Duas semanas após os tremores duplos que devastaram o norte do país, milhares seguem sem casa, sem água potável e vivendo em abrigos improvisados, enquanto governo busca recursos para reconstrução.
Por Redação, com DW – de Caracas
As caixas d’água azuis são parte do cenário urbano da Venezuela. Muitas famílias, inclusive na capital Caracas, precisam armazenar água nos dias em que a empresa estatal de abastecimento comparece. Em algumas comunidades, esse fornecimento de água potável chega a ocorrer a cada dois meses. Os terremotos que atingiram o norte da Venezuela duas semanas atrás arruinaram os já precários serviços de abastecimento, saneamento e higiene do país.

– Sempre temos água no reservatório, uma reserva de água. Mas, com o terremoto, a maioria dos tanques das casas quebrou – disse Juliani Herrera, moradora de Maiquetía, cidade conhecida por abrigar o principal aeroporto do país, à agência norte-americana de notícias Associated Press. “Agora, temos de esperar para ver se um caminhão-pipa aparece para encher alguns baldes.”
Maiquetía fica no Estado costeiro de La Guaira, o mais atingido pela tragédia. O que antes era um destino turístico caribenho, virou um banheiro a céu aberto. Famílias passaram a usar a praia para tomar banho e fazer suas necessidades fisiológicas.
O cenário é ideal para a propagação de doenças, ainda mais sob altas temperaturas e chuvas sazonais, afirma Beatriz Ochoa, diretora regional para a América Latina do Conselho Norueguês para Refugiados.
Muitos moradores estão em abrigos temporários ou ao relento, com pouca privacidade e sem ter ideia se terão para onde voltar. “Vi famílias fazendo tudo o que podem para manter a dignidade em condições extremamente difíceis”, relatou Ochoa em comunicado.
– Em um abrigo temporário, vi famílias se organizando para manter limpas as áreas comuns, incluindo banheiros improvisados e sistemas básicos de gestão de resíduos. A determinação delas é notável, mas as famílias não deveriam ter de suportar esse fardo sozinhas.
Selos
Engenheiros e arquitetos avaliam o perigo das casas afetadas pelos terremotos e marcam com um adesivo verde as que estão seguras, com um amarelo as que precisam de reparos, e em vermelho as que precisam ser evacuadas.
– Algumas pessoas estão chorando muito porque, claro, é uma perda total. Foram tantos anos construindo essas casas para vê-las desaparecer em apenas 39 segundos – diz Juana Alfonzo, 65 anos, à agência francesa de notícias Agence France-Presse (AFP).
Ela continua circulando por sua residência e dormindo com mais cinco parentes em barracas no quintal, em um bairro de baixa renda em Catia la Mar, a cerca de dez quilômetros de Maiquetía. O piso está afundado e rachado, e as colunas apresentem danos visíveis. É uma das casas que terão o adesivo vermelho colado na fachada.
Gustavo Duque, prefeito de Chacao, bairro de classe média de Caracas, pede cautela na interpretação do selo vermelho. “Isso não implica necessariamente demolição, mas o edifício precisa passar por uma avaliação técnica para determinar se pode ser recuperado”, disse à AFP.
Em La Guaira, mais de 800 prédios foram afetados, dos quais 190 desabaram totalmente.
Até o momento, o registro oficial é de que 3.811 pessoas morreram após os dois terremotos. Os tremores consecutivos, de magnitudes 7,2 e 7,5, também deixaram 16.740 feridos e 17.907 desabrigados, informou o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez.
O Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres estimou os danos físicos diretos a moradias e infraestrutura em cerca de US$ 37 bilhões (R$ 190,5 bilhões), valor equivalente a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) venezuelano.
Delcy Rodríguez
A líder interina do país, Delcy Rodríguez, pediu na quarta-feira a liberação de recursos venezuelanos bloqueados no exterior, enquanto a ONU tenta arrecadar cerca de US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão) para auxiliar na recuperação do país.
Rodríguez afirmou ter “decidido enviar uma carta, entre outras autoridades, ao rei da Inglaterra” para solicitar a liberação das reservas de ouro venezuelanas congeladas no Banco da Inglaterra devido às sanções econômicas.
Os Estados Unidos, a União Europeia e outros países impuseram sanções cada vez mais rigorosas à Venezuela nas últimas duas décadas, algumas delas ainda em vigor, sob alegações de práticas antidemocráticas do governo e de que o país servia de refúgio para o narcotráfico.
O governo de Donald Trump, que capturou o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro e agora apoia sua vice, Rodríguez, vem flexibilizando gradualmente as sanções.
A resposta do regime venezuelano ao desastre vem sendo alvo de críticas de parte da população, que considera lentas e insuficientes as ações de emergência. Rodríguez rejeitou as críticas, atribuindo as denúncias a “laboratórios midiáticos”, e afirmou que as operações de busca e resgate continuam.
– A Venezuela tem recursos bloqueados ao redor do mundo que poderiam financiar esse processo de reconstrução – afirmou a presidente em entrevista à emissora estatal VTV.
A presidente interina anunciou que seu governo está trabalhando com especialistas para identificar áreas adequadas para “construir novas moradias e cidades resistentes a terremotos”. Ela acrescentou que empresas locais e internacionais também foram convocadas “para a construção rápida e intensiva de habitações”. O plano do governo venezuelano, com apoio da ONU, é trazer ao país moradias pré-fabricadas para acelerar o processo de construção.