Rio de Janeiro, 11 de Outubro de 2026

Círio de Nazaré antecipa o Natal dos paraenses

E, assim como no Natal, a mesa farta também é parte fundamental da celebração.

Domingo, 11 de Outubro de 2026 às 16:03, por: CdB

E, assim como no Natal, a mesa farta também é parte fundamental da celebração.

Por Evelyn Ludovina, do Mídia Ninja – de Belém

O clima de Natal é conhecido em diferentes partes do mundo. Quando dezembro chega, vêm com ele o cheiro de rabanada, o panetone recém-aberto, os reencontros familiares e as casas decoradas com guirlandas e presépios. Em Belém, no entanto, esse sentimento começa dois meses antes, em outubro. O Círio de Nazaré, uma das maiores manifestações religiosas do mundo, transforma a capital paraense em um espaço de fé, tradição e confraternização e, para muitos paraenses, representa uma espécie de Natal antecipado.

Círio de Nazaré
Milhões de fiéis da Nossa Senhora de Nazaré vão às ruas para acompanhar um dos maiores movimentos religiosos do mundo

— Uma amiga minha viu uma árvore de Natal decorada assim e, na mesma hora, me disse que era a minha cara. Eu amei a ideia e comecei a ter essa tradição em casa, com itens que são aqui da nossa terra, como as cuias, as fitas, as ceras, os banhos (de cheiro). É o meu olhar do Círio — conta Kelly.

E, assim como no Natal, a mesa farta também é parte fundamental da celebração. Na casa de Kelly e de milhares de famílias paraenses, o aroma da maniçoba anuncia a chegada do Círio. Pato no tucupi e vatapá também fazem parte do cardápio tradicional, que reúne parentes e amigos em torno da mesa. “Não pode faltar pato no tucupi e maniçoba. O vatapá a gente negocia, mas os outros dois são inegociáveis. E a maniçoba só serve se for feita muita, porque sempre temos que presentear com um pouco”, explica.

 

Manifestação

A relação com o Círio, entretanto, não se limita à religião. Regina Sueli participa da festividade desde criança e mantém a tradição herdada de seus antepassados. Hoje integrante da Igreja Messiânica Mundial do Brasil, fundada no Japão, ela continua todos os anos a homenagear a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, mesmo sem ser mais católica praticante.

“Acreditamos que ela toma conta do nosso estado e intercede perante Deus pela proteção divina. Mesmo eu não sendo mais católica praticante, tenho essa manifestação cultural dentro de mim”, afirma.

Para Regina, um dos momentos mais emocionantes é observar a multidão que acompanha a passagem da imagem. Pessoas de diferentes origens, cidades e crenças se reúnem nas ruas de Belém, em uma manifestação coletiva que ultrapassa as diferenças religiosas. “Pessoas de todos os tipos, estados e interiores se unem em uma só oração. Quando ela passa, a gente sente a emoção das pessoas. Eu sinto uma união de todas as religiões e fico extremamente feliz”, relata, com a voz embargada pela emoção.

 

Nossa Senhora

Assim como o Natal é associado à generosidade e à atenção ao próximo, o Círio também desperta gestos de solidariedade entre os paraenses. Durante a festividade, voluntários distribuem água aos romeiros, oferecem massagens nos pés de quem percorre longas distâncias para homenagear Nossa Senhora e arrecadam alimentos para comunidades em situação de vulnerabilidade. São demonstrações de cuidado que se espalham pelas ruas e reforçam o caráter coletivo da celebração, acompanhada por músicas, orações e pelo tradicional cumprimento “Feliz Círio!”.

“Uma coisa que eu acho fantástica é as pessoas se desejarem ‘Feliz Círio’, assim como a gente deseja Feliz Natal, independentemente do credo. É uma explosão de fraternidade e união”, destaca Kelly, que também é devota de Nossa Senhora de Nazaré.

Para quem vive longe, a chegada de outubro pode despertar saudade, já para quem está em Belém, é tempo de reencontros e de reviver tradições. Kelly e Regina compartilham a sensação de que a cidade se transforma durante a festividade.

 

Procissão

Para Regina, a experiência está ligada também à própria história na capital paraense.

— Quem mora aqui vibra o ano todo por esse momento. Se eu não morasse aqui, ia sentir falta do nosso Natal, das comidas típicas, da roda-gigante em que eu rezava para chegar o Círio e poder andar quando era criança, dos fogos de artifício… Eu agradeço a Deus por pertencer a essa cidade, que tem uma fé tão forte ligada a Deus — conta.

É nesse conjunto de lembranças, sabores, encontros e demonstrações de afeto que o Círio ganha um significado que vai além da procissão. Para Kelly, viver essa experiência em Belém é um privilégio que se renova a cada ano.

“A gente tem o privilégio de viver dois ‘natais’. O Natal a gente celebra em qualquer lugar do mundo; o Círio só existe aqui. Só tem um lugar para se viver outubro: Belém do Pará”, afirma.

A ideia de que o Círio é o Natal dos paraenses traduz a maneira como a festividade mobiliza a cidade e aproxima pessoas. Em outubro, Belém se enche de fé, tradição, saudade e solidariedade, reafirmando os laços que unem seus moradores e aqueles que, mesmo longe, esperam o ano inteiro para voltar. Afinal, para muitos paraenses, o Círio não é apenas uma celebração religiosa, é também um reencontro com suas raízes e com tudo aquilo que faz de Belém um lugar para chamar de casa.

 Evelyn Ludovina é correspondente do site de notícias Midia Ninja, em Belém.

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