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2025/10/09/evangelicas-vitimas-de-violencia-sofrem-com-cobranca-da-igreja-ora-pouco.htm
Guiame: https://guiame.com.br/gospel/noticias/mais-de-42-das-mulheres-evangelicas-ja-sofreram-violencia-domestica-diz-pesquisa.html
VOCATIVO: https://vocativo.com/2026/03/22/mulheres-evangelicas-enfrentam-mais-violencia-e-denunciam-menos/
Leandro do Erre, é mestrando em Sociologia e Ciência Política na PUCRS e responsável pelo canal no YouTube “A questão política”. Redes Sociais: X: @leandrodoerre Facebook: Leandro do Erre.
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